Orquestra Afro-Brasileira

Orquestra Afro-Brasileira

1968

Capa de Orquestra Afro-Brasileira
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Porque Merece Estar na Lista

O álbum Orquestra Afro-Brasileira, lançado em 1968 pela formação homônima liderada pelo maestro Abigail Moura, é uma obra seminal na música brasileira, destacando-se por sua fusão inovadora de elementos. Ele representa um esforço vanguardista na valorização e disseminação da cultura e memória negra no Brasil, misturando a sofisticação orquestral ocidental com a riqueza dos ritmos e instrumentos de matriz africana e afro-brasileira. Este trabalho singular combina instrumentos de sopro como trompetes, trombones e saxofones com um naipe de percussão tradicional que inclui agogôs, atabaques, urucungos e outros, criando uma sonoridade poderosa e espiritual. A música da Orquestra transcende o entretenimento, sendo um verdadeiro manifesto cultural que honra os Orixás e as tradições religiosas afro-brasileiras através de cantos ritualísticos e arranjos expressivos.

Contexto

A Orquestra Afro-Brasileira foi fundada em 1942 pelo maestro Abigail Moura com o propósito de estudar, preservar e divulgar a cultura afro-brasileira através da música. Ao longo de quase trinta anos de atuação, o grupo realizou cerca de cem apresentações e lançou apenas dois discos, sendo o álbum de 1968 o segundo deles. O ano de 1968 no Brasil foi marcado por um intenso efervescência política e social, com o endurecimento da ditadura militar e o florescimento de movimentos de contracultura e músicas de protesto que buscavam novas formas de expressão e conscientização. Nesse cenário, a Orquestra Afro-Brasileira, com sua proposta ousada e culturalmente profunda, apresentava um trabalho que, embora não diretamente de protesto político nos moldes da canção engajada da MPB da época, era em si um ato de resistência e celebração da identidade negra.

Gravação

O álbum foi lançado pela gravadora CBS em 1968. Todas as doze faixas do disco foram compostas pelo maestro Abigail Moura, que liderava a orquestra. A formação da Orquestra Afro-Brasileira era notável pela sua diversidade, contando com aproximadamente vinte e cinco músicos que mesclavam instrumentos de sopro ocidentais, como saxofones, trompetes e trombones, com uma rica seção de percussão composta por instrumentos africanos e afro-brasileiros como urucungo, angona-puíta, agogô, gonguê, rum, rumpi, lê e afoxê. Abigail Moura era conhecido por conduzir rituais religiosos afro-brasileiros antes das apresentações, fazendo oferendas aos atabaques e realizando banhos de ervas, transformando o palco em um espaço sagrado e imbuindo as performances de uma intensidade ritualística. Essas práticas sublinhavam o compromisso do grupo com a reverência à divindade e à ancestralidade africana.

Músicas

O álbum de 1968 apresenta doze composições, todas de autoria de Abigail Moura. Entre as faixas estão "Agô Lonan", "Tire o Calundú", "Índia", "Palmares", "Babaloxá", "Canto Para Omulú", "Mo-fi-la-do-fê", "Saudação aos Orixás", "Xangô", "Nagana", "Os Oinho de Iaiá" e "Rei N'aruanda". As letras das canções, entoadas em línguas como bantu, nagô, nheengatu e português, reforçam o caráter ritualístico e a conexão com as religiões de matriz africana, celebrando os orixás e a herança cultural. A sonoridade é marcada pela polirritmia, característica central da música africana e afro-brasileira, aliada a arranjos de sopro que dialogam com o jazz. Cada canção é uma exploração da riqueza percussiva e melódica, que, segundo relatos, muitas vezes era precedida por textos explicativos nas apresentações ao vivo para contextualizar o público sobre os rituais e a vida do negro que a orquestra buscava expressar.

Legado

Considerado um clássico e um verdadeiro tesouro nacional, o álbum Orquestra Afro-Brasileira de 1968 foi um marco na música popular brasileira. No entanto, sua proposta considerada exótica e desafiadora fez com que não alcançasse o grande público na época, atraindo principalmente uma burguesia negra e uma elite musical. Os discos da Orquestra, hoje, são considerados raros e peças valiosas para colecionadores e estudiosos. Apesar da dissolução da orquestra com a morte de Abigail Moura em 1970, o legado do grupo e a influência de suas gravações persistem. Iniciativas posteriores, como a Orquestra Afrosinfônica da Bahia e a Orkestra Rumpilezz, citam a Orquestra Afro-Brasileira como uma inspiração fundamental, atestando sua relevância na contínua reinterpretação e valorização da música afro-brasileira. Mais recentemente, em 2021, um álbum de remixes, "80 Anos (Remixed)", com a participação de diversos artistas contemporâneos, reafirmou a duradoura influência e o potencial criativo da obra da Orquestra Afro-Brasileira para novas gerações de músicos e ouvintes.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Hélcio Milito

Referências

Livros