Bloco do Eu Sozinho

Los Hermanos

2001

Capa de Bloco do Eu Sozinho
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Bloco do Eu Sozinho, o segundo álbum dos Los Hermanos, lançado em 2001, é uma obra seminal que marcou uma inflexão profunda na trajetória da banda e na música brasileira contemporânea. Longe da sonoridade ska-punk e pop-rock que catapultou o grupo à fama com o hit "Anna Júlia", este trabalho ousou em um amadurecimento estético notável, explorando fusões complexas de rock com elementos intrínsecos da MPB, samba, choro e até marchinhas carnavalescas. O álbum se destaca por sua atmosfera mais introspectiva e artística, mergulhando em temas de melancolia, solidão e o fim dos ciclos, como o próprio título e a faixa de abertura sugerem. Essa mudança sonora não apenas desafiou as expectativas comerciais, mas também solidificou a identidade única dos Los Hermanos, revelando a profundidade lírica de Marcelo Camelo e consolidando Rodrigo Amarante como um compositor de destaque. É amplamente considerado um dos álbuns mais importantes para a construção do "indie brasileiro" e da música alternativa nacional a partir dos anos 2000.

#42

Em vez de seguir a fórmula que implorava por outra “anna-alguma-coisa”, a sonoridade ska-hardcore-pop do primeiro disco deu lugar a andamentos quebrados, melodias intrincadas e letras reflexivas.

Bruno Natal · Rolling Stone Brasil

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Contexto

Após o sucesso estrondoso de seu álbum de estreia, Los Hermanos, lançado em 1999, que vendeu mais de 250 mil cópias impulsionado pelo hit "Anna Júlia", a banda encontrava-se sob grande pressão da gravadora Abril Music para replicar o fenômeno. O disco de estreia, embora já mesclasse hardcore, samba e ska, teve seus singles mais populares sobrepondo as demais nuances de sua sonoridade. Para lidar com as expectativas e a busca por um novo hit, o grupo optou por um retiro. Eles se isolaram em um sítio na região serrana do Rio de Janeiro para compor e gravar o Bloco do Eu Sozinho, buscando um ambiente livre de distrações. Esse período de criação também foi marcado pela saída do baixista Patrick Laplan, que alegou insatisfação com a nova direção musical, menos agressiva e mais experimental, que a banda estava tomando.

Gravação

A gravação de Bloco do Eu Sozinho foi um processo conturbado e significativo. Embora a ficha técnica principal cite Rafael Ramos como produtor, o álbum foi inicialmente produzido por Chico Neves. O grupo realizou as sessões de gravação em um sítio na região serrana do Rio de Janeiro, uma decisão que visava isolá-los das pressões comerciais e permitir uma maior liberdade criativa. Após a conclusão, a versão original do álbum foi inicialmente rejeitada pela gravadora Abril Music, que alegou falta de potenciais hits e uma produção que consideraram "amadorística". Em uma tentativa de compromisso, o produtor Marcelo Sussekind foi contratado para remixar o trabalho. No entanto, segundo relatos, Sussekind apreciou tanto a versão original que realizou poucas alterações, entregando uma mixagem muito próxima à concepção inicial da banda. O disco é notável pela sua rica instrumentação, que, além dos instrumentos da banda, incorporou uma vasta gama de músicos convidados, incluindo um naipe completo de metais (trombone, trompete, flugelhorn, saxofone, tuba) e cordas (violino, viola de arco, violoncelo, flauta, clarinete, clarone), que contribuem para os arranjos elaborados e a sonoridade orquestral de várias faixas.

Músicas

Com 14 faixas, Bloco do Eu Sozinho abre com "Todo Carnaval Tem Seu Fim", uma declaração imediata da ruptura com a sonoridade anterior, apresentando metais e uma atmosfera melancólica que permeia boa parte do álbum. Canções como "A Flor" e "Retrato Pra Iaiá" exemplificam a fusão de elementos como flugelhorn e ska com a estética da MPB. Já "Assim Será" surpreende ao combinar pandeiro com guitarras elétricas, enquanto "Sentimental" é frequentemente apontada como um dos pontos altos do disco, uma balada que exala emoção e complexidade. As letras exploram temas de solidão, amores perdidos, introspecção e a vida urbana, características que se tornariam marcas registradas da banda. Embora Marcelo Camelo assine a maioria das composições, a contribuição de Rodrigo Amarante, com canções como "Sentimental" e "Retrato Pra Iaiá", demonstra a solidificação de duas forças criativas distintas e complementares no grupo. O álbum também reserva momentos de resgate da sonoridade inicial, como em "Tão Sozinho", que surpreende com uma pegada mais próxima do hardcore, e encerra com a reflexiva "Adeus Você", fechando o ciclo de despedidas e recomeços.

Legado

Apesar de uma recepção crítica positiva, Bloco do Eu Sozinho não alcançou as expectativas comerciais da gravadora, vendendo menos de 40 mil cópias em um primeiro momento e sendo considerado um "fracasso de vendas" para a Abril Music. Contudo, sua importância transcendeu os números imediatos. O álbum foi indicado ao Grammy Latino de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa em 2002, um reconhecimento da sua qualidade artística. Com o tempo, Bloco do Eu Sozinho consolidou-se como um marco na música brasileira, sendo eleito o 42º melhor álbum brasileiro de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil em 2007. A obra solidificou o som autêntico dos Los Hermanos e exerceu uma influência profunda sobre gerações subsequentes de músicos brasileiros, pavimentando o caminho para o que viria a ser conhecido como "indie brasileiro" e redefinindo os limites da MPB com o rock alternativo. Seu impacto é tão duradouro que o álbum continua sendo celebrado, inclusive com a existência de bandas-tributo que carregam o nome do disco, reafirmando sua relevância cultural e musical.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção Artística]

João Augusto

Produção, Gravação

Chico Neves

Vocais, Guitarra

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante

Bateria

Rodrigo Barba

Teclados, Piano, Sintetizador

Bruno Medina

Masterização

Ricardo Garcia

Mixagem

Marcelo Sussekind, Vitor Farias

Design Gráfico

Ludmila Ayres, Zoy Anastassakis

Fotografia

Daniela Dacorso

Podcasts

Referências

Livros