As Quatro Estações

Legião Urbana

1989

Capa de As Quatro Estações
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

As Quatro Estações, lançado em 1989, representa um marco fundamental na discografia da Legião Urbana e na história do rock brasileiro. Este quarto álbum de estúdio consolidou a banda como uma das mais expressivas de sua geração, marcando uma significativa evolução estética e lírica. A obra transcende os protestos políticos diretos que caracterizaram parte de seus trabalhos anteriores, mergulhando em reflexões mais profundas sobre a condição humana, o amor, a fé e as inquietações existenciais. Com arranjos mais elaborados e uma sonoridade que mesclava rock alternativo, pós-punk e elementos de folk rock e jangle pop, o álbum revelou uma maturidade artística impressionante. As Quatro Estações não apenas solidificou a maestria composicional de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, mas também ressoou profundamente com um público ávido por letras poéticas e confessionais, que abordavam de forma sensível os dramas cotidianos e os conflitos internos de uma juventude em transição. Sua relevância reside na capacidade de dialogar com o íntimo de cada ouvinte, tornando-se uma trilha sonora para as complexidades da vida.

Contexto

O lançamento de As Quatro Estações ocorreu em um período de intensa turbulência e expectativas para a Legião Urbana. A banda, que se aproximava da marca de um milhão de cópias vendidas com seus três primeiros álbuns, enfrentava um clima amargo internamente. A tensão era exacerbada por eventos externos, como o trágico incidente no Estádio Mané Garrincha em 1988, que deixou centenas de feridos e abalou profundamente a banda. Internamente, a situação do baixista Renato Rocha tornou-se insustentável devido a problemas pessoais e sua crescente ausência nos ensaios. Após seis meses de trabalho no disco, Rocha foi demitido, cristalizando a formação do trio Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, que perduraria até o fim do grupo. Este contexto de desafios e mudanças forçou a banda a se reinventar, buscando novas direções musicais e líricas que culminariam na profundidade de As Quatro Estações.

Gravação

A gravação de As Quatro Estações foi um processo árduo e extenso, levando cerca de um ano para ser finalizado nos estúdios da EMI-Odeon no Rio de Janeiro, entre julho de 1988 e agosto de 1989. A banda buscou incessantemente algo que a satisfizesse, chegando ao ponto de Renato Russo cogitar o encerramento do grupo. Contudo, a alta reputação da Legião Urbana junto à gravadora garantiu-lhes todo o tempo e espaço necessários para a concepção do projeto. O produtor Mayrton Bahia, que já havia trabalhado com a banda nos álbuns Dois e Que País É Este 1978/1987, desempenhou um papel crucial, reinventando sua metodologia para capturar a essência da Legião. Ele descreveu o processo como um aprendizado mútuo, onde tiveram que "jogar os truques todos fora" e "quebrar diversos paradigmas" da indústria fonográfica, evitando clichês e buscando a autenticidade. A intenção era criar músicas mais variadas e "mais elaboradas", com arranjos mais complexos, o que exigiu um trabalho meticuloso de composição e gravação, incluindo a técnica de recortar e colar pedaços de fitas para resolver a questão das múltiplas camadas instrumentais.

Músicas

As Quatro Estações apresenta um repertório de canções que se tornaram clássicos, notáveis por suas letras poéticas e multifacetadas. 'Há Tempos', o primeiro single, abre o álbum com uma melodia marcante, enquanto 'Pais e Filhos' aborda o tema delicado do suicídio e dos desencontros geracionais, tornando-se um dos maiores sucessos da banda, apesar do desconforto de Renato Russo com a interpretação festiva de sua letra. A faixa 'Feedback Song for a Dying Friend' é uma homenagem emocionante ao fotógrafo Robert Mapplethorpe e a amigos que sofriam de AIDS, incluindo Cazuza. Originalmente intitulada 'Rapazes Católicos' e em português, a letra foi alterada para a versão em inglês por ser considerada "impublicável" pela banda, mas o encarte do disco traz uma notável tradução de Millôr Fernandes, que detectou jogos de palavras shakespearianos na composição de Russo. 'Monte Castelo' é um exemplo da profundidade lírica do álbum, mesclando versos de '1 Coríntios 13' do Apóstolo Paulo com o 'Soneto 11' de Luís de Camões, criando uma ode espiritual ao amor. Já 'Meninos e Meninas' é considerada o "grito de liberdade" de Renato Russo, onde ele sugeriu pela terceira vez sua bissexualidade, abordando a temática do preconceito e da autoaceitação. A letra de '1965 (Duas Tribos)' faz referências a "modelos Revell" e ao estúdio Hanna-Barbera, enquanto "Quando o sol bater na janela do teu quarto" foi inspirada em versos do livro A Doutrina de Buda.

Legado

Desde seu lançamento em 27 de outubro de 1989, As Quatro Estações alcançou um sucesso estrondoso, vendendo mais de 2,6 milhões de cópias e tornando-se o álbum mais vendido da Legião Urbana, além de um dos mais comercializados da história do Brasil. A recepção crítica foi amplamente positiva, com jornalistas elogiando a maturidade lírica e musical da banda. Críticos como Paula Pestana do Correio Braziliense definiram a obra como "um disco sem gordura, sem excessos", marcando a maturidade da Legião Urbana em uma direção que "vai além dos protestos políticos", com "ousadia de mostrar um trabalho diferente". A equipe d'O Liberal recomendou o projeto, notando que Renato Russo se interessava mais pelos "fatos corriqueiros" e que o grupo optou pelo "simples" musicalmente, alcançando sua fase "mais melancólica" poeticamente. O álbum teve nove de suas onze faixas tocadas em rádios, com destaque para a inclusão de "Pais e Filhos" na trilha sonora da novela "Rainha da Sucata" em 1990. O impacto comercial e cultural do álbum é inegável, consolidando a Legião Urbana no panteão do rock nacional.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção Artística]

Jorge Davidson

Produção

Mayrton Bahia

Vocais, Teclados, Guitarra, Baixo, Gaita

Renato Russo

Bateria, Percussão, Bass Drum, Gaita

Marcelo Bonfá

Guitarra, Violão, Bandolim

Dado Villa-Lobos

Referências

Livros