Clube da Esquina
Milton Nascimento & Lô Borges
1972

Porque Merece Estar na Lista
Clube da Esquina é um marco indelével na música brasileira, apresentando-se como um álbum duplo colaborativo de Milton Nascimento e Lô Borges, lançado em março de 1972. Este trabalho singular é notável por sua ousada fusão de gêneros, combinando a riqueza da MPB com elementos de pop barroco, folk e jazz pop, além de incorporar influências de rock, psicodelia e música clássica. Sua sonoridade complexa e inovadora o distingue como uma obra de profunda originalidade. Concebido em um período de intensa tensão política, durante a ditadura militar brasileira, o álbum transcende o contexto da época para explorar temas universais e atemporais, como a amizade, a busca pela liberdade e a vivacidade da juventude. Através de sua lírica poética e arranjos sofisticados, Clube da Esquina oferece uma experiência auditiva rica e multifacetada, convidando o ouvinte a uma jornada de reflexão e emoção.

A propósito, a canção “Nada Será como Antes" era premonitória: depois disso, a MPB não seria mais a mesma.
Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil
Contexto
O coletivo musical Clube da Esquina teve suas raízes na década de 1960, em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde Milton Nascimento e os irmãos Lô, Márcio e Marilton Borges iniciaram suas colaborações no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis. Milton, que se mudara para a capital mineira em 1963, conheceu os irmãos Borges no Edifício Levy, estabelecendo uma conexão musical que se aprofundou ao longo dos anos. Ele, inclusive, ensinava Lô a tocar violão e a compor, semeando as bases para o futuro álbum. A carreira de Milton Nascimento ganhava impulso, especialmente após o sucesso de 'Canção do sal' na voz de Elis Regina, o que solidificou as parcerias e expandiu o círculo de músicos, lançando os fundamentos para o movimento do Clube da Esquina. O período pré-gravação foi marcado pela efervescência criativa e pelo cenário político conturbado da ditadura militar, que, apesar das restrições culturais, motivou os artistas a canalizar sua arte como forma de expressão e refúgio.
Gravação
A gravação do álbum ocorreu predominantemente na casa de praia de Piratininga, em Niterói, no bairro de Mar Azul, onde o grupo passou seis meses em sessões criativas e ensaios, com as primeiras gravações acontecendo em novembro de 1971. As sessões finais foram realizadas tanto no Rio de Janeiro, em Santa Tereza e em bares do centro da cidade, quanto nos Estúdios Odeon. Nestes estúdios, o coletivo Clube da Esquina recebeu várias semanas para gravar, com sessões que se estendiam por dias e noites, caracterizadas por intensa colaboração, improvisação e experimentação. Os músicos alternavam funções, com Beto Guedes tendo um papel central na produção, tocando baixo e bateria em 17 das 21 faixas. Milton Nascimento era o responsável por escolher os letristas, enquanto Márcio Borges e Fernando Brant se dedicaram às letras, e músicos como Toninho Horta desenvolveram as ideias musicais. As orquestrações ficaram a cargo principalmente de Eumir Deodato e Wagner Tiso. A gravação nos Estúdios Odeon utilizou técnicas analógicas, com um canal dedicado aos vocais e outro aos instrumentos, exigindo grande precisão dos músicos. A ideia de um álbum duplo enfrentou resistência inicial da gravadora EMI-Odeon, mas o sucesso de colaborações anteriores ajudou a garantir o apoio necessário. Antes do lançamento, foram realizadas três audições do álbum. Lô Borges destacou a importância de focar na arte e nas canções durante a ditadura militar, e Márcio Borges descreveu a colaboração entre Milton e Lô como uma "espécie de entidade híbrida, homogênea, autóctone, formada por duas cabeças, quatro mãos e duas guitarras". Toninho Horta, por sua vez, caracterizou o álbum como um "néctar, um oásis", ressaltando a diversidade e importância da formação musical de cada participante.
Músicas
Clube da Esquina, composto por 21 faixas, é uma obra que se aprofunda em temas como amizade, liberdade e juventude, permeados por um lirismo poético marcante. A fusão de estilos musicais é uma característica distintiva, combinando MPB, pop barroco, folk e jazz pop com ecos de rock, psicodelia, bossa nova, música clássica e afro-americana. Críticos interpretaram o álbum como um reflexo de um espírito de liberdade artística em contraste com o autoritarismo da ditadura militar brasileira, e o motivo recorrente da estrada serve como metáfora para as transformações da vida. Entre as canções, 'Tudo Que Você Podia Ser' narra a resignação diante da opressão militar, enquanto 'Cais' explora a solidão e o porto como refúgio emocional, com influências de Villa-Lobos e do jazz. 'O Trem Azul', cantada por Lô, é uma canção de amor que utiliza a imagem do trem para evocar a partida e a busca interior, apresentando uma sonoridade libertadora e quase psicodélica. 'Nuvem Cigana' explora a estrada como espaço de possibilidades, e 'Cravo e Canela' é uma homenagem à atriz Dina Sfat, com um arranjo de samba que se diferencia de sua versão instrumental anterior. A faixa mais longa, 'Dos Cruces', é um bolero espanhol de 1952, interpretado por Milton, que aborda o amor perdido e a nostalgia. 'Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo', de Lô, tece dilemas entre partir e ficar, inspirada por Duca Leal e com um tom existencial e melancólico. 'San Vicente' evoca a América Latina da época, com referências aos Andes e à opressão, funcionando como uma metáfora para o estado sociopolítico do Brasil. A sequência 'Estrelas' e 'Clube da Esquina Nº 2' celebra o amor e a amizade entre Milton, Lô e a música. 'Paisagem da Janela', de Fernando Brant e Lô Borges, reflete a experiência de uma viagem a Diamantina e o encontro com Juscelino Kubitschek, enquanto 'Me Deixa Em Paz', com Alaíde Costa, é um samba que expressa a tristeza do amor não correspondido com um arranjo introspectivo e jazzístico. 'Os Povos' é uma homenagem aos amigos venezuelanos de Milton, e 'Saídas e Bandeiras Nº 2' complementa liricamente a primeira parte da canção.

