A Tábua de Esmeralda

Jorge Ben Jor

1974

Capa de A Tábua de Esmeralda
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

A Tábua de Esmeralda, lançado em 1974, representa um ponto de virada fundamental na vasta discografia de Jorge Ben Jor, marcando o início de sua aclamada fase de "alquimia musical". Este álbum se destaca por sua profunda imersão em um universo místico, esotérico e filosófico, misturando o samba suingado e contagiante do artista com letras complexas e transcendentais sobre autoconhecimento, espiritualidade afro-brasileira e filosofia hermética. Sua sonoridade única e as melodias que soam simultaneamente naturais e imprevisíveis o estabelecem como uma obra singular na Música Popular Brasileira. Além de sua riqueza lírica e temática, o disco é notável por ser o último projeto de Jorge Ben em que o uso do violão é intensivo. A sonoridade particular e a expressividade de seu violão neste álbum se tornaram um marco, com o próprio artista expressando, anos mais tarde, a dificuldade de replicar aquela mesma qualidade devido a questões técnicas. Essa característica confere ao álbum um valor nostálgico e insubstituível na jornada musical de Ben Jor, capturando um momento de maestria instrumental e inovação temática.

#6

Cada acorde reforça a certeza de que nenhum outro violão, em nenhum outro disco, soa nem soará daquele jeito.

Ramiro Zwetsch · Rolling Stone Brasil

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Contexto

O ano de 1974 encontrava o Brasil sob o auge da Ditadura Militar, período marcado por intensa repressão e censura à produção artística. Nesse cenário, muitos artistas buscavam maneiras criativas de veicular mensagens e reflexões, e foi nesse contexto de efervescência cultural e política que Jorge Ben Jor, então com 35 anos e já com dez álbuns aclamados, concebeu A Tábua de Esmeralda. Jorge Ben, já um ícone pela fusão singular de samba, rock, soul e bossa em sua obra, aprofundou-se em estudos de teologia, filosofia e, principalmente, alquimia. Essa imersão foi catalisada por uma experiência mística vivenciada em 1973, quando, em Paris, visitou a antiga casa do alquimista Nicolas Flamel ao lado de Gilberto Gil, onde ambos relataram ter tido uma visão de figuras do século XV, um acontecimento que influenciou diretamente o direcionamento temático do álbum.

Gravação

A produção de A Tábua de Esmeralda foi assinada por Paulinho Tapajós, com a engenharia de gravação a cargo de Luigi Hoffer e João Moreira. Os arranjos, um pilar fundamental na construção da atmosfera musical do álbum, foram desenvolvidos por Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard, com Milito sendo responsável pelos arranjos de faixas como "Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas" e "Magnólia", e Bellard contribuindo com sintetizadores e arranjos de cordas em "Errare Humanum Est". O time de músicos convocado para as gravações incluiu nomes como Dadi Carvalho no baixo e Pedrinho Batera na bateria, que, juntamente com o violão central de Jorge Ben, consolidaram uma sonoridade orgânica e consistente. A capa, criada por Aldo Luiz, é uma obra de arte à parte, incorporando explicitamente figuras como Nicolas Flamel e Hermes Trismegisto, elementos visuais que reforçam a temática mística e alquímica presente em todo o projeto.

Músicas

As doze faixas de A Tábua de Esmeralda formam um verdadeiro tratado musical sobre mitologia medieval, alquimia, cosmologia egípcia e a teoria hermética, com Jorge Ben Jor demonstrando um profundo conhecimento de figuras como São Tomás de Aquino, Paracelso, Nicolas Flamel e Hermes Trismegisto. Essa complexidade temática se entrelaça, de forma única, com o habitual orgulho negro e a celebração da alegria, marcas registradas do artista. Canções como a faixa de abertura, "Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas", que anuncia um novo tempo e uma maior consciência social, e "O Homem da Gravata Florida (A Gravata Florida de Paracelso)", que brinca com as peculiaridades de Paracelso, mergulham no universo alquímico. "Menina Mulher da Pele Preta" e "Zumbi" reafirmam a identidade afro-brasileira, enquanto "Errare Humanum Est" faz uma intrigante ponte entre filosofia e teorias de contato extraterrestre, citando autores como Erich von Däniken. Outras pérolas incluem "Magnólia", que inspirou uma peça teatral cinquenta anos depois, e "O Namorado da Viúva", uma referência à lenda de Nicolas Flamel. A faixa "Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda" chega a citar diretamente o texto hermético que dá nome ao álbum, encapsulando a proposta mística e filosófica que permeia cada acorde e verso deste trabalho atemporal.

Se um artista – qualquer um – apresentasse numa gravadora o projeto de transformar em disco histórias e preceitos dos alquimistas, ciência da Idade Média que transmutava substâncias à procura da pedra filosofal, seria posto porta afora.

Tárik de Souza · 300 Discos Importantes

Legado

Desde seu lançamento, A Tábua de Esmeralda tem sido universalmente aclamado como um dos mais importantes, se não o principal, álbuns da carreira de Jorge Ben Jor e um dos pilares da Música Popular Brasileira. Sua relevância é atestada por diversas listas de prestígio, incluindo a da revista Rolling Stone Brasil, que o elegeu o sexto melhor disco brasileiro de todos os tempos. Críticos como Philip Jandovský, do Allmusic, e Mike Wojciechowski, do Tiny Mix Tapes, o consideram uma obra-prima, destacando suas melodias naturais e imprevisíveis. O álbum não só consolidou a fase da "alquimia musical" de Jorge Ben Jor, mas também influenciou gerações de artistas brasileiros com sua mistura inovadora de groove contagiante e letras transcendentais. Passados cinquenta anos de seu lançamento, a perenidade de sua arte é celebrada com o surgimento de projetos como uma peça teatral e um show inspirados em suas canções, reiterando o impacto duradouro e a reverência que A Tábua de Esmeralda continua a desfrutar na cultura musical brasileira.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo

Darcy De Paulo, Hugo Bellard, Osmar Milito

Produção

Paulinho Tapajós

Composição

Jorge Ben

Corte

Joaquim Figueira

Técnico [Recording]

João Moreira, Luigi Hoffer

Arte

Aldo Luiz

Fotografia

Mario Luiz T. De Carvalho

Podcasts

Referências

Livros