Paêbirú
Lula Côrtes e Zé Ramalho
1975

Porque Merece Estar na Lista
Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, ou simplesmente Paêbirú, é um marco na música brasileira, sendo o primeiro e único álbum da parceria entre Lula Côrtes e Zé Ramalho, lançado em 1975. Este trabalho singular é reconhecido como um dos precursores da psicodelia genuinamente brasileira, integrando de forma inédita elementos da cultura indígena em sua sonoridade. O álbum se destaca por uma fusão rica e experimental de gêneros, abrangendo o rock psicodélico, o jazz e ritmos regionais do Nordeste Brasileiro. Sua abordagem inovadora e a profundidade de sua proposta o tornam uma obra essencial para entender a criatividade e a vanguarda musical da época. Mais do que um disco, o álbum original era acompanhado por um livro que aprofundava estudos sobre a região e a lenda do Caminho da Montanha do Sol, sublinhando seu caráter multifacetado e conceitual.
Contexto
A criação de Paêbirú foi profundamente inspirada pela Pedra do Ingá, na Paraíba, local que Lula Côrtes e Zé Ramalho exploraram em uma expedição pessoal que incluiu o uso de cogumelos alucinógenos. Essa experiência mística e a imersão na cultura local foram cruciais para a atmosfera do disco. Lendas e mitologias brasileiras, como as histórias de Sumé (uma entidade pré-colonização reverenciada pelos indígenas) e a figura de Iemanjá, serviram de base para diversas passagens do álbum, incluindo a faixa de abertura. O título do disco remete ao lendário Caminho do Peabiru, uma antiga rota guarani que ligava o Oceano Atlântico ao Pacífico. O projeto foi apresentado a José Rozenblit por Lula e, apesar de ser considerado uma "loucura" por Hélio Rozenblit, filho do produtor, foi corajosamente gravado por dois jovens artistas então desconhecidos.
Gravação
A gravação do álbum Paêbirú foi marcada por um processo bastante improvisado, refletindo a espontaneidade e o caráter experimental do projeto. Zé Ramalho gravou inicialmente suas partes no violão, enquanto Lula Côrtes adicionava as suas no tricórdio, uma variação do bandolim. Os demais músicos, então, contribuíram com suas partes por cima dessa base. É notável que alguns erros de gravação e mixagem foram deixados intencionalmente no resultado final, o que contribuiu para a autenticidade e a estética sonora única do disco.
Músicas
Paêbirú é um disco de vinil duplo, com onze faixas divididas em quatro lados, cada um deles dedicado a um dos quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água, conferindo uma sonoridade particular a cada parte. O lado "Fogo" é o mais roqueiro e pesado, com destaque para "Raga dos Raios", considerada a melhor peça de guitarra fuzz gravada no rock nacional, utilizando sons de guitarra elétrica distorcida e órgão. O lado "Ar" apresenta canções mais etéreas com uso de flautas, além de incluir conversas, risadas, suspiros, harpas e violas. Em "Água", são incorporados fundos sonoros de água corrente, letras em louvação a entidades representativas do elemento e gêneros dançantes como o baião, iniciando com um ponto de Iemanjá cantado por um pai de santo. No lado "Terra", a sonoridade é construída por instrumentos de percussão, tambores, flautas, congas e saxofone alto, além de efeitos de aves em voo produzidos de forma não eletrônica e o uso de instrumentos como o berimbau. Além das composições de Lula Côrtes e Zé Ramalho, outros músicos renomados como Alceu Valença e Geraldo Azevedo contribuíram para a gravação, com Alceu, por exemplo, utilizando celofane nos dentes para criar sons que imitavam besouros e moscas. O título original "Peabiru" foi alterado para "Paêbirú" devido a um erro de grafia na capa do disco. Os longos instrumentais psicodélicos e ritmos regionais são complementados por sons sintéticos paralelos aos temas.
Legado
A edição original de Paêbirú teve uma tiragem única de 1.300 exemplares, dos quais cerca de 1.000 se perderam em uma enchente no Rio Capibaribe, em Recife, no ano de 1975. Essa escassez fez com que o álbum se tornasse o vinil de maior valor comercial no Brasil, com uma das aproximadamente 300 cópias remanescentes valendo em torno de 4 mil reais quando bem conservada. As fitas originais, felizmente salvas da enchente, foram a base para diversos relançamentos, como as edições em vinil e CD na Europa pelo selo Mr. Bongo em 2005, e em CD no Brasil em 2012. Posteriormente, a Polysom realizou novos relançamentos em vinil em 2019 e 2024, buscando maior fidelidade às fitas originais, com a versão de 2024 dispensando efeitos de reverberação e eco adicionados em remasterizações pós-enchente. O álbum é universalmente considerado o fundador de uma psicodelia genuinamente brasileira, com fortes elementos da cultura indígena.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Abrakadabra
Fred Mesel, Lailson, Preto
Israel Semente Proibida, Marconi Notaro
Katia Mesel
Inácia
Zé de Torubamba
Ivinho
Geraldo Azevedo
Dikê
Paulo Rafael
Jarbas Selenita
Jorge
Marcelo
Carmelo Guedes
Don Tronxo
Zé Ramalho
Hélio Ricardo
Jonathas
Ronaldo
Lula Côrtes
Hugo Filho
Agrício Noya
Alceu Valença
Toni Torres
Zé Da Flauta
Fernando Lira
Katia Mesel
Raul Cordula
Fred Mesel, Paulinho Da Macedonia
