Rastilho
Kiko Dinucci
2020

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Por Que Esse Disco é Importante
Rastilho, lançado em 2020 por Kiko Dinucci, se destaca como uma obra singular na música brasileira contemporânea, redefinindo o papel do violão através de uma abordagem que funde a tradição com uma estética visceralmente "punk". O álbum absorve a rica linhagem de violonistas brasileiros como Dorival Caymmi, João Gilberto, Baden Powell, Jorge Ben e Gilberto Gil, mas os filtra por uma visão musical crua e percussiva. A sonoridade de Rastilho é marcadamente original, explorando texturas da música folclórica com um estilo de toque contundente, onde o instrumento muitas vezes se sobrepõe às vozes e letras, evocando a frase "Quem canta é a madeira". Liricamente, o trabalho mergulha fundo na cultura afro-brasileira, abordando temas como escravidão, figuras revolucionárias, o Candomblé e o Cristianismo evangélico, construindo um universo conceitual que costura passado e presente de forma delirante.
Contexto
Antes de Rastilho, Kiko Dinucci já era um nome proeminente e inovador na cena musical brasileira, conhecido por sua participação em grupos seminais como Metá Metá e Passo Torto, e por colaborações significativas com artistas como Tom Zé, Criolo e Elza Soares. Seu trabalho solo anterior, Cortes Curtos (2017), explorava uma sonoridade mais elétrica, marcada pelo "samba sujo" e influências do rock e pós-punk. Rastilho representa um retorno intencional ao violão acústico, instrumento com o qual Dinucci iniciou sua jornada musical e que havia deixado um pouco de lado para explorar a guitarra elétrica. Essa redescoberta do violão foi motivada, em parte, por um período de recuperação após um acidente de skate.
Gravação
O álbum Rastilho foi meticulosamente gravado em fita analógica, com a intenção de emular as técnicas de produção dos discos brasileiros dos anos 1960 e 1970. As sessões de gravação ocorreram em poucos dias de setembro de 2019, com Bruno Buarque e André Magalhães responsáveis pela gravação e mixagem, realizada de forma totalmente analógica. Para alcançar a atmosfera desejada, Dinucci e a equipe buscaram inspiração em gravações antigas de artistas como Sergio Ricardo e Geraldo Vandré, prestando atenção ao uso de ecos, delays e reverbes. Parte da sonoridade "suja" e característica do álbum provém da captação de ruídos como arranhões de unhas e o som das cordas batendo no braço do violão. Além disso, uma técnica notável utilizada na gravação foi a colocação de um microfone em uma escada de pé direito alto fora da sala de gravação, onde uma caixa de som fazia o violão ressoar, capturando o eco ambiente para a montagem do álbum.
Músicas
As canções de Rastilho são um exercício de desconstrução e reinvenção, dando protagonismo absoluto ao violão de Kiko Dinucci, que é descrito como um "rastilho" incendiário para a música brasileira. A faixa de abertura, "Exu Odara", é um instrumental que evoca a herança afro de Baden Powell e temas tradicionais do Candomblé. "Olodé" é dedicada ao orixá Oxóssi, apresentando uma guitarra percussiva que remete a uma escola de samba de um homem só, impulsionada por um forte coro feminino. O álbum também explora narrativas e personagens vívidos: "Marquito" é uma instrumental que faz referência a Marco Antônio Brás de Carvalho, guerrilheiro da década de 1960, e é influenciada pelo filme Bacurau. "Dadá" conta com a participação de Ava Rocha e remete à cangaceira Sérgia Ribeiro da Silva e a uma personagem do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Já "Gaba", com Juçara Marçal, é inspirada na princesa angolana Gaba Zacimba, escravizada no Brasil. A faixa "Febre do Rato" retrata um cenário inquietante das ruas de São Paulo e uma igreja evangélica, enquanto "Veneno", com Rodrigo Ogi, narra uma história de tragédia em meio à celebração mágica.
