Lô Borges
Lô Borges
1972

Porque Merece Estar na Lista
Lô Borges, o álbum de estreia homônimo do cantor mineiro, é uma joia singular da música brasileira, lançado em 1972 e popularmente conhecido como "Disco do Tênis". Este trabalho representa um mergulho profundo na estética do Clube da Esquina, mas com uma voz e identidade próprias, marcando a entrada definitiva de Lô Borges como um dos grandes compositores e intérpretes do Brasil. Sua sonoridade combina a delicadeza melódica da MPB com a energia do rock e a introspecção do folk, criando um universo musical denso e emocionante. O álbum se destaca pela originalidade de suas composições, que exploram temas como a juventude, a liberdade, a natureza e a busca por novos horizontes, traduzidos em letras poéticas e arranjos sofisticados. É um disco que transcende sua época, oferecendo uma experiência sonora rica e atemporal. A forma como Lô Borges consegue articular complexidade harmônica com uma aparente simplicidade melódica é um dos seus maiores trunfos, tornando este trabalho indispensável para qualquer apreciador da música brasileira.
Contexto
O lançamento de Lô Borges ocorreu em um momento de efervescência criativa para a música brasileira, pouco depois do seminal Clube da Esquina, disco que já reunia Lô com Milton Nascimento, Beto Guedes e outros talentos. Com apenas vinte anos, Lô Borges foi instado pela gravadora a produzir seu álbum solo em um prazo exíguo, um desafio que resultou em um período de intensa composição e gravação, revelando a prodigiosa capacidade criativa do jovem artista. Apesar da pressão, o álbum solo de Lô Borges surgiu como um complemento e uma expansão natural das ideias gestadas no Clube da Esquina, solidificando a sonoridade mineira que viria a influenciar gerações. A decisão de Lô de viajar pelo Brasil vendendo seu disco de forma independente, simbolizada pela emblemática capa do tênis, reflete um desejo de desvincular-se das imposições da indústria e reafirmar sua liberdade artística, marcando um hiato em sua carreira fonográfica que duraria sete anos, até A Via-Láctea, produzido por Milton Nascimento.
Gravação
A gravação de Lô Borges foi um processo marcado pela urgência e pela riqueza colaborativa, refletindo a atmosfera de intensa criatividade que permeava o grupo mineiro. Apesar do curto prazo imposto pela gravadora EMI-Odeon, Lô reuniu um elenco estelar de músicos, muitos deles companheiros do Clube da Esquina, para dar vida às suas composições. A lista impressionante inclui Beto Guedes (em diversas funções como voz, guitarra, baixo, órgão e percussão), Toninho Horta (baixo, guitarra, cravo), Flávio Venturini (voz, cravo, piano elétrico), e nomes como Tenório Jr., Nelson Angelo e Danilo Caymmi, com arranjos e regência de Dori Caymmi em uma das faixas. Sob a direção musical do Maestro Gaya e a assistência de produção de Milton Nascimento e Márcio Borges, o álbum foi concebido com uma instrumentação diversificada que mescla violões, guitarras, pianos, órgãos, percussão e flautas. A combinação desses talentos resultou em uma sonoridade orgânica e complexa, que, embora gestada sob pressão e com o repertório sendo composto à medida que era gravado, demonstrou a maturidade artística de Lô Borges e de seus colaboradores. A produção, embora comercialmente subestimada pela gravadora, entregou um trabalho de profunda qualidade técnica e artística.
Músicas
As canções do álbum Lô Borges são um compêndio de melodia e poesia, cada uma delas contribuindo para a tapeçaria sonora única do disco. Faixas como "Trem Azul" e "Paisagem da Janela" se tornaram clássicos instantâneos da MPB, reverenciadas por suas melodias cativantes e letras introspectivas que evocam sentimentos de liberdade, saudade e contemplação. "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" é outro destaque, com sua beleza lírica e arranjo que ressalta a doçura da melodia. O álbum também conta com gemas como "Você fica melhor assim", "Canção postal", "O Caçador" e "Homem da Rua". A composição, majoritariamente assinada por Lô Borges, muitas vezes em parceria com Márcio Borges, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos, revela uma profunda sensibilidade para criar imagens e atmosferas através da música. As letras são repletas de metáforas e lirismo, abordando temas universais com uma perspectiva particular. A inventividade harmônica e melódica das canções, aliada à instrumentação rica e variada, solidifica o "Disco do Tênis" como uma obra-prima que continua a ressoar com novas gerações de ouvintes e músicos.

Ainda não havia a feroz disputa pelo objeto de grife.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Apesar da recepção comercial inicialmente discreta, fruto da falta de investimento da gravadora em sua divulgação, o álbum Lô Borges alcançou um status de cultuado clássico da música brasileira ao longo das décadas. Sua importância foi gradualmente reconhecida pela crítica especializada e pelo público, consolidando-o como um dos álbuns mais relevantes da história da MPB. Embora não tenha tido grandes vendagens ou prêmios na época, sua influência se manifestou de outras formas, permeando a obra de inúmeros artistas. Uma das demonstrações mais notáveis de seu impacto transgeracional é a confessa inspiração que a canção "Aos Barões" exerceu sobre Alex Turner, vocalista da banda Arctic Monkeys, para a criação do álbum Tranquility Base Hotel & Casino, evidenciando o alcance global e atemporal da música de Lô Borges. Em 2018, o próprio artista revisitou e regravou o disco ao vivo, num testemunho da relevância perene de sua obra. O "Disco do Tênis" é constantemente citado em listas de melhores álbuns brasileiros, como o ranking de 107 Melhores Discos da Música Brasileira, onde figura na 26ª posição, atestando seu valor artístico duradouro e sua posição de destaque no panteão da música nacional.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Dori Caymmi
Lindolfo Gaya
Milton Miranda
Marcio Borges, Milton Nascimento
Z. J. Merky
Lo Borges, Marcio Borges, Ronaldo Bastos, Tavinho Moura
Flávio Venturini
Lo Borges
Novelli
Nelson Angelo
Toninho Horta
Robertinho Silva
Sirlan
Beto Guedes
Danilo Caymmi
Rubinho
Tenorio Jr.
Zé Geraldo
Reny R. Lippi
Nivaldo Duarte, Toninho
Tadeu Valério
Ronaldo Bastos
Cafi
