Previsão do Tempo
Marcos Valle
1973

Porque Merece Estar na Lista
Previsão do Tempo é um álbum de estúdio marcante do cantor, compositor, instrumentista e arranjador brasileiro Marcos Valle, lançado pela Odeon em 1973. O disco se destaca por ser a segunda colaboração do músico carioca com a seminal banda Azymuth, além de apresentar uma fusão inovadora de música popular brasileira com elementos da música negra americana. Esta mistura confere ao trabalho um estilo único e vibrante, que o torna uma peça essencial para entender o cenário musical da época. Elogiado pela crítica especializada, Previsão do Tempo é considerado um trabalho muito representativo de um período de intensa criatividade na MPB. Sua relevância transcendeu as fronteiras nacionais, tornando-se cultuado em círculos estrangeiros consumidores de música brasileira, especialmente na Europa e no Japão.
Contexto
Em 1973, os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle foram convidados por Roberto Farias e Héctor Babenco para compor a trilha sonora do documentário O Fabuloso Fittipaldi. Para este projeto, Marcos Valle solicitou a participação de José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan Conti, que mais tarde formariam o Azymuth. A parceria foi tão bem-sucedida que Marcos os convidou para acompanhá-lo em seu próximo álbum de carreira. Antes de Previsão do Tempo, Marcos já havia colaborado com o grupo O Terço em duas faixas de seu álbum anterior, Vento Sul. Além disso, a canção "Os Ossos do Barão" já havia sido gravada com arranjos do maestro Waltel Branco como tema de abertura para uma novela da Rede Globo. Marcos Valle também vinha de uma experiência na produção do álbum de retorno de João Donato, Quem É Quem?. Foi nesse contexto que Marcos e os músicos do Azymuth entraram nos estúdios da Odeon, sob a produção de Milton Miranda.
Gravação
As gravações de Previsão do Tempo iniciaram-se parcialmente em 1972, sendo concluídas no ano seguinte nos estúdios cariocas da gravadora Odeon. O álbum contou com a produção de Milton Miranda, figura responsável por grande parte dos lançamentos da gravadora àquela época.
Músicas
O álbum apresenta uma riqueza musical e lírica notável, transitando entre samba, MPB, rock, funk, soul e jazz. Suas letras abordam temas diversos como futebol, suicídio, desilusão amorosa, desprendimento e até comentários políticos velados, permeados por ironia, agressividade e referências históricas. O uso de sintetizadores ARP e Minimoog, tocados por Bertrami em harmonia com o piano Rhodes de Marcos Valle, introduziu novos timbres que renovaram a música brasileira, particularmente evidentes na faixa-título instrumental e em "Mentira". Embora não possua o mesmo viés político explícito de álbuns anteriores de Marcos Valle, Previsão do Tempo é carregado de simbolismos, a começar pela capa, interpretada por críticos como uma alegoria à tortura e ao "sufocamento" da censura durante os anos de chumbo da ditadura militar. A abertura com o samba "Flamengo até Morrer" satiriza o governo e a passividade brasileira, sugerindo que "tudo vai bem" enquanto há futebol para distrair. A faixa "Samba Fatal", por sua vez, foi composta sob o impacto do suicídio de Torquato Neto. Canções como "Nem Paletó, nem Gravata", "Tira a Mão" e "Mentira" exemplificam a fusão setentista de música brasileira (samba e baião) com soul e funk americanos, antecipando o movimento Black Rio. "Mentira" é notável por um dos primeiros usos de sons percussivos feitos com a boca, o que seria mais tarde conhecido como beatbox. Outros destaques incluem o samba-rock "Não Tem Nada Não", parceria com Eumir Deodato e João Donato, e a faixa-título instrumental, que sintetiza a excelência da parceria entre Marcos Valle e o Azymuth.
Legado
Previsão do Tempo foi amplamente elogiado pela crítica especializada, tanto nacional quanto internacional, por sua inovadora fusão de música brasileira com ritmos afro-americanos como funk, soul e jazz. Cláudia Menescal descreveu o disco como um "som plural, eclético, com músicas cheias de sol e de soul". Marcelo Pinheiro, da Revista Brasileiros, destacou a "sublime" combinação dos timbres do piano elétrico Fender Rhodes de Valle com o órgão Hammond e os sintetizadores (especialmente o pioneiro ARP) de José Roberto Bertrami. Críticos internacionais como John Bush, do Allmusic, e Will Hermes, da Rolling Stone, ressaltaram o "groove ensolarado" do álbum e o "assombroso" senso rítmico de Marcos Valle, além da inteligência das letras codificadas de Paulo Sérgio Valle, que conseguiram "passar abaixo do radar da censura do regime militar brasileiro". O som de Marcos Valle no álbum, especialmente em "Mentira", foi frequentemente comparado a Stevie Wonder, em canções como "Superstition". A influência do álbum se estende, com "Mentira" sendo sampleada pelo Planet Hemp na faixa "Contexto" do álbum A Invasão do Sagaz Homem Fumaça. O disco foi relançado em diversas edições internacionais, incluindo CDs no Japão (2001) e Europa (2004), e em CD e LP nos EUA (2012).
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
José Roberto Bertrami, Marcos Valle, Waltel Branco
Lindolfo Gaya
Milton Miranda
Z. J. Merky
Paulo Sérgio Valle
Reny R. Lippi
Dacy Rodrigues, Nivaldo Duarte, Toninho
Jorge Teixeira Da Rocha
Joel Cocchiararo
