V

Legião Urbana

1991

Capa de V
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

V, o quinto álbum de estúdio da Legião Urbana, lançado em 1991, representa um marco de virada na sonoridade da banda, mergulhando em um universo mais introspectivo e experimental. Distanciando-se do sucesso imediato e mais pop de seus antecessores, o disco é frequentemente descrito como uma obra de rock progressivo e art rock, com elementos medievais e instrumentais complexos que convidam a uma audição atenta. Este trabalho se destaca por sua atmosfera densa e por uma abordagem musical deliberadamente "lenta" e melancólica, conforme descrito pelo próprio Renato Russo. Com a inclusão de cantigas de amor arcaicas, arranjos de cordas elaborados e a canção mais longa da carreira da banda, "Metal Contra as Nuvens", V demonstra uma audácia artística que solidificou a Legião Urbana não apenas como um fenômeno de massas, mas como um grupo em constante evolução criativa e desafiador dos próprios limites.

Contexto

O lançamento de V ocorreu em um cenário conturbado para o Brasil, marcado pela grave crise econômica e os confiscos do Plano Collor, que impactaram diretamente os músicos da Legião Urbana, inclusive Renato Russo. Enquanto a banda estava em turnê de As Quatro Estações, a necessidade de shows tornou-se ainda mais premente para recuperar o dinheiro perdido. Paralelamente, Renato Russo enfrentava uma profunda crise pessoal, culminando em sua internação para desintoxicação e a descoberta de ser soropositivo, uma condição que ele optou por manter em segredo público. Esses desafios pessoais e sociais se somaram a conflitos com a direção artística da EMI-Odeon, Jorge Davidson, que desejava um disco ao vivo da turnê anterior. A insistência de Davidson e a recusa em enviar material para o produtor Mayrton Bahia, então em outra gravadora, geraram tensões. Contudo, um encontro casual com Mayrton em 1991 resultou em seu retorno à produção de V, permitindo que a banda trabalhasse com seu colaborador de longa data em meio a um período de intensa fragilidade e criatividade forçada pelas circunstâncias.

Gravação

Para a gravação de V, a Legião Urbana optou por uma mudança significativa, utilizando o Estúdio Mega, no Rio de Janeiro, em vez dos tradicionais estúdios da EMI-Odeon. Essa escolha implicava a ausência de exclusividade e tempo ilimitado, um novo desafio para o processo criativo. Foi durante a produção deste álbum que o produtor Mayrton Bahia desempenhou um papel crucial ao convencer Renato Russo a substituir seu teclado Roland Juno 106 por modelos mais modernos, buscando uma renovação nas sonoridades da banda. O disco contou ainda com a participação do baixista de apoio Bruno Araújo, que já vinha acompanhando a banda na turnê anterior. Notavelmente, a gravação de faixas como "Metal Contra as Nuvens" incluiu a colaboração de uma orquestra com 12 violinos, quatro violas e quatro cellos, com arranjos de cordas escritos por Eduardo Souto Neto, conferindo uma riqueza instrumental inédita ao trabalho.

Músicas

A sonoridade de V é intencionalmente melancólica e introspectiva, refletindo o "tédio e marasmo" que Renato Russo desejava transmitir. A faixa de abertura, "Love Song", já estabelece o tom com uma cantiga de amor do século XIII, de Nuno Fernandes Torneol, em português arcaico, seguida pela épica "Metal Contra as Nuvens", que se estende por mais de onze minutos e é a música mais longa da Legião Urbana, dividida em quatro partes com diversas variações melódicas e rítmicas. O álbum explora temas medievais e históricos, como em "A Ordem dos Templários", uma faixa instrumental que incorpora a peça "Douce Dame Jolie" de Guillaume de Machaut, do século XIV, em homenagem aos cavaleiros das Cruzadas. "O Teatro dos Vampiros" foi concebida por Renato Russo para abordar a televisão, embora ele tenha posteriormente descoberto que a relação com a cidade de Veneza, conhecida como "Sereníssima", não era intencional. A capa do álbum, com a lua-estrela e o "V" em alto-relevo dourado, foi uma exigência de Renato Russo, superando objeções da gravadora em um período de contenção de gastos, ressaltando o valor artístico atribuído à estética visual.

Legado

Apesar do sucesso estrondoso de As Quatro Estações, V teve uma vendagem consideravelmente inferior, com 465 mil cópias, o que ainda o garantiu o certificado de Disco de Platina Triplo e o posicionamento como o sexto disco mais vendido da banda. A turnê de divulgação do álbum foi a mais curta da Legião Urbana, durando apenas de julho a setembro de 1992, e foi abruptamente interrompida devido à intensificação da dependência química de Renato Russo, que gerava atritos com os demais membros. Em compensação à frustração dos fãs pela turnê encurtada, a banda aceitou o convite da MTV para gravar o Acústico MTV em janeiro de 1992, com um repertório que incluía canções de V, posteriormente lançado em CD. O período pós-V foi crucial para Renato Russo, que buscou tratamento para sua condição de soropositivo, iniciando o uso de AZT e frequentando reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Embora não tenha gerado tantos "hits" de rádio quanto seus antecessores, V é hoje reavaliado por críticos e fãs como um dos trabalhos mais artisticamente ousados e complexos da Legião Urbana, um testamento da busca incessante da banda por novas expressões sonoras no cenário do rock brasileiro.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Legião Urbana, Mayrton Bahia

Vocais, Classical Guitar, Teclados

Renato Russo

Contrabaixo

Bruno Araújo

Bateria, Percussão

Marcelo Bonfá

Guitarra, Classical Guitar

Dado Villa-Lobos

Referências

Livros