Rastilho

Kiko Dinucci

2020

Capa de Rastilho
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Por Que Esse Disco é Importante

Lançado em 2020, Rastilho de Kiko Dinucci se estabelece como um trabalho fundamental na música brasileira contemporânea, redefinindo as fronteiras do samba e da canção a partir de uma ótica "punk" e profundamente enraizada na ancestralidade afro-brasileira. O álbum é um mergulho visceral na guitarra acústica, onde Dinucci absorve a linhagem de grandes violonistas brasileiros como Dorival Caymmi, João Gilberto e Baden Powell, mas os filtra por sua visão musical crua e vigorosa. "Rastilho" é uma obra que explora texturas de folk music com um estilo percussivo e denso, exalando uma energia que remete à experiência de Kiko Dinucci na cena punk de São Paulo. É um disco onde a madeira do violão canta, sobrepondo-se aos vocais e letras, criando uma sonoridade que o próprio artista descreve como um "samba sujo" ou "samba torto", resgatando a essência do instrumento mais central da música brasileira com uma nova roupagem e uma força explosiva.

Contexto

Kiko Dinucci é um nome proeminente e inovador na cena musical brasileira, conhecido por sua atuação em bandas seminais como Metá Metá e Passo Torto. Sua trajetória é marcada pela combinação de elementos da música brasileira, candomblé, punk rock e free jazz, além de colaborações notáveis com artistas como Tom Zé, Criolo e Elza Soares. Rastilho surge como seu segundo álbum solo, após Cortes Curtos (2017), e representa um retorno ao violão acústico. O projeto nasceu de um período em que Dinucci, se recuperando de uma cirurgia na perna, fez do violão seu companheiro diário, afastando-se da guitarra elétrica e redescobrindo o instrumento de cordas de nylon.

Gravação

O álbum Rastilho foi gravado e mixado entre setembro e novembro de 2019, no Estúdio Minduca, utilizando um processo 100% analógico, em fita. Essa escolha de produção buscou emular as técnicas dos discos brasileiros das décadas de 60 e 70, com uma atenção especial aos efeitos de eco, delay e reverb que caracterizavam as grandes gravações da época. A sonoridade crua e "suja" que marca o trabalho é intencional, incorporando elementos como arranhões de unhas, grunhidos e o som das cordas batendo no braço do violão, o que Dinucci vê como uma ode a São Paulo, onde "tudo é distorcido e as coisas estão erradas, mas de alguma forma funciona". A produção ficou a cargo do próprio Kiko Dinucci, com gravação e mixagem de Bruno Buarque e André Magalhães.

Músicas

As letras de Rastilho aprofundam-se na cultura afro-brasileira, explorando temas como escravidão, revoluções brasileiras, candomblé e cristianismo evangélico. A faixa de abertura, "Exu Odara", é um tema tradicional do candomblé, absorvido por Dinucci em rituais, e serve como uma poderosa declaração de intenções para o álbum, ressaltando a importância fundamental de Exu na cosmogonia iorubá. Outras canções como "Olodé" saúdam orixás caçadores com um forte coro em iorubá, com participações de Juçara Marçal, Dulce Monteiro, Maraísa e Gracinha Menezes, enquanto "Tambú e Candongueiro" e "Gaba" também trazem profundas referências à cultura africana. A capa do álbum, de Pablo Saborido, com frutas apodrecendo, dialoga com a faixa-título, que encerra o disco com uma imagem de um Brasil tropical e putrefato, clamando por uma reação urgente diante do cenário sociopolítico da época.

Legado

Rastilho foi amplamente aclamado pela crítica, sendo considerado por muitos como um dos melhores discos brasileiros de 2020. Foi inclusive eleito o melhor disco do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O álbum solidificou a posição de Kiko Dinucci como um dos artistas mais inovadores e prolíficos da música brasileira contemporânea. Sua abordagem "afro-punk" e o resgate de sonoridades acústicas com uma estética ruidosa e percussiva abriram novos caminhos para o violão brasileiro, traçando uma rota que funde o tradicional e o experimental. A participação de colaboradores renomados como Juçara Marçal, Ava Rocha e Ogi também contribuiu para a riqueza e o reconhecimento do álbum.

Análises