Olho de Peixe
Lenine e Marcos Suzano
1993

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1993, Olho de Peixe é o segundo álbum de estúdio de Lenine, realizado em parceria com o percussionista Marcos Suzano, e representa um divisor de águas na carreira de ambos os artistas. O próprio Lenine o considera o disco mais importante de sua trajetória, afirmando que foi com ele que descobriu que a música poderia levá-lo a qualquer lugar. A obra se destaca por uma sonoridade acústica peculiar e um equilíbrio raro, onde a simbiose entre o violão ritmado de Lenine e as batucadas inovadoras de Suzano cria uma linguagem expressiva única. O álbum é uma síntese marcante de influências, misturando o suingue carioca com os ritmos regionais de Pernambuco, como maracatu, baião e ciranda, além de incorporar elementos de rock e soul. A sonoridade singular, descrita como acústica, mas quente e cheia de eletricidade, projetou Lenine como um compositor-violonista de grande talento, inserindo-o numa linhagem de mestres como Dorival Caymmi e Gilberto Gil, ao mesmo tempo em que Suzano revolucionava o uso do pandeiro, transformando-o em uma espécie de segundo solista.
Contexto
No início dos anos 90, o cenário musical brasileiro fervilhava, e a década seria marcada por uma intensa globalização e a ascensão de movimentos como o Manguebeat. Lenine, então com 34 anos e radicado no Rio de Janeiro há mais de uma década, já era um compositor requisitado, com músicas gravadas por artistas como Elba Ramalho, mas ainda buscava consolidar sua voz solo após o álbum Baque Solto (1983) não ter tido grande repercussão. Marcos Suzano, por sua vez, um percussionista carioca de 30 anos, era conhecido por suas experimentações e uma nova técnica de tocar pandeiro, que ampliava as possibilidades de sons e batidas do instrumento, tornando-o quase uma bateria completa. O encontro desses dois talentos, descrito como uma "visita" de Lenine à casa de Suzano em Santa Teresa, resultou na criação de Olho de Peixe, que seria o primeiro disco de Suzano e o pontapé inicial para a autonomia de Lenine como produtor.
Gravação
A gravação de Olho de Peixe ocorreu em 1993, de forma independente, no Estúdio Chorus, no Rio de Janeiro. Denilson Campos foi o engenheiro de som fundamental, responsável pela captação das vozes e dos instrumentos, e também coproduziu o álbum com Lenine e Marcos Suzano. A mixagem foi realizada no RPM Studios, em Nova York, por James A. Ball, com Gray Russel como segundo engenheiro e Julio como assistente, indicando uma preocupação com a qualidade técnica e uma visão internacional para o trabalho. Posteriormente, a masterização ficou a cargo de Denilson Campos no Pró Master, também no Rio de Janeiro. A coprodução da dupla com Denilson Campos para os arranjos e direção musical demonstrou uma concepção arrojada para a época, transformando o trabalho essencialmente de voz, violão e percussão em uma referência sonora para os ouvintes.
Músicas
O repertório autoral de Olho de Peixe é composto por 11 faixas, todas assinadas por Lenine com diversos parceiros como Bráulio Tavares, Lula Queiroga e Paulo César Pinheiro. As letras do álbum frequentemente versam sobre temáticas praieiras, portos e areias, com o mar figurando como personagem central, evocando uma poética semelhante à de Dorival Caymmi em alguns momentos. Canções como "Acredite ou Não", "O Último Pôr do Sol" e "Miragem do Porto" são frequentemente citadas como destaques. A faixa-título, "Olho de Peixe", que conta com o saxofone de Carlos Malta, sugere uma perspectiva de observar o mundo através de uma lente de grande angular, enquanto "Escrúpulo" e "Lá e Lô" recebem contribuições de Fernando Moura nos teclados e Paulo Muylaert na guitarra, respectivamente. "Leão do Norte", uma loa aos ícones culturais de Pernambuco, com letra de Paulo César Pinheiro, e "Caribenha Nação / Tuareguê Nagô" exemplificam o enraizamento do cancioneiro de Lenine no solo nordestino, misturando elementos como maracatu e baião, enquanto navega pela ancestralidade negra. A capacidade de Lenine de dissociar o plano rítmico do violão do plano rítmico da voz, aliada à inovação de Suzano no pandeiro, cria uma interação dinâmica que os próprios artistas comparam a um jogo de capoeira.

Um dos expoentes da geração de compositores-intérpretes revelados nos anos 1990, que também destaca Zeca Baleiro, Chico César, Rita Ribeiro e Paulinho Moska, o pernambucano Lenine, nascido em Recife, em 1959, já tinha lançado um álbum com o conterrâneo Lula Queiroga (Baque solto, 1982) antes de registrar a parceria com o carioca Marcos Suzano, grande responsável pelo papel mais ativo da percussão na música popular brasileira dessa década.
Carlos Calado · 300 Discos Importantes
Legado
Embora não tenha sido um *blockbuster* no seu lançamento original em 1993, Olho de Peixe se tornou um álbum cultuado e atemporal, reconhecido como um marco na MPB pela sua sonoridade singular e visão inovadora. Críticos profissionais, como o AllMusic, concederam ao álbum uma avaliação de 4 de 5 estrelas. A fusão rítmica e a exploração de novas linguagens percussivas influenciaram o surgimento do movimento Manguebeat e uma geração de músicos que veem o disco como um divisor de águas e um farol. Olho de Peixe projetou Lenine e Marcos Suzano, solidificando as carreiras de ambos. Para Lenine, o álbum abriu caminho para sua discografia solo, que seria consolidada com O Dia em Que Faremos Contato (1997) e renderia múltiplos prêmios Grammy Latino e Prêmios da Música Brasileira. A parceria rendeu turnês internacionais pela Europa, Estados Unidos e Japão. Em comemoração aos seus 30 anos, o álbum foi remasterizado e relançado em plataformas digitais e em uma edição limitada em vinil, além de um songbook, reafirmando sua relevância contínua na música brasileira.
