João Gilberto en México

João Gilberto

1970

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Por Que Esse Disco é Importante

Lançado em 1970, João Gilberto en México, também conhecido como Ela é Carioca no Brasil, representa um momento crucial e, por vezes, subestimado na discografia de João Gilberto. Este álbum é um testemunho da constante evolução do pai da bossa nova, que, após anos de sucesso e reconhecimento internacional, incluindo o aclamado Getz/Gilberto, optou por uma fase de experimentação em terras mexicanas. A obra se destaca por sua natureza transicional, amalgamando a essência minimalista e sofisticada da bossa nova com elementos da música popular mexicana e americana. Gilberto demonstra uma notável disposição em reavaliar sua sonoridade, incorporando arranjos orquestrais sutis e um repertório diversificado que vai além dos clássicos brasileiros. É um disco que revela as sementes de ideias musicais que floresceriam plenamente em álbuns posteriores, como *Amoroso* (1977) e *João* (1991), confirmando a inquietude artística do violonista e cantor baiano.

Contexto

O álbum surge após um período de intensa atividade de João Gilberto nos Estados Unidos, onde gravou obras significativas e expandiu a visibilidade global da bossa nova. Em 1969, após um convite para se apresentar na Cidade do México, o artista acabou prolongando sua estadia de dez dias para aproximadamente dois anos, encantado pela atmosfera da cidade que, segundo sua então esposa Miúcha, se assemelhava ao Brasil. Durante este interregno, que marcou uma pausa de cinco anos sem lançamentos de estúdio desde *Getz/Gilberto Vol. 2* (1966), João Gilberto dedicou-se à concepção de *João Gilberto en México*. Este período de "exílio artístico" no México foi fundamental para a concepção de um trabalho que reflete tanto suas raízes quanto sua abertura a novas influências culturais e musicais.

Gravação

A gravação de *João Gilberto en México* ocorreu em 1970, nos estúdios da Orfeon Discos, na Cidade do México. O álbum contou com a produção de Mariano Rivera Conde e arranjos precisos do violonista Oscar Castro-Neves, que foi trazido de Los Angeles. Castro-Neves soube dar forma apurada ao disco, mantendo fidelidade à estética minimalista de João Gilberto, mesmo com a inclusão de orquestrações. A ficha técnica do disco não detalha todos os músicos, mas fontes indicam a participação do percussionista brasileiro Chico Batera, do baixista Dório e do percussionista mexicano José Luis Ferra. Embora as orquestrações sejam presentes, elas são utilizadas de forma econômica e discreta, por vezes soando ao fundo, o que alguns críticos atribuem a um orçamento modesto, mas que resultou em um equilíbrio perfeito. A qualidade de gravação, embora considerada por alguns como um tanto "pobre" para a época, confere uma sonoridade realisticamente intimista ao álbum.

Músicas

O repertório de *João Gilberto en México* é uma tapeçaria rica que entrelaça composições brasileiras consagradas, autorais e standards internacionais. Faixas como "Ela é Carioca" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), "De Conversa Em Conversa" (Lúcio Alves e Haroldo Barbosa), "O Sapo" (João Donato) e "Esperança Perdida" (Tom Jobim e Billy Blanco) reafirmam a conexão de Gilberto com o universo da bossa nova. Contudo, o álbum se aventura por territórios inéditos em sua discografia até então. João Gilberto assina duas composições próprias, as instrumentais "João Marcelo" e "Acapulco", esta última uma homenagem ao local de sua estadia. A inclusão de boleros e canções em espanhol, como "Farolito" (Agustín Lara), "Bésame Mucho" (Consuelo Velásquez) e "Eclipse" (Ernesto Lecuona), marca a primeira vez que o artista canta em um idioma que não o português, adaptando seu estilo único a esses clássicos latinos. Nestas interpretações, João frequentemente emprega arpejos em vez de sua característica 'batida' no violão. A versão de "Trolley Song" (Irving Berlin), famosa na voz de Judy Garland, com uma adaptação em português de Haroldo Barbosa, exemplifica a fusão com o pop americano. O álbum, com seus onze temas, totaliza cerca de 27 minutos de duração.

Legado

Apesar de não ter alcançado o mesmo status icônico de outros trabalhos de João Gilberto, *João Gilberto en México* é considerado um álbum artisticamente relevante, muitas vezes descrito como uma "joia escondida" ou um "conjunto interessante de músicas" por críticos. Revela a coragem de Gilberto em experimentar e introduzir novas ideias musicais, algumas das quais seriam desenvolvidas em projetos futuros. O álbum é visto como um trabalho de transição, com uma leve "verniz pop", que antecipou a sonoridade mais elaborada de *Amoroso* (1977) e a profundidade de *João* (1991). O jornalista Mauro Ferreira descreve seu repertório como "fino" e observa a capacidade de João de sublimar o drama inerente ao bolero com seu canto *cool*, como nas interpretações de "Bésame Mucho" e "Eclipse". Curiosamente, é um dos discos preferidos de sua filha, Bebel Gilberto.

Faixas

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João Gilberto - En Mexico

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