Solta o Pavão
Jorge Ben Jor
1975

Porque Merece Estar na Lista
Solta o Pavão, lançado em 1975, é um marco indelével na discografia de Jorge Ben Jor, notável por introduzir a banda Admiral Jorge V e, pela primeira vez, apresentar o artista empunhando a guitarra elétrica em um álbum de estúdio. Este disco encapsula perfeitamente a fusão rítmica que se tornou a assinatura de Ben Jor: uma vibrante tapeçaria de samba, samba-rock, soul e funk, com um toque psicodélico que o diferencia em sua vasta obra. É um álbum que reflete a essência do seu estilo musical, caracterizado por um suingue singular que muitos tentaram replicar, mas que permanece inimitável. A obra se destaca por seu balanço contagiante, misticismo e uma forte religiosidade, características que o artista já vinha explorando e que aqui se intensificam. "Solta o Pavão" representa uma espécie de explosão sonora na transição de Jorge Ben Jor do violão para a guitarra, preparando o terreno para álbuns futuros igualmente emblemáticos, como África Brasil. A exuberância rítmica do álbum e suas letras poéticas, muitas vezes repletas de temáticas esotéricas e humanistas, conferem-lhe uma importância duradoura na música brasileira, sendo um tesouro para os apreciadores da MPB e do samba-funk.
Contexto
Em meados da década de 1970, Jorge Ben Jor já era uma figura estabelecida na música brasileira, com uma carreira que se estendia desde o sucesso internacional de "Mas Que Nada" em 1963. Ele já havia explorado diversas vertentes musicais, desde a bossa nova inicial até incursões no samba-rock, no soul e influências da Tropicália. Antes de Solta o Pavão, o artista havia lançado álbuns aclamados como A Tábua de Esmeralda (1974), um disco de alta criatividade, com melodias inventivas e harmonias despojadas, que abordava esoterismo, religião e filosofia. Nesse período, o cenário musical brasileiro fervilhava com experimentações e apropriações de ritmos internacionais, especialmente o funk e o soul norte-americanos, que se mesclavam às raízes brasileiras. "Solta o Pavão" surge nesse contexto de efervescência criativa, consolidando ainda mais o estilo único de Jorge Ben Jor, que, com seu violão e, a partir deste álbum, a guitarra elétrica, continuava a forjar uma linguagem musical completamente peculiar, cheia de ritmo e brasilidade.
Gravação
A gravação de Solta o Pavão ocorreu nos Estúdios Phonogram, localizados na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A direção de produção e estúdio ficou a cargo de Paulinho Tapajós, que desempenhou um papel crucial na concepção sonora do álbum. A equipe técnica foi composta por João Moreira, Luiz Cláudio e Luigi Hoffer como técnicos de gravação, com Luigi Hoffer também assumindo a mixagem do disco. Paulo "Chocolate" Sérgio e Zé Guilherme atuaram como auxiliares de gravação. Um aspecto notável da gravação foi o acompanhamento da banda Admiral Jorge V, marcando a primeira vez que Jorge Ben Jor trabalhou com este grupo em um álbum de estúdio. A banda era formada por João Roberto Vandaluz no piano, Dadi Carvalho no baixo, Gustavo Schroeter na bateria e Joãozinho Pereira na percussão, com o próprio Jorge Ben Jor na voz, guitarra e violão. Esta formação trouxe uma nova energia e textura para as composições do artista, especialmente com a introdução da guitarra elétrica em seu arsenal musical, amplificando o som e consolidando a transição para uma sonoridade mais eletrificada que seria plenamente explorada em trabalhos posteriores.
Músicas
As doze faixas de Solta o Pavão são inteiramente autorais e demonstram a genialidade lírica e rítmica de Jorge Ben Jor. As canções "Jorge da Capadócia", "Zagueiro" e "Dumingaz" são frequentemente citadas como as mais famosas do álbum e se tornaram clássicos de seu repertório. "Jorge da Capadócia" é uma ode vibrante ao santo guerreiro, com um refrão marcante e uma energia mística que a tornou uma das favoritas do público. "Zagueiro" é um samba lúdico e poético que celebra os defensores do futebol, um tema recorrente na obra do artista. Já "Dumingaz" se destaca pelo seu balanço cativante e pela maneira como Jorge Ben Jor tece suas narrativas de forma única. Outras faixas notáveis incluem "Assim Falou Santo Tomaz de Aquino", uma meditação teológica que ilustra a profundidade das temáticas místicas do álbum, e "Velhos, Flores, Criancinhas e Cachorros", uma súplica humanista a Jesus Cristo. "Cuidado com o Bulldog" é outra joia do disco, com um arranjo que mescla a cadência do samba com uma batida frenética que remete ao rock, evidenciando a liberdade rítmica de Jorge Ben Jor. A inclusão de instrumentos de cordas e flautas em arranjos como o de "Para Ouvir no Rádio (Luciana)" adiciona camadas de sofisticação às músicas, enquanto o baixo pulsante de Dadi Carvalho e os ocasionais sintetizadores de cordas garantem uma sonoridade inovadora e marcante.
Legado
Embora Solta o Pavão não tenha alcançado o mesmo sucesso comercial de alguns de seus antecessores imediatos na época de seu lançamento, como A Tábua de Esmeralda ou o posterior África Brasil, o álbum é hoje reconhecido como um clássico da música brasileira por críticos e entusiastas. Sua relevância é sublinhada pela influência que exerceu em gerações posteriores, como evidenciado pelo sample da faixa "Cuidado Com O Bulldog" no álbum Afrociberdelia (1996) do grupo Chico Science & Nação Zumbi, um dos pilares do movimento Manguebeat. O álbum mantém uma avaliação de 'A-' pelo crítico Tom Hull, solidificando sua posição como uma obra de alta qualidade na discografia de Jorge Ben Jor. A contínua apreciação por "Solta o Pavão" é notável, com a reedição em CD em 2017 e a alta demanda por cópias em vinil, atestando sua relevância perdurável e o apreço dos colecionadores e novos ouvintes. É considerado por muitos uma 'joia que precisa ser mais discutida como um clássico no gênero', provando que seu voo rítmico mantém a altitude décadas após sua edição.