Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe

Kaatayra

2020

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Por Que Esse Disco é Importante

Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe, lançado em 2020 por Kaatayra, é um álbum que se destaca como uma interpretação singular e profundamente enraizada do black metal atmosférico, infundido com a rica tapeçaria da música folk brasileira. O trabalho é notável pela sua abordagem "não-elétrica", onde guitarras acústicas assumem grande parte do peso rítmico e melódico, uma escolha que o diferencia drasticamente do som convencional do gênero. Este álbum oferece uma experiência sonora imersiva e transcendental, que evoca tanto a fúria quanto a serenidade da natureza brasileira. Caio Lemos, o multi-instrumentista por trás de Kaatayra, tece uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo agressiva em sua cadência e suave em suas texturas, utilizando vocais alternados entre o gutural e o limpo para expressar uma gama profunda de emoções. É uma obra que desafia as convenções do black metal ao integrar elementos da música indígena e regional do Brasil, criando um som verdadeiramente original e carregado de alma. A sua originalidade reside na forma como Lemos consegue aliar a intensidade do black metal com a melancolia e a beleza do folclore brasileiro, resultando em algo que tem sido descrito como rock psicodélico folk com uma inclinação mística e xamânica.

Contexto

O álbum surge no ano de 2020, um período de intensa polarização política e social no Brasil, agravada pela pandemia de COVID-19 e uma gestão caótica da crise de saúde pública. Este cenário de turbulência nacional, com discussões acaloradas sobre o descaso ambiental e a condição humana, forma um pano de fundo para as temáticas exploradas por Kaatayra. Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe é o terceiro álbum de Kaatayra, projeto solo do músico brasiliense Caio Lemos. Ele seguiu "No Ruidar da Mata que Mirra" (2019) e "Nascido Sob o Signo Incivilizatório" (2019). Enquanto o primeiro explorava a conexão profunda e o reconhecimento da magnitude da natureza, e o segundo canalizava raiva e insatisfação com o descaso humano para com o meio ambiente, este terceiro trabalho adota uma abordagem mais onírica e espiritual. A trajetória de Lemos com Kaatayra é marcada por uma profunda paixão pela música folk brasileira e pelas lendas da infância, elementos que ele tem incorporado progressivamente em seu som.

Gravação

O álbum foi concebido e gravado por Caio Lemos, o único membro por trás do projeto Kaatayra, em seu estúdio caseiro. Lemos utiliza uma configuração típica de home-studio, incluindo monitores, interface de áudio, controlador MIDI e microfones. Para este trabalho, a abordagem foi mais construtiva e menos improvisacional, um reflexo do crescente interesse de Lemos pela teoria musical. A sonoridade característica do álbum, que mescla black metal atmosférico com elementos folk brasileiros, é alcançada através do uso de guitarras acústicas para os riffs de tremolo e melodias, complementadas por bateria, eletrônicos e instrumentos folk brasileiros. Essa expansão da paleta sônica e dos instrumentos foi um desafio gratificante para Lemos, que buscou explorar novas possibilidades sonoras, desde o som suave de uma marimba até o ruído granular de um sintetizador.

Músicas

As quatro longas faixas de Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe, como "Chama Terra, Chama Chuva" e "Bom Retorno (De Volta às Origens)", não seguem estruturas lineares convencionais, mas são como mundos autônomos de diferentes músicas que fluem e se entrelaçam. As letras, oníricas em sua natureza, são fortemente influenciadas pelas experiências de Lemos com Ayahuasca e seus vislumbres da beleza pura e crua da natureza. A faixa de abertura, "Chama Terra, Chama Chuva", é descrita como deslumbrante, enquanto a faixa de encerramento, "Bom Retorno (De Volta às Origens)", culmina com sintetizadores lentos e melancólicos, construindo intensidade antes de retornar a uma conclusão sensual, mas desconfortável. A música do álbum é um microcosmo profundo da música e história brasileira, com uma progressão que vai do folk acústico enegrecido e elementos musicais indígenas brasileiros à psicodelia experimental e fusão eletrônica pop. As composições exploram a desmistificação do ser humano, propondo que a humanidade seja superada pelas criaturas naturais, objetos da essência de uma Terra caótica.

Legado

Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe foi aclamado pela crítica como uma das principais obras de black metal de 2020. O álbum foi amplamente elogiado por sua interpretação fresca e inovadora do black metal folclórico, especialmente pela ousadia de utilizar guitarras acústicas para grande parte do peso dos riffs. Sua singularidade de combinar black metal totalmente acústico com música indígena, folk e brasileira contemporânea foi considerada uma façanha inspirada e criativa. O trabalho de Kaatayra, e especificamente este álbum, gerou uma repercussão considerável, sendo um dos destaques do prolífico ano de 2020 para Caio Lemos, que lançou outros trabalhos notáveis. Críticos compararam a sonoridade do álbum a momentos mais suaves de bandas como Agalloch, ressaltando o quão bem a mistura de vocais limpos e ásperos se integrava às estruturas das canções. É reconhecido como um álbum que pavimentou novos caminhos e potencializou as propriedades do gênero, desafiando a percepção de um estilo musical muitas vezes conservador.

Discogs

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