Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets
Os Mutantes
1972

Porque Merece Estar na Lista
Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, lançado em 1972, ocupa um lugar singular na discografia de Os Mutantes, marcando o último álbum oficial da banda a contar com a icônica vocalista Rita Lee. Este trabalho reflete uma fase de transição e aprofundamento experimental para o grupo, que já vinha explorando sonoridades ousadas desde seus primeiros discos. Longe de ser apenas um registro final de uma era, o álbum é um documento sonoro da incessante busca dos Mutantes por novos horizontes musicais. Musicalmente, o disco se move entre o rock psicodélico e o progressivo, incorporando elementos de rock and roll e, em alguns momentos, acenos ao rockabilly. O título, com a gíria "baurete" remetendo a um cigarro de maconha, capta o espírito contracultural da época e a irreverência que sempre permeou a obra dos Mutantes, sinalizando uma liberdade criativa que se traduz em arranjos complexos e texturas sonoras inovadoras. O álbum é um testemunho da genialidade do trio em mesclar a sensibilidade brasileira com a experimentação sonora, utilizando truques de estúdio e a instrumentação eletrônica de forma pioneira.
Contexto
No início dos anos 70, Os Mutantes já haviam se consolidado como um dos pilares da Tropicália, movimento que desafiou as convenções musicais e sociais do Brasil sob a ditadura militar. Após o auge do tropicalismo e o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, a banda continuou sua trajetória de experimentação, lançando discos que aprofundavam seu mergulho no rock psicodélico e progressivo. Em 1971, com a oficialização de Liminha (baixo) e Dinho Leme (bateria) na formação, o grupo solidificou uma fase instrumental mais robusta, que permitiu ainda mais liberdade para a exploração sonora. O clima político e cultural da época, marcado pela repressão, mas também por um forte movimento jovem de contracultura, encontrava eco na música subversiva dos Mutantes. A própria escolha do título do álbum, com a referência velada à maconha, sublinha essa postura de desafio e busca por expandir a consciência e os limites artísticos. Este período representou um ponto de virada, à medida que a banda se preparava para uma fase ainda mais orientada para o rock progressivo após a saída de Rita Lee.
Gravação
O álbum foi gravado entre outubro e novembro de 1971 e lançado em maio de 1972, sob a chancela da Polydor. A produção ficou a cargo do próprio Arnaldo Baptista, membro fundamental da banda e conhecido por sua veia experimental, com João Fritz sendo o engenheiro de gravação. A formação que registrou o disco incluía Arnaldo Baptista nos teclados e vocais, Rita Lee nos vocais e sintetizadores, Sérgio Dias nas guitarras, cítara e vocais, Liminha no baixo e vocais de apoio, e Dinho Leme na bateria. A instrumentação utilizada na gravação reflete a fase experimental do grupo, com a presença marcante de teclados, órgãos e o Moog operado por Rita Lee, além da cítara de Sérgio Dias. Esses elementos contribuíram para a sonoridade rica e multifacetada do álbum, que mescla a psicodelia com passagens mais complexas e arranjos detalhados, indicando uma inclinação cada vez maior para as estruturas do rock progressivo.
Músicas
Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets apresenta uma coletânea de canções que flutuam entre a jovialidade e a profunda experimentação. A faixa mais conhecida e que se destacou ao longo do tempo é "Balada do Louco", uma composição de Rita Lee e Arnaldo Baptista que, com sua melodia cativante e letra poética, evoca o universo musical dos Beatles. Outras faixas notáveis incluem "Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll", que já no título manifesta a adoração ao gênero, e a versão de "Rua Augusta", que demonstra a versatilidade do grupo ao reinterpretar um hit dos anos 60. A faixa-título, com quase dez minutos de duração, é um exemplo contundente da incursão da banda pelo rock progressivo, com solos de órgão e guitarra que se desdobram em improvisações jazzísticas e atmosferas complexas. As letras do álbum, muitas vezes compostas por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, abordam temas que vão da liberdade individual à observação social, com a sensibilidade poética e o humor sarcástico que são marcas registradas dos Mutantes.
Legado
Apesar de sua importância retrospectiva, Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets teve um desempenho comercial discreto no seu lançamento, com poucas músicas obtendo sucesso nas paradas da época. Contudo, com o passar dos anos, o álbum conquistou um status de culto, sendo reavaliado e aclamado pela crítica e pelos fãs como um dos pontos altos da fase inicial dos Mutantes. Sua influência se tornou evidente à medida que a discografia da banda passou a ser reconhecida nacional e internacionalmente como um ato importante da era psicodélica. O reconhecimento póstumo do álbum é exemplificado pela regravação de "Balada do Louco" por Ney Matogrosso em 1986, que trouxe a canção ao conhecimento de um público vasto que desconhecia a versão original, solidificando seu lugar como um clássico da música brasileira. O disco é frequentemente citado em listas de melhores álbuns e é considerado um marco na transição da banda para uma sonoridade mais progressiva, que seria explorada nos trabalhos seguintes já sem Rita Lee.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Os Mutantes
Arnaldo Baptista
Arnolpho Lima Filho, Liminha
Dinho Leme, Ronaldo P. Leme
João Kibelkstis
Joaquim Figueira
Alain Voss, Alain Voss
