África Brasil
Jorge Ben Jor
1976

Porque Merece Estar na Lista
África Brasil, o décimo quarto álbum de estúdio de Jorge Ben Jor, lançado em 1976, representa um marco fundamental na carreira do artista. Neste trabalho, Ben Jor consolidou de maneira definitiva sua transição do violão acústico para a guitarra elétrica, um movimento já ensaiado em álbuns anteriores, mas que aqui se estabelece como parte integrante de sua identidade sonora. O álbum é notável por sua ousada fusão de gêneros e técnicas composicionais, unindo a riqueza da música afro-brasileira com a vibrante música popular negra estadunidense. Essa síntese, sobre a qual o compositor já trabalhava desde o início de sua trajetória, atingiu seu ápice em África Brasil, solidificando as bases estilísticas do samba-rock e posicionando o disco como uma referência incontornável dentro desse subgênero musical. Sua sonoridade única é uma celebração rítmica que merece atenção especial.

num conjunto de canções de valor inestimável.
Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil
Contexto
Desde o começo de sua carreira, no início dos anos 1960, Jorge Ben já se distanciava dos arranjos tradicionais da bossa nova, buscando uma proximidade maior com os aspectos da música popular afro-brasileira. Combinando essa veia com a forte influência da música popular negra dos Estados Unidos, seu trabalho começou a ganhar visibilidade, criando as bases do que viria a ser reconhecido como samba-rock pela crítica especializada. África Brasil marca o ápice dessa fusão de samba com soul music e funk, alinhando-se à guinada mais pop e dançante que o mercado fonográfico brasileiro começava a apresentar na virada das décadas de 1970 para 1980. O álbum sinalizou uma mudança crucial na trajetória de Ben, que passou a se afastar do estilo de composição mais tradicional da MPB da época, abraçando uma sonoridade mais acessível e popular, que lhe abriria as portas do mainstream da música afro-brasileira.
Gravação
A produção de África Brasil foi assumida por Marco Mazzola, que também se encarregou da mixagem, substituindo Paulinho Tapajós, produtor dos álbuns anteriores de Jorge Ben. A equipe de arranjadores contou com talentos como o pianista José Roberto Bertrami, o saxofonista Oberdan Magalhães e o baterista Wilson das Neves. Bertrami, conhecido por seus trabalhos com Raul Seixas e Elis Regina, atuou nas faixas orquestradas e utilizou sintetizadores, antecipando o uso desses instrumentos nos discos de Ben na década de 1980. A sonoridade do álbum é notoriamente mais pesada, influenciada pelo funk e pela soul music estadunidenses, mas articulada com os recursos sonoros específicos da música afro-brasileira, como o samba e o ijexá. Instrumentos de percussão tradicionais como pandeiros, cuícas, surdos e atabaques foram habilmente combinados com bateria, saxofone, trompete, baixo elétrico e, crucialmente, a guitarra elétrica de Jorge Ben, que se tornaria seu instrumento definitivo. A configuração percussiva foi enriquecida ainda com a inclusão de instrumentos típicos da música cubana, como congas e tumbas, oriundos da tradição afro-cubana. Essa combinação conferiu uma sonoridade mais acústica em contraste com os demais instrumentos eletrificados, resultando em uma tapeçaria sonora rica e inovadora, gravada no estúdio Phonogram de 16 canais.
Músicas
Com 11 faixas de autoria de Jorge Ben Jor, incluindo algumas regravações, África Brasil explora uma temática lírica explicitamente afro-brasileira, em um período de emergência dos movimentos negros no Brasil, mesmo sob o contexto de repressão da ditadura militar. A representação da cultura negra não se limita às letras, mas se manifesta profundamente na seleção de instrumentos e nos procedimentos rítmicos, com a presença marcante de gêneros musicais de matriz africana, como o candomblé, evidenciado pelo uso do atabaque. As composições do álbum são um reflexo da versatilidade musical de Ben Jor. O estilo vocal de Jorge Ben oscila entre um ritmo mais agressivo e grave, influenciado pelo rock, como se ouve em "África Brasil (Zumbi)", e um ritmo mais suave e sincopado, inspirado pela soul music, exemplificado em "Xica da Silva". Ambas as canções se destacam por fazerem referência a personagens históricos importantes do Brasil.

Eleito entre os 100 melhores da edição americana da revista Rolling Stone em 2002 (na frente de álbuns de Sinatra, Miles Davis, Joy Division e Beck, seu fã declarado), África Brasil sintetiza a conexão matadora do DNA do próprio músico.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
África Brasil foi um sucesso comercial e de crítica desde seu lançamento em 1976, vendendo cerca de 60 mil cópias na época, um número expressivo para o mercado brasileiro. Apesar de não ter sido o maior sucesso de vendas de Ben, o álbum rapidamente se consolidou como um dos trabalhos mais celebrados da música popular brasileira, tanto no cenário nacional quanto internacional, graças à sua originalidade na produção e qualidade musical. A crítica especializada internacional elogiou a fusão musical do álbum. O site Allmusic descreveu-a como "um dos sons mais fascinantes já gravados no Brasil", enquanto o livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die o caracterizou como uma espécie de "manifesto do soul carioca", combinando o melhor de James Brown e Sly Stone. Em 2002, o álbum foi relançado em versão remasterizada pela Universal e, no mesmo ano, foi eleito pela revista Rolling Stone como um dos 50 álbuns mais legais do mundo, sendo o único disco brasileiro na lista. Em 2003, a Rolling Stone Brasil o classificou como o número 67 entre os 100 maiores discos da música brasileira, reafirmando seu status de obra icônica e sua influência duradoura.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Jorge Ben
Mazzola
Jorge Ben
Claudia Telles, Evinha, Marisa Fossa, Regina Werneck, Waldyr
José Roberto Bertrami
Dadi
Zezinho
Marcio Montarroyos
Darcy Da Cruz
Neném Da Cuica
Ariovaldo Contesini, Djalma Correa, Hermes Contesini
Pedrinho Batera
José Carlos
Doutor, Gustavo Schroeter, João Parahyba, Wilson Canegal
João "Bum"
Oberdan Magalhães
Luna
Wilson Das Neves
Mazzola
Ary Carvalhaes, João Moreira, Luigi Hoffer, Paulo Sergio
Luigi Hoffer
Rafael Azulay
Jorge Vianna
Aldo Luiz
Orlando Abrunhosa
