O Africanto dos Tincoãs

Os Tincoãs

1975

Capa de O Africanto dos Tincoãs
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O Africanto dos Tincoãs, lançado em 1975, é uma obra seminal na música brasileira, destacando-se por sua abordagem visionária e inovadora. O álbum revolucionou a cena musical ao harmonizar o canto afro-religioso, com harmonias vocais celestiais e ritmos percussivos profundamente enraizados nas tradições do candomblé. Este trabalho singular reflete o sincretismo afro-brasileiro de forma orgânica e comovente, abordando temas de sofrimento, exílio e esperança. Sua sonoridade é marcada por uma beleza suave e rítmica que o torna um marco na exploração e difusão das raízes africanas na cultura musical do Brasil.

Contexto

O trio Os Tincoãs, formado em 1961 na cidade de Cachoeira, Bahia, por Dadinho, Heraldo do Monte e Erivaldo, inicialmente interpretava boleros. Contudo, em 1963, com a entrada de Mateus Aleluia no lugar de Erivaldo, o grupo passou por uma significativa transformação, mergulhando nas suas raízes afro-brasileiras. Começaram a incorporar cantos religiosos do candomblé, samba tradicional e elementos sagrados católicos, que se tornariam a base de sua sonoridade única. O álbum foi gravado em um período de intensa repressão política no Brasil, sob a ditadura militar. Neste contexto, a música do trio, que celebrava abertamente as tradições afro-brasileiras e as religiões de matriz africana, assumia um papel de sutil resistência e afirmação cultural, um ato de devoção e resiliência em tempos difíceis.

Gravação

O Africanto dos Tincoãs, o terceiro álbum do trio baiano, foi originalmente lançado em 1975 pela RCA Victor. A produção musical e direção de estúdio ficaram a cargo de Adelzon Alves, que desempenhou um papel crucial na carreira do grupo, produzindo-os desde 1973. Os arranjos contaram com a colaboração de João Donato e Oberdã. A instrumentação do álbum é propositalmente despojada, criando um espaço amplo para a extraordinária interação vocal do trio. Utiliza-se de violão, atabaque, agogô e xequerê, instrumentos que criam uma base rítmica e melódica diretamente ligada às tradições do candomblé.

Músicas

As canções de O Africanto dos Tincoãs são profundamente evocativas, invocando orixás, ancestrais, o oceano e o sentimento de exílio. Entre as faixas que se destacam estão "Promessa Ao Gantois", "Homem Nagô", "Salmo", "Oxossi Te Chama" e "Ogum Pai", que exemplificam a sonoridade característica do grupo. A faixa "Dora" é uma notável exceção, sendo uma composição de Dorival Caymmi, um dos grandes mestres da música baiana. As composições, muitas vezes adaptadas da dupla Mateus e Dadinho, utilizam falsetes que flutuam sobre harmonias vocais de duas partes, com uma estrutura de chamada e resposta (call and response) derivada diretamente dos rituais do candomblé, conferindo um caráter espiritual e autêntico à música.

Legado

Embora o sucesso comercial de Os Tincoãs na época fosse modesto, o álbum O Africanto dos Tincoãs é hoje considerado um "santo graal" da música brasileira e uma obra essencial. O trio teve um papel fundamental na preservação e elevação das tradições musicais do Recôncavo Baiano, adaptando cantos e ritmos do candomblé para o cenário da Música Popular Brasileira. Nas últimas décadas, a obra de Os Tincoãs, incluindo O Africanto dos Tincoãs, tem experimentado um ressurgimento de apreciação entre artistas mais jovens e um público mais amplo, impulsionado por reedições e a disseminação em plataformas de streaming. É reconhecido como uma obra luminosa de devoção, resiliência e afirmação cultural, especialmente por ter sido gravado durante um período de perseguição às religiões afro-brasileiras.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo, Regência

João Donato, Oberdan Magalhães

Produção

Carlos Guarany

Contrabaixo

Luiz Roberto

Corte

José Oswaldo Martins

Técnico [Recording]

Luiz Carlos T. Reis

Coordenação, Supervisão de Gravação, Texto do Encarte

Adelzon Alves

Ilustração

J. C. Ortiz

Fotografia

Ivan Klingen

Referências