Delta Estácio Blues
Juçara Marçal
2021

Porque Merece Estar na Lista
Delta Estácio Blues, o segundo álbum solo de Juçara Marçal, lançado em 2021, é uma obra que redefine a música popular brasileira contemporânea através de uma experimentação sonora radical. O disco navega por um estilo musical que amalgama gêneros brasileiros como samba, tropicalia e maracatu com produções eletrônicas, industriais e pop futuristas, criando uma sonoridade complexa e inovadora. Este trabalho se destaca por sua capacidade de fundir elementos díspares em um todo coeso, mas imprevisível, equilibrando densidade melódica com texturas ruidosas e dissonantes. A artista propõe uma reflexão sobre a resistência, a reinvenção e a religiosidade popular, traçando paralelos entre as raízes do blues norte-americano e o samba carioca, em um diálogo que transcende fronteiras geográficas e estéticas. É um álbum que exige atenção e recompensa com uma experiência auditiva rica e provocadora.
Contexto
Antes de Delta Estácio Blues, Juçara Marçal já possuía uma trajetória consolidada e diversificada na música brasileira. Ela é conhecida por seu trabalho com o grupo paulistano Metá Metá, além de ter integrado os grupos A Barca e Vésper Vocal, e lançado projetos solo como o aclamado Encarnado (2014) e Padê (2008), este último em colaboração com Kiko Dinucci. O álbum foi concebido e gravado em um período de grande turbulência no Brasil, marcado por um clima político opressor e pela pandemia de COVID-19. Esse cenário de dor e incerteza permeia a obra, que se torna uma resposta artística e elétrica à realidade contemporânea.
Gravação
A produção musical de Delta Estácio Blues ficou a cargo de Kiko Dinucci, parceiro de longa data de Juçara Marçal e integrante do Metá Metá. O processo criativo foi marcado por uma abordagem experimental, inspirada, em parte, pelo método do rapper Danny Brown de compor letras sobre bases rítmicas imprevisíveis. Dinucci e Marçal iniciaram a criação do álbum construindo fundações rítmicas e esparsamente melódicas, utilizando uma instrumentação ruidosa que combina elementos industriais, como batidas de 808s, com o design sonoro experimental de Cadu Tenório. Um fato notável na gravação foi o uso de um sampler Pocket Operator KO, que recortava e remontava trechos de músicas aleatoriamente, gerando um efeito de cacofonia e uma estética de "erro" que enriquece a sonoridade complexa do disco. A mixagem foi realizada por Renato Godoy e a masterização por Felipe Tichauer.
Músicas
As onze faixas de Delta Estácio Blues são um convite a um universo lírico e sonoro denso, com a voz de Juçara Marçal explorando novas tessituras sobre bases eletrônicas intrincadas. A faixa-título, composta por Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Kiko Dinucci, cria uma "microconto" ficcional sobre um encontro entre o lendário bluesman Robert Johnson e os sambistas cariocas Bide, Baiaco e Ismael Silva, simbolizando a conexão diaspórica e a reinvenção cultural entre o blues do Mississippi e o samba do Estácio. "Crash", com versos do rapper Rodrigo Ogi, é um dos destaques do álbum, descrita como uma canção brutal e potente que sintetiza as experiências e conceitos explorados na obra, com sintetizadores frenéticos e samples que se entrelaçam de forma provocativa. Outras composições notáveis incluem "Sem Cais", co-escrita com Negro Leo, que aborda o caos das redes sociais e a intolerância, e "Vi de Relance a Coroa", com arranjos e versos de Siba, que parte de uma estrutura de maracatu rural. O álbum conta ainda com a colaboração de diversos artistas na composição, como Tulipa Ruiz ("Ladra"), Maria Beraldo ("Baleia") e Douglas Germano ("Corpus Christi"), ampliando a riqueza e diversidade do repertório.
Legado
Delta Estácio Blues foi recebido com amplo reconhecimento da crítica e do público, sendo amplamente aclamado como um dos trabalhos mais relevantes do ano de seu lançamento. O álbum foi agraciado com o prêmio de "Melhor Disco de 2021" pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e "Álbum do Ano" pelo Superjúri do Prêmio Multishow 2021. Individualmente, a canção "Crash" foi eleita "Canção do Ano" no Prêmio Multishow 2021, e seu videoclipe recebeu o "Prêmio Inovação em videoclipe" no MVF Awards Brasil 2021. Kiko Dinucci também foi reconhecido como "Produtor do Ano" no Prêmio Multishow de 2021 por seu trabalho no álbum. O álbum também recebeu uma indicação ao 23º Latin GRAMMY Awards na categoria "Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa". Sua sonoridade experimental e a abordagem corajosa de temas contemporâneos o consolidaram como um marco na produção musical brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Mariana Mansur
Kiko Dinucci
Juçara Marçal
Fernando Catatau
Paulinho Bicolor
Cadu Tenório
Thais Nicodemo
Bernardo Oliveira, Luan Correia
Thiago França
Rômulo Alexis
Felipe Tichauer
Renato Godoy
Manuela Eichner
Lucas Pires
Aline Belfort