Artista de pequenas vendagens e enorme prestígio (predicado que ainda interessava às gravadoras na época), Milton Nascimento teve bancado seu projeto de álbum duplo em 1972, quando muitos de seus colegas dos festivais estavam exilados.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Clube da Esquina, apesar do sucesso comercial no Brasil e no exterior, enfrentou críticas negativas iniciais da crítica brasileira contemporânea, que o considerou "pobre e descartável" e não compreendeu sua complexa mistura de gêneros e influências. No entanto, a percepção crítica mudou ao longo do tempo, e o álbum foi posteriormente aclamado por seu valor artístico. O álbum conquistou reconhecimento internacional e duradouro, sendo incluído no influente livro "1001 Albums You Must Hear Before You Die" (2010). Em 2022, foi eleito o Melhor Álbum Brasileiro de Todos os Tempos pelo podcast Discoteca Básica, e a revista Paste o classificou como o nono melhor álbum de todos os tempos em 2024, evidenciando sua relevância contínua. O impacto de Clube da Esquina foi tão significativo que gerou uma sequência, Clube da Esquina 2, lançada em 1978. Essa continuação expandiu a discografia coletiva do original, incorporando uma gama mais ampla de colaborações e artistas de renome como Elis Regina, Chico Buarque e Francis Hime, embora com menor participação de Lô Borges, consolidando ainda mais o legado e a influência do movimento.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Eumir Deodato, Wagner Tiso
Paulo Moura
Milton Miranda
Lindolfo Gaya
Milton Nascimento
Jorge, Nivaldo Duarte
Cafi
Cafi, Juvena Pereira
