Anganga
Juçara Marçal & Cadu Tenório
2015

Porque Merece Estar na Lista
Anganga, lançado em 2015, é um álbum que se destaca por sua fusão audaciosa e inovadora, apresentando um encontro singular entre a voz ancestral de Juçara Marçal e as paisagens sonoras experimentais de Cadu Tenório. O trabalho mergulha em reinterpretações contemporâneas de vissungos, cantos de trabalho dos escravos mineiros, e de cantos do congado, manifestações profundas da cultura afro-brasileira. Este disco não se limita a uma releitura, mas sim a uma "reconfiguração de linguagens, estruturas e sensibilidades da música brasileira", testando os limites entre o tradicional e o experimental. Ao aliar a pureza e a força da voz de Marçal com texturas ruidosas, colagens e sintetizadores de Tenório, Anganga cria uma sonoridade que é ao mesmo tempo reverente ao passado e visceralmente moderna, evocando um "noise macumbeiro" que desafia classificações e convida o ouvinte a uma experiência sonora profunda e por vezes perturbadora. Mais do que uma obra musical, Anganga é um diálogo entre épocas e estéticas, onde a "humanidade dilacerante na voz de Juçara" se encontra com as "distorções no noise" de Cadu, resultando em algo que transcende o acadêmico ou histórico para se tornar um apelo emocional e um marco no desenvolvimento da música eletroacústica brasileira.
Contexto
Antes de Anganga, Juçara Marçal já era uma figura respeitada na cena musical brasileira, conhecida por sua atuação em grupos como Vésper Vocal, A Barca e, notavelmente, Metá Metá. Sua carreira solo ganhou projeção com o aclamado álbum Encarnado, de 2014, que lhe rendeu diversos prêmios. Juçara explorava a cultura popular e as pesquisas musicais de Mário de Andrade, além de já apresentar um processo de desconstrução da música popular tradicional em sua trajetória com Metá Metá, incorporando sonoridades mais ruidosas. Cadu Tenório, por sua vez, é um músico e experimentador carioca com uma vasta discografia, cuja obra é construída pela exploração de diferentes processos de gravação e pela obtenção de timbragens incomuns a partir de sintetizadores, gravações de campo, tape loops e instrumentos processados. Ele é conhecido por suas incursões na sonoridade extrema do noise, mas também pela sua habilidade em colaborar com artistas de variados segmentos, transitando do experimental à música popular brasileira, buscando expandir os pilares da canção.
Gravação
O processo de criação de Anganga durou cerca de um ano e começou com a ideia de interpretar a obra de Dorival Caymmi com influências de noise. A gravação do álbum foi realizada de forma não convencional: Juçara Marçal registrou suas vozes à capela no Estúdio Fine Tuning, em São Paulo, enquanto Cadu Tenório gravou os instrumentos, como sintetizadores, objetos amplificados, cassetes, microfones de contato, bateria eletrônica, violão e violino preparados, no Estúdio 503, no Rio de Janeiro. Cadu foi o responsável pela produção e arranjos, mixando o material com Emygdio Costa, que também masterizou o disco. Essa abordagem de gravação separada permitiu a Cadu Tenório construir os arranjos a partir dos cantos já gravados por Juçara, criando um ambiente sonoro turbulento e instável. O trabalho gráfico do álbum, incluindo a arte da capa e foto-montagem, também teve a participação de Cadu Tenório e Tay Nascimento, com projeto gráfico de Mariana Mansur.
Músicas
Anganga é composto por oito faixas, que se dividem entre reinterpretações de vissungos e cantos de congado, e duas composições originais. Os vissungos, cantos de trabalho de escravos recolhidos por Aires da Mata Machado Filho na década de 1920, como "Canto II", "Canto III", "Canto VI" e "Canto VII", já haviam sido gravados no álbum "O Canto dos Escravos" (1982) por Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela. As composições autorais "Eká" e "Taio" foram criadas por Cadu Tenório em colaboração com Juçara Marçal. "Eká", a faixa de abertura, é destacada por sua força e por ser um apelo de emoção. As letras e as vocalizações de Juçara frequentemente evocam o sofrimento e a inventividade dos escravos, transformando a agonia espiritual em canto. A faixa "Grande Anganga Muquixe", um canto do congado de Justinópolis, no álbum indica reverência ao mestre, ao mais velho, aquele cuja "gunga não bambeia".
Legado
Anganga foi recebido como um disco que "é símbolo de um rico e plural momento de reconfiguração de linguagens, estruturas e sensibilidades da música brasileira", desafiando os moldes do tradicional e do folclore. A colaboração entre Juçara Marçal e Cadu Tenório é vista como um "ponto de interseção e encontro" que dinamiza estruturas petrificadas. O álbum foi reconhecido como um passo importante para o desenvolvimento da música eletroacústica no Brasil, onde a manipulação de Cadu Tenório encontra na voz de Juçara Marçal uma aliada poderosa, criando uma atmosfera que vai além da desolação para evidenciar a complexidade das sensações. Embora não haja menção específica a prêmios ou posições em rankings para o álbum Anganga em si, a obra solidificou a posição de Juçara Marçal como uma referência na música contemporânea e experimental, complementando seu trabalho premiado com o Metá Metá e em carreira solo. O álbum é considerado um "turbulento ponto de encontro" entre os dois artistas, uma obra de "essência nostálgica, mas que lentamente mergulha em um cenário atual, violento e insano". O disco teve uma avaliação média de 4.6/5 em 10 avaliações no Discogs.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Cabaret Voltaire, Phil Bush
Chris Watson, Richard H. Kirk, Stephen Mallinder
Richard H. Kirk, Stephen Mallinder
Stephen Mallinder
Stephen Mallinder
Alan Fisch, Nort
Eric Random
Richard H. Kirk
Richard H. Kirk
Chris Watson
Phil Bush
Porky
George Peckham
Cabaret Voltaire
Neville Brody
Cabaret Voltaire