Severino

Os Paralamas do Sucesso

1994

Capa de Severino
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em abril de 1994, Severino é o sétimo álbum de estúdio dos Paralamas do Sucesso e representa um marco de coragem artística e experimentação na discografia da banda. Distanciando-se do pop radiofônico que havia consolidado sua carreira, o trio mergulhou em sonoridades mais complexas e letras de forte cunho sociopolítico, o que o tornou um trabalho incomum e, para muitos, "estranho e sombrio" à primeira escuta. A obra se destaca por suas profundas influências da cultura e música do Nordeste brasileiro, especialmente inspiradas na poesia de João Cabral de Melo Neto, mais notavelmente em "Morte e Vida Severina". A banda buscou uma estética mais radical, que muitos críticos compararam ao movimento tropicalista dos anos 60, pela forma como fundiu tradição e modernidade, aliando ritmos regionais a um rock experimental e vanguardista. O álbum não apenas desafiou as expectativas dos fãs e do mercado, mas também expandiu os horizontes musicais da banda, com arranjos arrojados que incluíam desde instrumentos convencionais até inusitados canos de PVC e furadeiras.

Contexto

O álbum Severino surge em um período de transição para Os Paralamas do Sucesso e para o rock brasileiro. Precedido pelo álbum Os Grãos (1991), que foi "mal compreendido", e pelo disco solo de Herbert Vianna, Ê Batumaré (1992), a banda buscava uma nova direção. Os primeiros anos da década de 90 não foram particularmente favoráveis ao rock nacional, com o cenário musical dominado por gêneros como o sertanejo e o axé music. Nesse contexto, Os Paralamas optaram por uma abordagem estratégica e arriscada, abraçando as ricas influências da música nordestina em um momento em que a axé music baiana explodia nacionalmente. Além disso, o Brasil vivia um período político conturbado, logo após o impeachment de Fernando Collor de Mello, o que se refletia em um sentimento de amargor e desilusão que permeava a sociedade. A banda, já popular em outros países da América Latina, viu em Severino uma oportunidade de se posicionar artisticamente e resgatar uma herança cultural.

Gravação

A gravação de Severino ocorreu na Inglaterra, entre dezembro de 1993 e fevereiro de 1994, sob a batuta do renomado produtor Phil Manzanera. Ex-guitarrista da lendária banda Roxy Music, Manzanera era conhecido por sua abordagem experimental e por seu trabalho com artistas diversos, e demonstrou grande interesse em produzir bandas latinas para a gravadora EMI na época. A escolha de Manzanera e do local de gravação não foi por acaso, refletindo uma "luz verde" da gravadora para que a banda explorasse novas fronteiras sonoras. A colaboração internacional não apenas adicionou uma dimensão global ao projeto, mas também permitiu aos Paralamas acessar uma expertise em produção que se alinhava com a visão arrojada e experimental que Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone tinham para o álbum.

Músicas

Severino é um mosaico sonoro onde as canções refletem uma profunda conexão com a cultura e a realidade social brasileira, com destaque para as temáticas nordestinas e as letras de cunho sociopolítico. A canção "O Rio Severino" exemplifica essa abordagem ao usar a ironia para expor o contraste entre a elite que exalta o país e a população marginalizada que sofre com a negligência governamental, abordando questões como falta de saneamento, analfabetismo e exclusão social. O álbum também se notabiliza por suas colaborações e instrumentação atípica. A faixa "El Vampiro Bajo el Sol" conta com a participação do lendário guitarrista Brian May, do Queen, em um solo marcante, e uma parceria com o músico argentino Fito Páez. O tropicalista Tom Zé contribui com a autoria de "Músico" e participa vocalmente em "Navegar Impreciso", ao lado do poeta jamaicano Linton Kwesi Johnson, uma faixa considerada "quase inclassificável" pela sua originalidade. A capa do álbum, por sua vez, reproduz um manto bordado pelo artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário, reforçando a estética e a mensagem do álbum.

Legado

Comercialmente, Severino foi inicialmente um "fracasso" no Brasil, vendendo apenas 55 mil cópias, o que contrariava o histórico de vendas expressivas da banda. Contudo, o álbum obteve uma recepção bem mais calorosa na Argentina, onde foi lançado como Dos Margaritas, vendendo 51 mil cópias e figurando entre os álbuns mais vendidos do ano no país. A crítica da época o considerou o trabalho "mais estranho e sombrio" dos Paralamas, e as avaliações iniciais foram de mistas a negativas, dada a sua complexidade e falta de hits óbvios. Apesar do desempenho comercial discreto no mercado doméstico, a turnê de Severino foi um sucesso, o que acabou gerando o bem-sucedido álbum ao vivo Vamo Batê Lata (1995) e o posterior Nove Luas (1996), que reconciliaram a banda com o público e a crítica no Brasil. Com o passar do tempo, Severino tem sido reavaliado e conquistado o status de "obra cult" na discografia dos Paralamas do Sucesso, com o All Music Guide, por exemplo, concedendo-lhe 4 de 5 estrelas. Em reconhecimento à sua importância artística, o álbum foi relançado em LP em setembro de 2019, em comemoração aos seus 25 anos.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção Artística]

João Augusto

Produção Executiva

Mario Ruiz

Produção

Phil Manzanera

Computer, Sampler

Chico Neves

Gravação, Mixagem

Kevin Lamb

Técnico

Charles Rees, Jamie Johnson, Porl Young

Capa

Gringo Cardia

Design Gráfico

Egeu Laus

Ilustração

Bispo Do Rosário

Gerenciamento

José Fortes

Fotografia

Mauricio Valladares

Referências

Livros