O Dia em Que Faremos Contato

Lenine

1997

Capa de O Dia em Que Faremos Contato
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O Dia em Que Faremos Contato, lançado em 1997 pela Sony BMG, marca um ponto de virada fundamental na carreira de Lenine, estabelecendo-o como uma força criativa singular e inovadora na música popular brasileira. Este foi seu primeiro trabalho solo de estúdio, após duas experiências em parceria, e é amplamente considerado um divisor de águas que não apenas consolidou seu nome, mas também impulsionou a MPB para novos patamares experimentais. O álbum é uma fusão ousada e orgânica de ritmos genuinamente brasileiros, como o frevo, o coco, o maracatu, a embolada e o samba, com elementos contemporâneos do rock, pop e da música eletrônica. Essa alquimia sonora, aliada a uma poesia rica e reflexiva, criou uma linguagem musical particular que ressoa com uma estética cosmopolita e universalista. Lenine, um confesso apaixonado por ficção científica, histórias em quadrinhos e cinema, aborda cada composição como um roteiro de curta-metragem, conferindo ao disco uma narrativa visual e conceitual que o diferencia profundamente.

Contexto

Antes de O Dia em Que Faremos Contato, Lenine já possuía uma trajetória musical consolidada, embora de forma mais discreta, atuando predominantemente como compositor para outros artistas e em projetos colaborativos. Suas experiências anteriores incluem o álbum *Baque Solto*, de 1983, em parceria com Lula Queiroga, e o aclamado *Olho de Peixe*, de 1993, ao lado do percussionista Marcos Suzano. Este último, um trabalho independente focado na intimidade do violão e da percussão, já demonstrava a veia inovadora do artista pernambucano. Na época de sua chegada ao Rio de Janeiro, Lenine enfrentava um cenário onde sua sonoridade híbrida era vista com estranhamento: era 'muito MPB' para o público do rock e 'muito rock n' roll' para os puristas da MPB. Com O Dia em Que Faremos Contato, ele finalmente teve a oportunidade de desenvolver plenamente sua visão artística autoral, marcando sua estreia solo e apresentando ao público a amplitude de sua capacidade como cantor, compositor e arranjador.

Gravação

A produção de O Dia em Que Faremos Contato foi um processo meticuloso, que explorou a fundo as possibilidades técnicas dos estúdios. O álbum foi produzido por Chico Neves e co-produzido pelo próprio Lenine, que também assumiu a direção musical do projeto. As gravações ocorreram no Estúdio 302, no Rio de Janeiro, com Chico Neves à frente da engenharia de som. Um dos pontos altos da produção foi a etapa de mixagem, realizada nos renomados Real World Studios, de Peter Gabriel, na Inglaterra, sob a batuta de Ben Findlay, com assistência de Emma Jones. A masterização, por sua vez, foi feita no estúdio Metropolis, em Londres, por Tony Cousins. Lenine se dedicou a 'testar os limites do estúdio', utilizando e 'abusando da engenharia de gravação' com tecnologia digital, loops e samples, de uma maneira inovadora e a serviço da criatividade, não apenas como artifício. Durante o processo nos Real World Studios, Peter Gabriel chegou a visitar o estúdio e interagir com a equipe. A capa do álbum, com suas referências à ficção científica, reflete essa paixão de Lenine e o conceito futurista do trabalho.

Músicas

Composto por quatorze faixas, O Dia em Que Faremos Contato é um mosaico sonoro e lírico que desdobra a visão única de Lenine. A abertura, com a canção "A Ponte", já cativa com a voz de um músico de rua, estabelecendo um tom de conexão com as origens. A faixa-título, "O Dia em Que Faremos Contato", em parceria com Bráulio Tavares, propõe uma subversão de expectativas ao narrar o pouso de uma nave espacial não em grandes metrópoles, mas em um morro, onde os ETs, até vestidos de orixás, vêm 'pedir socorro' e encontram na terra a 'paz' e o 'amor', sugerindo uma mensagem de universalidade e harmonia a partir de um lugar marginalizado. Outros destaques incluem "Candeeiro Encantado", coescrita com Paulo C. Pinheiro, e "Dois Olhos Negros", de Lula Queiroga, ambas canções que ganharam projeção nacional ao serem incluídas em trilhas sonoras de novelas da Rede Globo, *Cordel Encantado* e *Era Uma Vez...*, respectivamente. O álbum revisita o passado do artista com a regravação de um trecho de "Mote do Navio", de Pedro Osmar, originalmente presente em *Baque Solto*. A faixa "Pernambuco Falando Para o Mundo" é um medley que celebra a rica herança musical pernambucana, interpretada no estilo minimalista de violão e percussão que marcou seu trabalho com Marcos Suzano em *Olho de Peixe*. As letras exploram temas como amor, esperança, identidade e a busca por um mundo melhor, perpassando a poética social e existencial característica de Lenine.

Legado

O Dia em Que Faremos Contato foi recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público, consolidando a posição de Lenine como um dos mais importantes nomes da música brasileira contemporânea. Recebeu uma avaliação de 4 de 5 estrelas do portal AllMusic, e elogios de grandes nomes como Caetano Veloso, que o descreveu como 'espetacular'. O crítico Hermano Vianna chegou a classificar o disco como 'um marco revolucionário na história da MPB'. A repercussão do álbum se estendeu para além do reconhecimento especializado, com a inserção de canções como "Candeeiro Encantado" e "Dois Olhos Negros" em trilhas sonoras de novelas de grande audiência, o que amplificou seu alcance junto ao público nacional. O disco é frequentemente citado como a obra-prima de Lenine, elevando a MPB a um patamar de experimentação e modernidade, mesclando grooves percussivos nordestinos, o balanço do samba e elementos de viola com uma visão global. Seu impacto residiu em mostrar que era possível fundir a riqueza rítmica e poética brasileira com uma estética sonora contemporânea, abrindo caminhos para a própria evolução da música popular brasileira.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística

Jorge Davidson

Arranjo, Baixo, Effects, Programmed By, Edição, Produção, Gravação

Chico Neves

Arranjo, Pandeiro, Zabumba, Berimbau, Triângulo, Cowbell, Caixa, Surdo, Tamborim, Agogô, Tabla

Marcos Suzano

Arranjo, Voz, Violão, Diretor Musical, Coprodução, Banjo

Lenine

Produção Executiva

Marcelo Bueno

Participação Especial

Cajú E Castanha, Les Fabulous Trobadors

Acordeão

Toninho Ferragutti

Baixo

Liminha

Clarinete

Eduardo Morelenbaum

Bateria

João Barone

Guitarra

Fernando Vidal, Pedro Sá

Saxofone Soprano, Saxofone Tenor, Saxofone Barítono

Carlos Malta

Masterização

Tony Cousins

Mixagem

Ben Findlay

Mixagem [Assistant]

Emma Jones

Referências

Livros