Opinião de Nara

Nara Leão

1964

Capa de Opinião de Nara
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Porque Merece Estar na Lista

Opinião de Nara, lançado em 1964, é um álbum seminal na discografia de Nara Leão e um marco na música brasileira. Distanciando-se da imagem de "musa da Bossa Nova", Nara assume neste trabalho uma postura de engajamento social e político, apresentando um repertório que se aprofunda nas raízes da canção popular brasileira. O álbum é uma audaciosa fusão de samba do morro, afro-sambas, cantigas de capoeira e canções camponesas, revelando uma artista interessada em dar voz a expressões musicais genuínas do povo brasileiro. Esta mudança sonora e temática foi um divisor de águas, não só para a carreira de Nara, mas para o cenário musical da época, demonstrando que a canção popular poderia ir além da distração e do deleite, servindo como ferramenta de reflexão e compreensão do mundo. Com uma sonoridade mais "direta e forte" em comparação aos seus trabalhos anteriores, o disco surge como uma resposta musical ao contexto político da época. Ele destaca a versatilidade e a coragem de Nara Leão em explorar novas linguagens e se posicionar artisticamente frente aos acontecimentos do Brasil.

Contexto

Lançado em novembro de 1964, Opinião de Nara surge em um momento de profundas transformações no Brasil, logo após o golpe militar de 31 de março daquele ano. A cantora, que havia sido uma figura central no surgimento da Bossa Nova, com seu apartamento na Avenida Atlântica servindo como ponto de encontro para músicos como Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e Carlos Lyra, passava por uma transição artística. Nara Leão já vinha desenvolvendo um movimento com Carlos Lyra para resgatar sambas de compositores populares como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola, ligados às escolas de samba. Este álbum reflete essa nova direção, afastando-se da sofisticação da Zona Sul para abraçar temas e ritmos mais populares e socialmente engajados, em um claro contraponto ao clima de censura e perseguição imposto pela recém-instalada ditadura.

Gravação

O álbum foi produzido por Armando Pittigliani para a gravadora Philips. Nara Leão teve uma participação ativa na concepção do disco, sendo creditada por alguns como praticamente produtora de seus próprios álbuns na época. Curiosamente, há relatos de que Nara chegou a se desentender com Pittigliani durante as gravações, reclamando que ele lia jornal enquanto ela cantava. Apesar de uma ficha técnica inicial do LP não creditar músicos e arranjadores, edições posteriores e análises apontam a participação de grandes nomes. A banda que acompanhou Nara nas gravações incluía gigantes como Edison Machado na bateria, Erlon Chaves no piano e Tião Neto no baixo. A produção buscou uma sonoridade minimalista, mas sofisticada, combinando violão e percussão com orquestrações. A sugestão de iniciar a faixa-título "Opinião" com um rufar de bateria, remetendo aos tempos duros da ditadura, partiu do cineasta Glauber Rocha, executada de forma poderosa por Edison Machado.

Músicas

O repertório de Opinião de Nara é uma seleção cuidadosa de canções que expressam resistência e valorizam a cultura popular brasileira. A faixa de abertura, que dá título ao disco, "Opinião", de Zé Kéti, é um hino de protesto cujos versos desafiam diretamente a ditadura militar: "Podem me prender, podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião". Esta canção tornou-se um símbolo da luta contra a opressão política e da afirmação da identidade, valorizando o orgulho de pertencer ao morro e a resiliência diante das adversidades. O álbum apresenta uma diversidade de estilos e compositores, com sambas de Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e baiões de João do Vale. Nara Leão também incluiu uma marchinha antiga de 1941, um hábito que mantinha em seus LPs. Canções como "Acender as Velas", "Derradeira Primavera", "Berimbau (Ritmo de Capoeira)" e "Sina de Caboclo" demonstram a amplitude de sua pesquisa musical e seu interesse em apresentar o "Brasil do morro, do Nordeste e da africanidade". As letras, por vezes com duplo sentido, refletem os problemas reais da sociedade brasileira daquele período.

Legado

O impacto de Opinião de Nara foi imediato e profundo, consolidando o álbum como um marco da resistência cultural brasileira. Considerado um "disco chocante" por Ruy Castro, ele "rachou a bossa nova" e solidificou a guinada de Nara Leão para a música de protesto e o engajamento social. Em abril de 1965, a faixa "Opinião" já era a quarta música mais pedida nas rádios do Rio e São Paulo, demonstrando a forte repercussão popular. O sucesso do álbum inspirou o surgimento do icônico "Show Opinião", que estreou em dezembro de 1964 no Teatro Arena, no Rio de Janeiro. O espetáculo, que reuniu Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, foi uma das primeiras grandes manifestações artísticas de desafio à ditadura militar e tornou-se um símbolo poderoso de protesto. O álbum e o show foram cruciais para revelar novos talentos, como Maria Bethânia, que substituiu Nara no palco por recomendação dela, iniciando sua própria trajetória de sucesso. Opinião de Nara continua a ser reverenciado como uma pedra fundamental da MPB, com relançamentos e reedições atestando sua importância contínua. Sua influência é percebida na forma como abriu caminho para outros artistas utilizarem a música como ferramenta de crítica e conscientização, ecoando forte mesmo décadas depois de seu lançamento.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Armando Pittigliani

Engenheiro de Som [Recording]

Sylvio Rabello

Técnico [Recording]

Joaquim Figueira, Rogerio Gauss

Texto do Encarte

Nara Leão

Fotografia, Layout

Jânio De Freitas

Referências

Livros