Dez Anos Depois
Nara Leão
1971

Porque Merece Estar na Lista
Dez Anos Depois, lançado em 1971, é um álbum duplo fundamental na discografia de Nara Leão, marcando sua significativa reconciliação e reencontro com a bossa nova. Após anos de uma jornada artística inquieta, que a levou da musa do gênero a cantora de protesto e participante do Tropicalismo, Nara retorna às raízes com um trabalho que ressignifica clássicos de maneira profundamente pessoal e introspectiva. Longe da efervescência política e das experimentações dos anos anteriores, este disco oferece uma perspectiva madura e serena sobre o cancioneiro que ajudou a moldar. O álbum se destaca por sua sonoridade intimista e minimalista, especialmente no primeiro disco, gravado com um arranjo predominantemente acústico. As interpretações de Nara, que muitas vezes mal ultrapassam um sussurro, são descritas como emocionalmente poderosas e capazes de criar paisagens sonoras etéreas, onde a voz e os violões se entrelaçam em eco. Essa abordagem singular não só revisita as melodias consagradas, mas também revela novas camadas de sensibilidade nas composições, consolidando Dez Anos Depois como uma obra atemporal e um testamento da versatilidade e da maestria artística de Nara Leão na música brasileira.
Contexto
Nara Leão foi uma figura pivotal no nascimento da bossa nova, com as famosas reuniões musicais que deram origem ao movimento ocorrendo no apartamento de seus pais no Rio de Janeiro. No entanto, sua trajetória a levou a se afastar do rótulo de 'musa da bossa nova', engajando-se em projetos mais politizados, como o espetáculo 'Opinião' em 1964, e aderindo ao movimento tropicalista com sua participação no álbum 'Tropicália ou Panis et Circensis' em 1968. No final de 1969, Nara Leão mudou-se para Paris com seu então marido, o cineasta Cacá Diegues, em parte devido à intensificação da repressão da ditadura militar brasileira e às ameaças a artistas. Chegou a anunciar o fim de sua carreira musical em Londres em agosto de 1969. Durante sua estadia em Paris, dedicou-se à maternidade após o nascimento de sua primeira filha, Isabel, em setembro de 1970. Foi nesse período de exílio e reflexão que, em 1971, ela gravou Dez Anos Depois, marcando um retorno surpreendente e uma reconciliação com o gênero musical que a lançara.
Gravação
Lançado em 1971, Dez Anos Depois foi uma produção de Roberto Menescal e se distingue por ter sido gravado em dois continentes diferentes. O primeiro LP do álbum duplo é totalmente acústico e foi registrado nos Polydor Studios em Paris, França, onde Nara Leão residia na época. Os arranjos e o acompanhamento ficaram a cargo da talentosa violonista brasileira Tuca, com ocasionais intervenções de piano, e a voz de Nara foi captada em sessões íntimas com Tuca. Mr. Bonzon atuou como engenheiro de som nessas sessões parisienses. O segundo LP, por sua vez, foi gravado no Brasil, nos estúdios da Companhia Brasileira de Discos (CBD), no Rio de Janeiro. Neste disco, a voz e o violão de Nara foram gravados separadamente do acompanhamento e da orquestração, que contaram com a maestria de arranjadores como Roberto Menescal, Luiz Eça e Rogério Duprat. Ary Carvalhaes e João Moreira foram os técnicos de gravação responsáveis pelas sessões realizadas em solo brasileiro.
Músicas
O álbum Dez Anos Depois é composto por 24 faixas, a maioria delas padrões da bossa nova que se tornaram eternos. O repertório funciona quase como um songbook dedicado a Antônio Carlos Jobim, cujas composições dominam a seleção. Além de Jobim, o disco apresenta obras de outros gigantes como Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Newton Mendonça, Chico Buarque, Johnny Alf, Baden Powell e Dolores Duran. Entre as canções mais notáveis, destacam-se 'Insensatez', 'Samba de uma nota só', 'Retrato em branco e preto', 'Corcovado', 'Garota de Ipanema', 'Chega de Saudade', 'O Grande Amor', 'Desafinado', 'Minha Namorada' e 'Primavera'. As reinterpretações de Nara são caracterizadas por sua abordagem 'despojada', buscando a essência e o potencial latente dessas obras-primas. O disco também inclui a canção 'Vou por aí', de Baden Powell e Aloysio de Oliveira, que Nara já havia gravado em seu álbum de estreia de 1964, completando um ciclo de sua relação com a bossa nova. Curiosamente, o álbum não inclui nenhuma composição de Ronaldo Bôscoli, um reflexo do rompimento pessoal entre os dois artistas.
Legado
Dez Anos Depois é amplamente considerado um álbum duplo notável, que não apenas revisitou a trajetória musical de Nara Leão, mas também celebrou suas importantes contribuições para a música brasileira. Sua recepção crítica foi bastante positiva, evidenciada por uma classificação de 4.8/5 pela Sputnikmusic, um reconhecimento da qualidade intrínseca da obra. O álbum é classificado como um 'essencial álbum duplo de bossa nova', confirmando seu lugar de destaque no gênero. A forma como Nara Leão recontextualizou os padrões da bossa nova, com sua abordagem íntima e minimalista, ofereceu uma perspectiva única e inovadora, distinguindo-se das interpretações que haviam alcançado sucesso internacional na década anterior. Mesmo após cinco décadas de seu lançamento, em 1971, Dez Anos Depois ainda é percebido como um trabalho 'novo' e fresco, demonstrando a atemporalidade e a relevância duradoura da visão artística de Nara Leão.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Roberto Menescal
Tuca
Jean Bonzon
Ary Carvalhaes, João Moreira
Nei Sroulevich