Jorge Ben
Jorge Ben Jor
1969

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em novembro de 1969 pela Philips Records, Jorge Ben é um marco fundamental na carreira do cantor, compositor e guitarrista Jorge Ben Jor, consolidando sua sonoridade inovadora e sua persona artística única. O álbum representou seu retorno a uma grande gravadora após um hiato de quatro anos e diferenças criativas, trazendo uma fusão vibrante de samba com elementos de música psicodélica e soul, que o posicionou como uma figura singular no cenário musical brasileiro. Este trabalho resgatou a efervescência de sua estreia, Samba Esquema Novo, mas com uma maturidade e experimentação que o tornaram um clássico instantâneo. Jorge Ben não é apenas um disco de samba, mas uma tapeçaria sonora rica que antecipou tendências e capturou o espírito de uma época. Suas letras bem-humoradas e perspicazes abordam temas do cotidiano, romances, a identidade afro-brasileira e a autoconsciência, enquanto a inventividade rítmica, marcada pelo "samba de batida firme em 4/4", se tornaria uma assinatura do artista. Acompanhado pelo icônico Trio Mocotó e com arranjos de José Briamonte e Rogério Duprat, o álbum irradia uma energia contagiante que o tornou uma das obras mais célebres e acessíveis de Jorge Ben.
Contexto
O álbum Jorge Ben surge em um período de intensa efervescência cultural e política no Brasil, marcado pela ascensão da Tropicália e, ao mesmo tempo, pelo endurecimento da ditadura militar e a consequente censura. Antes deste lançamento, Jorge Ben havia tido um início promissor com a Philips Records em 1963, com o sucesso de Samba Esquema Novo. No entanto, a pressão da gravadora por lançamentos rápidos e o controle criativo levaram ao rompimento em 1965, após o álbum Big Ben. Nos anos seguintes, Ben atuou de forma independente, lançando apenas o álbum de poucas vendas O Bidú: Silêncio no Brooklin (1967). Durante esse período, ele aperfeiçoou seu estilo singular e compôs canções que foram gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Os Mutantes, Wilson Simonal e Elis Regina. Esse reconhecimento chamou a atenção da Philips, que, sob nova direção de André Midani e com o apoio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, o recontratou em 1969, abrindo caminho para a criação de um de seus discos mais importantes.
Gravação
A gravação do álbum Jorge Ben foi realizada em dois estúdios no Brasil: C.B.D., no Rio de Janeiro, e Scatena, em São Paulo. Para este projeto, Jorge Ben selecionou um repertório de canções que havia composto nos dois anos anteriores, refletindo sua fase de aperfeiçoamento estilístico. A produção ficou a cargo de Manoel Barenbein, com a engenharia de som sob a responsabilidade de Stelio Carlini, Ary Carvalhaes, Didi, João Kibelestis e Célio Martins. Um dos pontos altos da gravação foi o acompanhamento do Trio Mocotó, grupo vocal e percussivo que Jorge Ben conheceu nos clubes paulistanos do fim dos anos 1960, cuja contribuição se tornaria intrínseca à sonoridade do samba-rock. Os arranjos orquestrais foram divididos entre José Briamonte, responsável pela maioria das faixas, e Rogério Duprat, que assinou os arranjos de "Barbarella" e "Descobri que Eu Sou um Anjo", adicionando uma dimensão de psicodelia tropical à música. O disco foi produzido com efeitos sonoros considerados de ponta para a época, contribuindo para sua textura inovadora.
Músicas
A sonoridade do álbum Jorge Ben é um caldeirão de ritmos e estilos, centrada no que o crítico Greg Caz descreveu como o "samba de batida firme em 4/4", um ritmo que se tornaria um pilar do movimento underground do samba-rock e da obra do artista na década seguinte. A fusão do acompanhamento percussivo e vocal do Trio Mocotó com os arranjos de cordas de José Briamonte e Rogério Duprat resultou em uma forma única de psicodelia tropical, comparada à experimentação de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Os Mutantes. Faixas como "Descobri que Eu Sou um Anjo" são notáveis por sua inventividade, e "Take It Easy My Brother Charles" incorpora elementos de funk, evidenciando a capacidade de Ben de transcender gêneros. As letras, por sua vez, são um espelho da genialidade de Jorge Ben, abordando temas como romances, o cotidiano brasileiro e o futebol, como na icônica "País Tropical", onde ele canta sobre seu amor pelo Flamengo. Ben emprega frequentemente repetições, humor e jogos sonoros, priorizando o som das palavras em vez de extensos versos. Além disso, o álbum manifesta uma consciência racial e afirmação da identidade afro-brasileira, presente em canções como "Crioula", que retrata a transformação de uma mulher negra do mercado em rainha do Carnaval, simbolizando a realeza africana que, por engano geográfico, nasceu no Brasil.
Legado
Jorge Ben representou um retorno triunfal para o artista e se tornou um dos álbuns mais aclamados e reconhecidos de sua discografia. Comercialemente, foi um grande sucesso, com canções como "País Tropical", "Que Pena" e "Cadê Teresa" já sendo amplamente conhecidas e interpretadas por outros artistas antes mesmo do lançamento do disco. A crítica musical rapidamente associou o álbum aos movimentos musicais do samba-rock e da Tropicália, consolidando a posição de Jorge Ben como uma figura independente que soube mesclar a tradição do samba com as inovações da época. Embora tenha havido algumas críticas mistas na época, como a de Tárik de Souza na revista Veja sobre os arranjos de Briamonte, o consenso crítico posterior é de que o álbum é uma obra-prima. Em 2022, foi incluído na lista dos "500 maiores discos da música brasileira" em votação do podcast Discoteca Básica, reafirmando sua importância duradoura. O álbum foi relançado diversas vezes ao longo dos anos, incluindo uma edição remasterizada nos Estados Unidos em 2008 pela Dusty Groove America e, em 2018, a primeira versão em vinil nos EUA pela Verve/Universal Music Enterprises, celebrando seu 50º aniversário, o que demonstra seu reconhecimento internacional e a relevância contínua de sua obra.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
José Briamonte, Rogério Duprat
Manoel Barenbein
Jorge Ben
Ary Carvalhaes, Célio Martins, João Kibelkstis, Oswaldo Cruz Vidal, Stelio Carlini
Albery
Lincoln
Armando Pittigliani
Johnny Salles
