Obnoxius

José Mauro

1971

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Por Que Esse Disco é Importante

Obnoxius, lançado em 1971 por José Mauro, é um álbum que se destaca como uma obra-prima de um som singular na música brasileira, misturando grandioso pop orquestral com elementos de folk psicodélico, MPB e a espiritualidade do Candomblé. Sua sonoridade complexa e melancólica o diferencia de outros artistas da época, revelando uma visão única de tristeza e introspecção. O trabalho de Mauro transcende comparações diretas com mestres como Marcos Valle ou Milton Nascimento, embora ocasionalmente remeta a eles, apresentando uma estética que alguns descrevem como 'baroque pop' e 'psicodelia fumegante', na linha de Nick Drake. A música é introspectiva e experimental, e mesmo com sua familiaridade com a estrutura do samba, José Mauro demonstra um desinteresse em se limitar a essa caixa.

Contexto

O álbum Obnoxius surgiu em um período de intensa efervescência artística e turbulência política no Brasil, sob a ditadura militar que se estendeu de 1964 a 1985. Enquanto muitos músicos jovens optaram por deixar o país em busca de liberdade criativa, outros, como José Mauro, escolheram permanecer e expressar seu descontentamento com as autoridades por meio de canções de protesto velado. A MPB, nesse contexto, desempenhava um papel crucial como voz dissonante, difundindo ideais democráticos e ecoando as aspirações da sociedade civil, muitas vezes driblando a censura com linguagem metafórica. Antes do lançamento de Obnoxius, pouco se sabia sobre José Mauro, e sua trajetória permanece envolta em mistério. No entanto, é sabido que ele co-compôs as faixas com a jornalista e escritora Ana Maria Bahiana. Rumores sobre seu desaparecimento, logo após ou até antes do lançamento do álbum, contribuíram para a aura enigmática em torno do artista.

Gravação

Obnoxius foi gravado em 1970 nos Estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro. As sessões contaram com a colaboração do produtor e regente Roberto Quartin, que também dirigiu as cordas, e com os arranjos de Lindolfo Gaya, cuja admiração de Mauro por seus arranjos orquestrais é notável. A equipe de músicos incluía talentos como o trompetista Maurillo, o saxofonista Paulo Moura, o flautista Altamiro Carrilho, o gaitista Rildo Hora, Dom Salvador no órgão, piano e cravo, Geraldo Vespar na guitarra, Sebastião Marinho no baixo, Juquinha e Mamão na percussão, e Wilson das Neves na bateria. Inicialmente, o lançamento comercial do álbum foi cancelado após a suposta morte de Mauro. Contudo, Roberto Quartin finalizou o projeto com arranjos de cordas sutis e brilhantes e lançou Obnoxius. O álbum foi parte de um conjunto de 24 canções gravadas nessas sessões, das quais algumas foram lançadas posteriormente no álbum A Viagem Das Horas.

Músicas

As canções de Obnoxius se desdobram como uma suíte, revelando a visão melancólica de José Mauro por meio de uma combinação de instrumentação exuberante e letras poéticas. A faixa-título, "Obnóxius", abre o álbum com um spoken word e harpsichord, evoluindo para uma seção principal com percussão e palmas, embalando os vocais marcantes de Mauro. "Tarde de Núpcias" é uma gloriosa combinação de percussão, guitarra, metais e cordas, compactando grande emoção e ideias em seus pouco mais de dois minutos. "Memória" se destaca com suas cordas ondulantes, uma recitação de Ana Maria Bahiana e acordes de violão acústico de Mauro, sugerindo uma prece acústica. A penúltima faixa, "Apocalipse", entrega o que o título promete, com majestade orquestral e sons ominosos abrindo o caminho para uma tempestade perfeita de bateria e guitarra terrosas. O álbum encerra com "Exaltação e Lamento do Último Rei", uma peça vocal em conjunto que, após o clarear da poeira do "Apocalipse", se transforma em uma dança com cuícas antes de desvanecer.

Legado

Originalmente lançado em 1971, Obnoxius ganhou um status cult e raro, sendo muito procurado por colecionadores. Por muitos anos, acreditou-se que José Mauro havia morrido em um acidente de carro ou moto, ou que teria sido vítima da ditadura militar brasileira, o que adicionou à mística do álbum. Contudo, foi revelado em meados dos anos 2010 que ele estava vivo, morando tranquilamente nos arredores do Rio de Janeiro e dando aulas de violão. A gravadora Far Out Recordings foi fundamental para o resgate e reconhecimento de Obnoxius, relançando o álbum em 2016 e dando a ele uma chance de alcançar um público mais amplo. O trabalho de José Mauro é apreciado por nomes como Madlib, Gilles Peterson e Floating Points, que o consideram um favorito. A reedição permitiu que sua obra, antes "enterrada" e "esquecida", fosse redescoberta como um tesouro cultural, fresco e inovador como se tivesse sido gravado recentemente.

Discogs

Obnoxius – Discogs

discogs.com