Legado
Rastilho foi amplamente aclamado pela crítica, sendo reconhecido como um dos trabalhos mais significativos de 2020 e considerado um dos 100 melhores discos da música brasileira. O álbum foi eleito "Melhor Disco do Ano" pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2020. Além disso, recebeu dois Prêmios Multishow em 2020, nas categorias de "Melhor Capa" e "Melhor Gravação", destacando a qualidade estética e técnica da produção. A repercussão do álbum se estendeu para além do Brasil, com publicações internacionais como Pitchfork tecendo elogios à sua abordagem inovadora. Rastilho solidificou a posição de Kiko Dinucci como um dos artistas mais inventivos da música contemporânea brasileira, abrindo novos caminhos para o violão e a fusão de gêneros, ao mesmo tempo em que revisita e perverte a própria identidade criativa da música nacional.
Faixas
Podcasts
Discos e Girafas
Kiko Dinucci é um artista paulista, que depois de sofrer um acidente, foi forçado a pegar o violão e compor o seu primeiro álbum inteiramente de voz e violão. E assim nasceu o 'Rastilho', álbum lançado em 2020 em meio à um Brasil caótico mas que também oferece a beleza de sua ancestralidade e cultura popular que são trazidos no álbum expressos em suas músicas. - Episódio passado: #04 BILLBOARD: Up
Faro Novabrasil · Novabrasil
Conheça um pouco mais sobre o cantor, compositor, instrumentista, artista plástico e diretor de cinema brasileiro, Kiko Dinucci! 💚Kiko começou sua carreira na década de 90, onde foi integrante de diversas bandas de rock. Em 2007 iniciou sua carreira como compositor, no álbum "Padê", da cantora Juçara Marçal. "Rastilho", seu álbum mais recente, foi duplamente premiado no Prêmio Multishow de Música
Vira o disco Podcast · Bruno Buarque
Nesse primeiro episódio dissecamos o disco Rastilho, do artista Kiko Dinucci, gravado no Estúdio Minduca. Uma imersão no universo por trás da produção do disco. Com exemplos sonoros de microfones, detalhes e curiosidades sobre a gravação e mixagem analógica do disco o episódio conta com participações de André Magalhães e Kiko DInucci e é apresentado por Bruno Buarque.
Vídeos
RASTILHO E O EXPLOSIVO VIOLÃO DE KIKO DINUCCI | ALBUM REVIEW
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RASTILHO - GRAVAÇÃO - GUITARRA (KIKO) - EST. DUNA -JAN/2017
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Kiko Dinucci dá espaço ao violão em novo trabalho, 'Rastilho' | Música
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Análises
Crítica | Kiko Dinucci: "Rastilho" - Música Instantânea
musicainstantanea.com.br
A frase extraída do texto de apresentação de Rastilho (2020, Independente), segundo álbum de Kiko Dinucci em carreira solo, funciona como um indicativo claro do caminho percorrido pelo músico paulistano durante toda a execução da obra.
Resenha: Kiko Dinucci - Rastilho
musicontherun.net
Ainda que menos genial do que o anterior, "Rastilho" mostra como Kiko Dinucci segue muito bem conectado com o que acontece em um determinado nicho de São Paulo que ele faz parte.
Resenha: Kiko Dinucci - Rastilho - Floga-se
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Quando tomado como um todo - em seu ritmo e em sua brutalidade -, "Rastilho", disco mais recente de Kiko Dinucci, é um exercício deliberado em decompor formas, muitas vezes percebidas como estanques, para propô-las como novos modelos musicais.
Kiko Dinucci ecoa Baden Powell com força rítmica do violão ... - G1
g1.globo.com
Como violonista, Dinucci parte do legado afro de Baden Powell (1937 - 2000), ecoado já no tema instrumental que abre o disco, Exu Odara, sem se limitar a reproduzir as lições do mestre.
Review: Kiko Dinucci - Rastilho
zaumcomunicacao.com.br
In Rastilho, the guitarist re-interprets probably the most central instrument of Brazilian music. As Douglas Germano says, Kiko traces a new path for Brazilian guitar, an explosive gunpowder fuse ("rastilho" means fuse in Portuguese).