Ventura
Los Hermanos
2003

Porque Merece Estar na Lista
Ventura, o terceiro álbum da banda carioca Los Hermanos, lançado em 2003, marca um ponto de virada crucial na trajetória do grupo e na música brasileira contemporânea. Distanciando-se do som mais ska-punk e rock alternativo de seus trabalhos anteriores, o álbum mergulha em uma sonoridade mais sofisticada e amadurecida, incorporando elementos de MPB, samba e bossa nova a um rock de influências indie e art rock. Este trabalho representa a consolidação da identidade musical complexa e melancólica da banda, com arranjos bem elaborados e uma produção limpa que favorece a diversidade de estilos. As melodias suaves, mas com profundo impacto emocional, e as letras introspectivas e poéticas que abordam temas como amor, existencialismo e a passagem do tempo, conferem a Ventura um caráter atemporal. É um álbum que equilibra melancolia e leveza, refletindo sobre as complexidades das relações humanas e as nuances da vida, tornando-se um marco de sofisticação e uma peça essencial para entender a evolução do rock e da MPB nos anos 2000.

O quarteto passeia desenvolto por um universo todo seu, entre descrições precisas de um cotidiano classe média e melodias memoráveis.
Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil
Contexto
Antes do lançamento de Ventura, os Los Hermanos já haviam trilhado um caminho de evolução sonora. Após o sucesso do disco de estreia autointitulado em 1999, impulsionado pelo hit "Anna Julia", a banda surpreendeu o público com Bloco do Eu Sozinho em 2001, que já indicava um afastamento do hardcore inicial para uma mistura mais rica de rock e ritmos brasileiros. Ventura solidificou essa transição, com a sonoridade do grupo ainda mais influenciada por samba, choro e bossa nova. O processo de lançamento do álbum enfrentou percalços: com Ventura já pronto, a gravadora Abril Music declarou falência no final de 2002. Apesar das ofertas de selos independentes, a banda aceitou a proposta da BMG, que adquiriu parte do catálogo da Abril e contratou os Los Hermanos. Além disso, Ventura ganhou notoriedade por ter sido o primeiro trabalho de uma banda brasileira a ser disponibilizado ilegalmente na internet antes de seu lançamento oficial, um fato que marcou a época.
Gravação
A pré-produção de Ventura ocorreu no Sítio Remanso, em Petrópolis, entre 15 de outubro e 13 de dezembro de 2002. A gravação oficial aconteceu no estúdio Monoaural, entre 20 de janeiro e 23 de fevereiro de 2003, seguida pela mixagem no estúdio A.R. de 24 de fevereiro a 9 de março do mesmo ano. A masterização foi realizada no Classic Master em 27 e 28 de março de 2003. A produção do álbum ficou a cargo de Kassin, nome conhecido por seu trabalho refinado na MPB, o que contribuiu para a sonoridade polida e intrincada do disco. Fabiano França foi responsável pela gravação e mixagem, enquanto Carlos Freitas cuidou da masterização. Os bastidores da produção foram documentados pela MTV Brasil em um filme chamado “Além Do Que Se Vê”, lançado em 2004 e posteriormente disponibilizado no canal da banda no YouTube.
Músicas
Ventura apresenta 15 faixas que se alternam entre as composições de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, consolidando uma parceria criativa que se tornaria a marca registrada da banda. Canções como "Samba a Dois", que abre o disco com versos imortalizados sobre a essência do samba, e o single "O Vencedor", destacam a genialidade criativa e a capacidade do grupo de mesclar gêneros. Outras faixas notáveis incluem "Último Romance" e "O Velho e o Moço", que ilustram a profundidade lírica e os arranjos ousados, transitando entre o rock alternativo, MPB e bossa nova. As letras exploram temáticas profundas, como o amor, a passagem do tempo, a busca por propósito e dilemas existenciais, com uma abordagem poética que equilibra melancolia e leveza. A faixa "Conversa de Botas Batidas" é particularmente intrigante, baseada em um acidente trágico no Rio de Janeiro. O álbum é notável por muitas de suas canções evitarem a estrutura tradicional de refrão, um traço de maturidade sonora iniciado em Bloco do Eu Sozinho.

Para cimentar-lhes a fama, talvez tivesse bastado o arrasa-quarteirão Anna Júlia (1999), posteriormente até regravada pelo inglês Jim Capaldi, ex-Traffic. Ou talvez tivesse sido suficiente o carnaval ska-hardcore do segundo álbum, Bloco do eu sozinho (2001).
Arthur Dapieve · 300 Discos Importantes
Legado
Ventura alcançou um status icônico na música brasileira, sendo reconhecido por sua qualidade e impacto cultural. Foi considerado pela Rolling Stone Brasil como o 68º maior disco brasileiro de todos os tempos. Em setembro de 2012, em uma votação popular realizada pela Rádio Eldorado FM, portal Estadao.com e Caderno C2+Música, foi eleito o melhor disco brasileiro da história. O álbum foi certificado como disco de ouro pela Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD) após vender mais de 50.000 cópias. Sua relevância se estende até projetos como o “Ventura Sinfônico”, onde a Orquestra Petrobras Sinfônica (Opes) realiza shows com o repertório do álbum, tendo inclusive lançado uma edição dupla de CD e DVD em 2017. Ventura não só consolidou os Los Hermanos na cena nacional, como também influenciou uma geração de músicos e ouvintes, tornando-se uma obra de referência pela sua sofisticação e atemporalidade.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Sérgio Bittencourt
Bubu Trompete, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Índio
Alex Werner, Simon Fuller
Kassin
Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante
Gabriel Bubu
Rodrigo Barba
Bruno Medina
Daniel Carvalho
Carlos Freitas
Fabiano França
Fernando Fischgold, Luizao Dantas
Estevão Casé
Luciano Tarta
Emil Ferreira, Rosangela Almeida
Philippe Leon
Zoy Anastassakis
Michel Le Page
