Courage

Milton Nascimento

1968

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Por Que Esse Disco é Importante

Lançado em 1969, Courage é o segundo álbum de estúdio do cantor e compositor Milton Nascimento e marcou sua estreia internacional, sendo um marco fundamental para a projeção global de sua carreira. Gravado nos Estados Unidos, o disco apresenta uma fusão inovadora da rica tradição musical brasileira com texturas sofisticadas do jazz e arranjos orquestrais exuberantes, criando um som distintivo que o diferenciava tanto da bossa nova em declínio quanto do Tropicalismo emergente. A obra destaca a voz inconfundível de Milton Nascimento, um barítono expressivo e, por vezes, etéreo, com uma impressionante extensão vocal de quatro oitavas, que ele utiliza como um instrumento orquestral, muitas vezes com vocalizações sem palavras (scat). O álbum foi aclamado como uma "obra-prima" pela crítica, com alguns admiradores considerando-o o melhor de sua discografia, por sua execução magnífica de canções que viriam a se tornar clássicos. Este trabalho não apenas apresentou Milton ao público estrangeiro, mas também solidificou seu estilo musical único, pavimentando o caminho para futuras experimentações e definindo um novo padrão para a Música Popular Brasileira.

Contexto

O lançamento de Courage se deu em um período efervescente e desafiador para o Brasil. Em 1968, o país vivia sob o regime da ditadura militar, um cenário de intensa repressão política e censura, onde a música popular muitas vezes servia como forma de protesto, ainda que velado. Nesse contexto, a MPB se consolidava como um movimento que, diferentemente do Tropicalismo com sua estética mais experimental e provocadora, frequentemente buscava inspiração nas raízes folclóricas e mantinha uma sonoridade predominantemente acústica, com mensagens políticas muitas vezes oblíquas. Para Milton Nascimento, 1968 foi um ano crucial. Após o sucesso de seu álbum de estreia homônimo, conhecido como Milton Nascimento (Travessia), de 1967, e suas notáveis participações em festivais de música, ele já era uma figura ascendente na cena brasileira. Foi nesse momento que o produtor e arranjador Eumir Deodato, encantado com a voz de Milton, percebeu seu potencial internacional e o apresentou ao influente produtor Creed Taylor. Taylor, igualmente impressionado, decidiu levá-lo para gravar um disco nos Estados Unidos, visando o mercado global e estabelecendo Courage como a ponte de Milton para o reconhecimento mundial.

Gravação

As sessões de gravação de Courage ocorreram em Nova Jersey, nos Estados Unidos, entre dezembro de 1968 e fevereiro de 1969. O álbum foi produzido por Creed Taylor, uma figura lendária no cenário do jazz e da música instrumental, e contou com a engenharia de som do renomado Rudy Van Gelder, conhecido por seu trabalho impecável e por capturar a complexidade sonora de arranjos orquestrais. Os arranjos e a condução da orquestra ficaram a cargo do maestro brasileiro Eumir Deodato, que criou paisagens sonoras exuberantes, combinando elementos jazzísticos com a sensibilidade melódica brasileira. A gravação reuniu um elenco estelar de músicos, incluindo o icônico Herbie Hancock ao piano, o percussionista Airto Moreira, o baixista Ron Carter e o flautista Hubert Laws, entre outros talentos do jazz, que contribuíram para a riqueza e sofisticação do som do álbum. A complexidade vocal de Milton e os arranjos de Deodato exigiram uma técnica de gravação precisa de Van Gelder, resultando em uma sonoridade tridimensional e orgânica que realçava a voz de Milton e a clareza dos instrumentos.

Músicas

Courage apresenta uma coleção de composições marcantes de Milton Nascimento, muitas delas em colaboração com seus parceiros de longa data, como Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos, além de contribuições de Danilo Caymmi e Paul Williams. O disco se destaca por mesclar canções em português, versões em inglês e até vocalizações puramente melódicas, onde a voz de Milton transcende a linguagem verbal. A faixa de abertura, "Bridges (Travessia)", é emblemática. Uma versão em inglês do clássico "Travessia", ela se tornou um dos carros-chefes do álbum, projetando o nome de Milton no cenário musical mundial com sua melodia envolvente e arranjo majestoso. Outras canções que se destacam incluem "Vera Cruz", com sua intrincada tessitura jazzística, "Três Pontas", que evoca a sensibilidade mineira, "Outubro", uma parceria emocionante com Fernando Brant, e "Morro Velho", uma composição solo de Milton de grande profundidade lírica. A releitura de "Canção do Sal", já interpretada por Elis Regina em 1966, e a experimentação vocal em "Catavento", que apresenta vocalizações rítmicas e scats, demonstram a versatilidade e a profundidade artística de Milton Nascimento neste trabalho pioneiro.

Legado

Courage é amplamente reconhecido como um marco indelével na trajetória de Milton Nascimento e na história da música brasileira e mundial. A crítica especializada o classificou como uma "obra-prima", com publicações como AllMusic chegando a considerá-lo, para muitos admiradores, o melhor álbum de sua carreira. O disco estabeleceu um "monumento de referência visionário e permanente" para a música acústica progressiva e para o uso dinâmico da voz, expandindo os horizontes da música global e rompendo as barreiras convencionais da música latina. Sua audácia em fundir as tradições mineiras com a vanguarda do jazz de Nova York abriu caminho para uma vasta gama de expressões criativas, do jazz-fusion progressivo ao art-pop moderno. Courage é frequentemente apontado como a pedra fundamental que solidificou a visão artística de Milton Nascimento e preparou o terreno para seu futuro clássico, Clube da Esquina, de 1972. A duradoura influência do álbum é tamanha que, décadas após seu lançamento, artistas como o clarinetista e saxofonista americano Eddie Daniels lançaram álbuns tributo, como "To Milton With Love", recriando a integralidade de Courage, testemunhando sua relevância e atemporalidade no panorama musical.

Análises

Discogs

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