Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho

1973

Capa de Nelson Cavaquinho
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O álbum Nelson Cavaquinho, lançado em 1973, é uma joia essencial na discografia do mestre sambista e na música popular brasileira como um todo. Considerado seu terceiro trabalho individual, ele reúne algumas das mais significativas e atemporais composições do artista, muitas delas já consagradas por outros intérpretes, mas que ganham uma profundidade única na voz rouca e no violão peculiar do próprio autor. Este disco é um registro fundamental da essência de Nelson Cavaquinho, um compositor que, com simplicidade e lirismo, abordava temas como a vida, a morte, o amor, a saudade e a boemia. Sua música, muitas vezes melancólica e resignada, é um retrato poético das dores da alma e da efemeridade da existência, elementos que se manifestam de forma magistral neste trabalho. O álbum se destaca por apresentar o artista no auge de sua maturidade criativa e expressiva.

#65

Neste álbum, Nelson grava pela primeira vez se acompanhando ao cavaquinho, instrumento que abandonara pelo violão, e que só voltou a tocar porque um bêbado presente em seu show no Teatro Opinião fez a provocação: “Você não é Nelson Cavaquinho? Então toca!”.

Marcus Preto · Rolling Stone Brasil

Leia mais

Contexto

Nascido em 1911, Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho, teve uma trajetória de vida marcada por uma dedicação singular à música, muitas vezes à margem do reconhecimento comercial massivo. Antes de consolidar sua carreira fonográfica nos anos 70, ele já era uma figura lendária do samba carioca, especialmente na Mangueira, onde conheceu e colaborou com grandes nomes como Cartola e Carlos Cachaça. Contudo, Nelson era mais conhecido como compositor, tendo muitas de suas canções gravadas por outros artistas desde a década de 1940. Embora tenha tido sua primeira música gravada em 1939, e feito parte de um álbum coletivo em 1968, seus primeiros álbuns solo só vieram a ser lançados na década de 1970, com "Depoimento do Poeta" (1970) e um disco homônimo pela RCA em 1972. Assim, o lançamento de "Nelson Cavaquinho" pela Odeon em 1973 o encontrava aos 62 anos, em um período de maior reconhecimento para sua obra e figura como intérprete de seu próprio cancioneiro.

Gravação

O álbum foi lançado pela gravadora Odeon em 1973 e teve a produção de João Carlos Botezelli, conhecido como Pelão. Este disco é notável por marcar a primeira vez em que Nelson Cavaquinho, aos 62 anos, tocou o instrumento que lhe deu o apelido em um de seus álbuns solo, na canção "Caminhando", abandonando momentaneamente o violão pelo qual havia optado na maturidade. Um fato interessante sobre a gravação é que o álbum supostamente inclui novas gravações de clássicos do sambista. Embora não houvesse informações detalhadas sobre os créditos dos músicos no LP original, o que era comum na época, a sonoridade do álbum é elogiada por sua qualidade, com um som estéreo profundo, seco e equilibrado. Há relatos de que discos daquele período, gravados em até 8 canais, possuíam uma "sonoridade absurda", evidenciando a competência da indústria fonográfica brasileira da época.

Músicas

O repertório de Nelson Cavaquinho de 1973 é um verdadeiro panteão de clássicos, reunindo algumas de suas obras mais celebradas. Entre as faixas que se destacam estão "Juízo Final", "Folhas Secas", "A Flor e o Espinho", "Rugas" e "Quando Eu Me Chamar Saudade". "Juízo Final", uma parceria com Élcio Soares, é um hino de esperança e resistência, especialmente significativo durante o contexto da Ditadura Militar, com o verso "O Sol há de brilhar mais uma vez" funcionando como um símbolo de fé. Já "Folhas Secas", composta com Guilherme de Brito, é uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo, a nostalgia e a saudade, utilizando a metáfora das folhas caídas de uma mangueira para evocar a vida e as memórias do samba carioca. A "A Flor e o Espinho", outra parceria antológica com Guilherme de Brito e Alcides Caminha, explora a dualidade entre amor e dor. O álbum também apresenta um "Potpourri" com a participação especial de Guilherme de Brito, reunindo outros sambas marcantes como "Se Eu Sorrir" e "Pranto de Poeta", evidenciando a forte e prolífica parceria entre Nelson e Guilherme de Brito, que assinam juntos dez das dezesseis faixas do disco.

Muito antes do bardo roufenho da sarjeta chique, o americano Tom Waits, o ex-PM carioca Nelson Antonio da Silva (1911-1986), louvado nas rodas boêmias como Nelson Cavaquinho, já chafurdava no Cabaré dos Bandidos, no centro da cidade, à cata de parceiros de aluguel (que lhe rendessem algum) e inspiração musical (quase sempre sombria).

Tárik de Souza · 300 Discos Importantes

Legado

O álbum Nelson Cavaquinho de 1973 solidificou a imagem do sambista como um dos maiores compositores e intérpretes da música brasileira, mesmo com uma carreira comercial relativamente modesta. A sua relevância é atestada pela regravação de suas canções por uma miríade de artistas de peso da MPB, como Clara Nunes e Alcione, que interpretaram "Juízo Final", com a versão de Alcione tornando-se tema de abertura de telenovela e recebendo indicações a prêmios. Embora Nelson Cavaquinho só tenha lançado um punhado de discos em vida, este álbum é frequentemente citado como uma obra fundamental, e suas músicas continuam a impactar novas gerações, comprovando a atemporalidade de sua poesia e melodia. A ressonância do trabalho é tal que, anos depois, em 2004, o álbum de 1973 foi relançado em CD na "Coleção Talento" com as mesmas faixas, mas em ordem diferente, sublinhando sua importância duradoura no cenário musical. Críticos o consideraram como a "prova em disco" da genialidade de Nelson Cavaquinho, mais do que um documento, mas uma "obra de amor", reconhecendo-o oficialmente como um gênio após anos de lendas em torno de sua figura.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Diretor Musical [Diretor Musical]

Lindolfo Gaya

Produção [Diretor De Produção]

Milton Miranda

Supervisão de Gravação [Diretor Técnico]

Z. J. Merky

Music Director [Direção Musical], Orquestração, Regência

José Briamonte

Corte

Reny R. Lippi

Gravação

Zilmar De Araujo

Podcasts

Referências

Livros