Hisscivilization
Jupiter Apple
2002

Porque Merece Estar na Lista
Hisscivilization, o terceiro álbum do músico gaúcho Júpiter Maçã, representa um marco fundamental na discografia do artista, consolidando sua veia mais experimental, ambiciosa e elaborada. Lançado em 2002 pela gravadora britânica Voiceprint Records, este trabalho mergulha em uma sonoridade que desafia categorizações fáceis, misturando elementos do rock psicodélico, progressivo e eletrônico, algo que o diferenciava drasticamente de seus antecessores. A complexidade de seus arranjos e a ousadia em incorporar texturas eletrônicas, antes ausentes, delineiam uma obra que convida a uma imersão profunda e descompromissada. Fortemente influenciado por ícones como Syd Barrett, a sofisticação harmônica do Stereolab e a inovação da Cena de Canterbury, notadamente Kevin Ayers e seu álbum Shooting at the Moon, Hisscivilization é uma tapeçaria sonora rica e multifacetada. A decisão de cantar todas as faixas em inglês, seguindo o padrão de Plastic Soda, seu álbum anterior, reforça a dimensão cosmopolita e a busca por uma linguagem artística universal que Júpiter Maçã buscava neste período, criando um universo particular que ressoou tanto com a crítica especializada quanto com sua base de fãs mais arrojada.
Contexto
Antes de Hisscivilization, Júpiter Maçã, cujo nome de batismo era Flávio Basso, já havia construído uma trajetória sólida e influente na música brasileira, primeiro com as bandas de rock gaúcho TNT e Cascavelletes. Sua carreira solo começou a florescer com o elogiado A Sétima Efervescência (1997), um disco que o estabeleceu como um dos grandes nomes do rock psicodélico nacional. Em seguida, Plastic Soda (1999) consolidou essa sonoridade, embora ainda mantivesse uma base mais rock-oriented. Hisscivilization surge, portanto, como um ponto de inflexão decisivo em sua obra solo. Após a consagração inicial no rock psicodélico, o artista se aventura por territórios sonoros inéditos em sua discografia, abraçando a eletrônica e a experimentação de forma mais explícita. Essa transição representou não apenas uma evolução artística, mas também um desafio para a percepção de seu público e da crítica, que viam nele uma figura já estabelecida em um determinado nicho.
Gravação
A produção de Hisscivilization contou com a participação multifacetada do próprio Júpiter Maçã, que assinou os vocais, guitarras elétrica e clássica, percussão e o Moog, além de ter sido responsável pela produção e mixagem do álbum. Essa centralidade criativa permitiu que sua visão experimental fosse implementada de forma coesa e autêntica. O processo de gravação e mixagem contou com a expertise de Thomas Dreher, que atuou como produtor, engenheiro de som (em faixas como 'Exactly', 'Dear Lord' e 'The Clown') e mestre da masterização. Fernando Sanches também contribuiu significativamente como engenheiro de som em outras canções do disco, como 'A Million Unknowable Things' e 'Happy Birds Day'. A colaboração incluiu ainda Marcelo Birck, que participou da edição da faixa 'The Clown', indicando um trabalho minucioso e com múltiplos talentos envolvidos para dar forma à ambição sonora do álbum.
Músicas
As treze faixas de Hisscivilization formam um mosaico sonoro que reflete a ousadia e a diversidade composicional de Júpiter Maçã. Embora o álbum seja notório por sua extensão, com quase 78 minutos de duração, suas canções conseguem transitar entre ganchos cativantes e trechos de experimentação mais livre e auto-indulgente. A inclusão de sintetizadores Moog e outros eletrônicos confere às composições uma atmosfera futurista e surrealista, que permeia todo o trabalho. Um exemplo da maleabilidade do repertório é a faixa "Exactly", que, posteriormente, seria regravada para o álbum Bitter, uma colaboração com Bibmo, demonstrando seu potencial de ressignificação. As letras, todas em inglês, abordam temáticas que se encaixam no universo psicodélico e introspectivo do artista, com comparações feitas a obras de Cornelius e Beck por sua inventividade. A natureza das canções exige do ouvinte uma escuta atenta e paciente, mas recompensa com uma imersão profunda em um dos trabalhos mais singulares da música brasileira.
Legado
Hisscivilization foi recebido com uma polarização notável entre críticos e fãs, principalmente devido à sua sonoridade intensamente experimental e sua longa duração. Apesar disso, o álbum obteve avaliações positivas no geral. François Couture, do AllMusic, concedeu-lhe 3 de 5 estrelas, destacando a presença de "ganchos cativantes, reviravoltas intrigantes e trechos auto-indulgentes", e traçando paralelos entre Júpiter Maçã e artistas como Cornelius e Beck. No entanto, a extensão do disco foi apontada como um ponto fraco por Couture, sugerindo que muitas das faixas poderiam ter sido encurtadas. Matheus Donay, de O Notório Abacaxi, elogiou a "arte futurista e surrealista" do álbum, mas também reiterou a crítica à sua duração, afirmando que Hisscivilization requer "muita paciência" para ser apreciado em sua totalidade. Essa recepção, embora dividida, cimentou o álbum como uma obra corajosa e à frente de seu tempo, solidificando a reputação de Júpiter Maçã como um artista que não temia romper com convenções e explorar novas fronteiras musicais, marcando um ponto de virada em sua trajetória artística.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Jupiter Apple, Marcelo Birck, Thomas Dreher
Fernando Sanches, Thomas Dreher
Thomas Dreher
Jupiter Apple, Thomas Dreher