Fragmentos Da Casa
Marco Bosco
1986

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Por Que Esse Disco é Importante
Fragmentos Da Casa, lançado em 1986 pelo renomado selo Carmo de Egberto Gismonti, é um marco na discografia do percussionista e produtor Marco Bosco, consolidando sua visão inovadora da música instrumental brasileira. O álbum é uma fusão audaciosa de elementos acústicos e eletrônicos, caracterizando-se por uma sonoridade experimental que, ao mesmo tempo, consegue ser profundamente envolvente. Nele, Bosco explora as infinitas possibilidades da percussão, combinando instrumentos tradicionais e invenções próprias com as novas tecnologias de sintetizadores e bateria eletrônica, criando paisagens sonoras que transitam entre o onírico e o tangível. Este trabalho representa um ponto alto na busca de Marco Bosco por uma linguagem musical que transcende fronteiras, incorporando influências da World Music e da Ambient Music em um contexto genuinamente brasileiro. O álbum se destaca pela originalidade na utilização de timbres e texturas, oferecendo uma experiência auditiva rica e multifacetada, onde a percussão não é apenas um acompanhamento, mas a espinha dorsal de composições complexas e emocionantes. A forma como "Fragmentos Da Casa" equilibra a experimentação com momentos de maior acessibilidade define sua singularidade na música instrumental da década de 1980.
Contexto
Antes de Fragmentos Da Casa, Marco Bosco já era um músico de estúdio requisitado e um percussionista experiente, tendo colaborado com uma vasta gama de artistas brasileiros e internacionais de renome. Ele iniciou seus estudos de percussão em 1977 e trabalhou com nomes como Egberto Gismonti, Raul Seixas, Rita Lee, Caetano Veloso, Ivan Lins, Nina Simone e Hank Jones. Sua trajetória incluía também a participação em cerca de 500 peças publicitárias para rádio e televisão, o que demonstra sua versatilidade e familiaridade com a produção musical. Em 1983, Bosco já havia lançado seu primeiro álbum solo, Metalmadeira, também marcado pelo experimentalismo e pela mescla de sons acústicos e eletrônicos, estabelecendo um caminho para aprofundar essa pesquisa sonora em seu trabalho seguinte. O ambiente musical brasileiro na década de 1980 era efervescente, com muitos artistas explorando as novas ferramentas eletrônicas disponíveis. Marco Bosco, ao abraçar essa fusão de sons, considerava a chegada dos equipamentos eletrônicos como "a melhor coisa que aconteceu no planeta", evidenciando seu entusiasmo e sua abertura para as inovações tecnológicas. Sua mudança para o Japão em 1990 e o estudo da percussão japonesa com o grupo "O Edo Sukeroku Taiko" mostram seu cosmopolitismo e a contínua busca por novas sonoridades e influências em sua carreira.
Gravação
A gravação de Fragmentos Da Casa em 1986 foi um exercício de vanguarda na integração de elementos acústicos e eletrônicos, um traço marcante da produção de Marco Bosco. O álbum, lançado pelo selo Carmo de Egberto Gismonti, contou com a participação do próprio Gismonti nos teclados das faixas "Fragmentos" e "Quarto", agregando sua distinta sensibilidade musical. Bosco desempenhou múltiplos papéis no processo, não só como percussionista e vocalista, mas também manipulando equipamentos eletrônicos como Emulator, Poly 6 e bateria digital DR, demonstrando um controle artístico abrangente sobre a sonoridade do disco. O projeto reuniu um elenco notável de músicos e uma instrumentação diversificada. Além dos sintetizadores e teclados de Paulo Calasans (Yamaha CP 70, DX 7, Six Track, Mini Moog) e Luis Lopes (DX 7, Six Track, Prophet 5), o álbum explorou guitarras e violões de Aroldo Santarrosa, o acordeon de Oswaldinho do Acordeon e a cítara nordestina de Carioca. Um detalhe peculiar e inovador na sonoridade do álbum foi o "arsenal percussivo único e extremamente peculiar" de Marco Bosco, que incluía instrumentos como chizanzhi, caxixis, purrinhols, reco-recos, xequeres, berimbaus e um tambor de língua, muitos deles fabricados por Bira Reis, da Oficina de Investigação Musical de Salvador. Essa combinação de instrumentos de fabricação artesanal com a tecnologia de ponta da época é um testemunho da criatividade e do experimentalismo que permeou a concepção e a gravação de Fragmentos Da Casa.
Músicas
As oito faixas de Fragmentos Da Casa são uma tapeçaria sonora que alterna momentos de introspecção e dinamismo, revelando a maestria de Marco Bosco na construção de atmosferas. O lado A do LP é dominado por peças mais extensas e de caráter experimental, com destaque para a suíte "Fragmentos", que se desdobra em três segmentos: "noite escura", "crescendo o medo" e "despertar das águas", criando um arco narrativo musical que evoca imagens e sensações. A faixa "Sol da Manhã", também de autoria de Bosco, é outra joia desse lado do álbum, reconhecida por sua qualidade a ponto de ser incluída na coletânea "Outro Tempo (Electronic and Contemporary Music from Brazil 1978-1992)". O lado B do álbum apresenta uma sonoridade mais acessível, abrindo com a balada "Tua Casa, Minha Casa", uma composição de Sá & Guarabyra que se insere perfeitamente no universo sonoro do disco, com sintetizadores criando atmosferas oitentistas. As composições seguintes, "Quarto" (de Bosco e Egberto Gismonti), "Sala" (de Sérgio Caffa), "Cozinha" (de Luis Lopes) e "Pela Janela" (de Paulo Calasans), completam a jornada, com cada faixa explorando diferentes "cômodos" sonoros e emocionais, mantendo a percussão e as texturas eletrônicas como fios condutores. A colaboração com diversos compositores enriquece a diversidade melódica e harmônica, sem desviar da identidade experimental e ambiental que define o trabalho de Marco Bosco.
Legado
Fragmentos Da Casa consolidou a reputação de Marco Bosco como um visionário na música instrumental brasileira e um dos percursores na fusão de sonoridades acústicas e eletrônicas. O álbum, apesar de seu caráter experimental, alcançou reconhecimento e se tornou um item cobiçado por colecionadores, especialmente após sua reedição pelo selo Discos Nada. A inclusão da faixa "Sol da Manhã" na aclamada coletânea "Outro Tempo" de DJ John Gomez atesta sua relevância e influência no cenário da música eletrônica e contemporânea brasileira. O trabalho de Bosco, e em particular Fragmentos Da Casa, é frequentemente citado em discussões sobre a música audaciosa e destemida produzida no underground brasileiro, como evidenciado pelo artigo de Bento Araujo, autor da série de livros "Lindo Sonho Delirante", que acompanha a reedição do álbum. A sonoridade de Fragmentos Da Casa ressoa até hoje, sendo um exemplo paradigmático de como a experimentação com timbres e tecnologias pode gerar uma obra atemporal e impactante, influenciando gerações de músicos a explorar as interseções entre tradição e inovação.
Análises
Discogs
Fragmentos Da Casa – Discogs
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