Os Tincoãs
Os Tincoãs
1973

Porque Merece Estar na Lista
O álbum homônimo de 1973 d'Os Tincoãs representa um marco fundamental na música brasileira, assinalando uma guinada estilística decisiva para o trio baiano. Lançado após um período inicial dedicado ao bolero, este trabalho mergulha profundamente nas raízes afro-brasileiras, adotando canções fortemente influenciadas pelas cantigas de Candomblé. Essa mudança não foi apenas uma alteração de repertório, mas uma revolução sonora que aplicou arranjos vocais complexos e de uma qualidade inquestionável a cânticos originários dos terreiros, elevando a música religiosa afro-brasileira a um novo patamar na Música Popular Brasileira (MPB). Considerado uma obra visionária e inovadora, o disco harmoniza o canto afro-religioso com arranjos vocais celestiais, incorporando elementos da mitologia Yorubá, do samba, dos cantos de capoeira e de canções espirituais. Ele desempenhou um papel crucial ao tirar a música de Candomblé dos espaços marginalizados, introduzindo suas estruturas polirrítmicas e narrativas espirituais a uma audiência urbana mais ampla da MPB. Com sua sonoridade rara, ancestral e profundamente original, o álbum Os Tincoãs de 1973 é reconhecido como um dos maiores trabalhos vocais do Brasil e um divisor de águas na valorização da cultura afro-baiana na música nacional.
Contexto
Formado em 1960 na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, o trio Os Tincoãs iniciou sua trajetória interpretando boleros e outros sucessos da época, à semelhança de grupos como o Trio Irakitan, e lançou seu primeiro álbum, Meu Último Bolero, em 1962. A verdadeira transformação do grupo, no entanto, começou em 1963, com a entrada de Mateus Aleluia em substituição a Erivaldo, que permaneceu em Cachoeira. A partir de então, Os Tincoãs iniciaram uma profunda pesquisa e conscientização sobre a cultura negra africana, os terreiros de Candomblé da Bahia, as rodas de capoeira e de samba. Essa fase de imersão cultural foi fundamental para a concepção do álbum de 1973, que marca a plena manifestação dessa nova identidade musical, amalgamando a rica herança folclórica baiana com a sofisticação da MPB em um momento efervescente da música brasileira.
Gravação
O álbum Os Tincoãs, de 1973, foi produzido por Milton Miranda, com a produção de Adelzon Alves e direção musical do Maestro Lindolfo Gaya. A concepção sonora do disco é notavelmente minimalista e orgânica, contando com um instrumental restrito a apenas quatro elementos: violão, atabaque, agogô e cabaça. Essa instrumentação enxuta, combinada com as intrincadas harmonias vocais do trio, criou uma sonoridade única e profundamente envolvente. A gravação, com duração de cerca de 27 minutos, possui uma particularidade notável: a qualidade de áudio é descrita como menos nítida e ligeiramente abafada em algumas reedições, um aspecto que, paradoxalmente, confere uma camada adicional de introspecção e misticismo às faixas. Essa característica, possivelmente devido à perda de fidelidade das masters originais, não diminui a excelência da obra, mas a impregna de uma atmosfera singular, como se o som emergisse diretamente dos terreiros e da ancestralidade que o inspirou.
Músicas
As doze faixas de Os Tincoãs de 1973 são um tributo eloquente à espiritualidade e à cultura afro-brasileira, com a maioria das composições baseadas em cantigas de Candomblé e influenciadas pela mitologia Yorubá. Canções como "Deixa a Gira Girar", "Yansã Mãe Virgem", "Saudação aos Orixás" e "Canto Pra Iemanjá" transportam o ouvinte para um universo ritualístico, onde as vozes do trio se entrelaçam em harmonias delicadas e etéreas, evocando os orixás e a força da natureza. Outras composições como "Sabiá Roxa", "Ogundê", "Na Beira do Mar", "Raposa e Guará", "Capela D'Ajuda", "Obaluaê", "A Força da Jurema" e "Embola Embola" completam o repertório, mesclando lirismo, inovação formal e uma profunda reverência às raízes africanas. "A Força da Jurema" é particularmente notável por encapsular o manifesto musical do grupo, um poderoso clamor de pertencimento e reverência aos ancestrais, enquanto faixas como "Embola Embola" incorporam toadas e ritmos que ressoam com a bossa nova e a tradição do samba de roda.
Legado
No seu lançamento, o álbum Os Tincoãs foi bem recebido, conseguindo a proeza de popularizar as cantigas de orixás para um público mais amplo e solidificando a posição do grupo como um dos mais originais da música de raiz brasileira. Ao longo das décadas, a importância do disco cresceu, tornando-se um verdadeiro "cornerstone" da música brasileira, celebrado por sua riqueza cultural e sua influência profunda na MPB. O álbum inspirou gerações de artistas, desde figuras consagradas como Caetano Veloso até nomes contemporâneos como Emicida, que reconhecem Os Tincoãs por revolucionar a harmonização das tradições afro-religiosas na música popular. A raridade das cópias originais em LP no mercado de colecionadores é um testemunho de seu valor, com exemplares sendo vendidos por cifras elevadas. O disco foi parte do box set "Nós, Os Tincoãs" em 2017, que remasterizou seus trabalhos dos anos 70, e continua a ser reeditado em vinil e outros formatos, garantindo que seu legado atemporal continue a ser redescoberto por novas audiências globais.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Lindolfo Gaya
Milton Miranda
Z. J. Merky
Adelzon Alves
Reny R. Lippi
Nivaldo Duarte, Toninho
Jorge Teixeira
Joselito
