Os Tincoãs (1977)
Os Tincoãs
1977

Porque Merece Estar na Lista
Os Tincoãs (1977) é um álbum singular na música brasileira, destacando-se por sua profunda imersão na cultura afro-brasileira e a fusão de elementos religiosos do Candomblé com harmonias vocais sofisticadas e um instrumental minimalista. O disco representa uma expressão artística autêntica que transcendeu as barreiras da música popular para se tornar um veículo de preservação e celebração da ancestralidade africana no Brasil. Este trabalho é notável pela maneira como o trio, através de arranjos vocais delicados e instrumentos de percussão, violão e agogô, transformou cantigas de orixás e sambas de roda em obras de arte musical, conferindo-lhes um novo patamar e contorno dentro da MPB. É uma obra que ressoa com a riqueza da musicalidade negra do Recôncavo Baiano, sem recorrer ao exotismo, mas sim integrando a espiritualidade e o folclore de forma orgânica e reverente.
Contexto
Formado inicialmente na década de 1960 em Cachoeira, Bahia, Os Tincoãs começou sua trajetória interpretando boleros. No entanto, o grupo passou por uma significativa transformação a partir de 1963 com a entrada de Mateus Aleluia, que, ao lado de Dadinho e Heraldo, direcionou o repertório para as raízes afro-brasileiras. Em 1975, o trio enfrentou a perda de Heraldo, sendo Morais brevemente um integrante antes da formação que gravou este álbum se solidificar com Dadinho, Mateus Aleluia e Getúlio Souza, o Badu. Esta fase marcou o amadurecimento do grupo e sua dedicação integral à pesquisa e interpretação dos cantos de candomblé e outras manifestações da cultura negra do Recôncavo Baiano.
Gravação
O álbum Os Tincoãs foi gravado em 1977 nos Estúdios RCA, localizados no Rio de Janeiro. A produção do disco ficou a cargo de Durval Ferreira, um nome de peso na cena musical brasileira. Os arranjos vocais e rítmicos foram desenvolvidos pelo próprio trio, Os Tincoãs, enquanto a orquestração e condução foram divididas entre talentos como João Donato, Leonardo Bruno e Oberdan Magalhães. Adelzon Alves atuou como coordenador e supervisor de gravação, contribuindo para a visão artística do projeto.
Músicas
As doze faixas de Os Tincoãs (1977) são um tesouro de composições e adaptações que evocam a espiritualidade e a resiliência. Canções como "Cordeiro de Nanã" e "Lamentos às Águas" se tornaram emblemáticas, revelando a maestria do trio em traduzir o universo do candomblé em poesia e melodia. As letras, muitas delas assinadas por Mateus e Dadinho, exploram temas como a conexão com o sagrado, a valorização da ancestralidade e a força diante das adversidades, como exemplificado em "Acará". A instrumentação é pontual, com violão de Dadinho, atabaques de Mateus e agogô e ganzá de Badu, servindo de base para as harmonias vocais que se destacam pelos falsetes de Dadinho e os graves de Mateus, um estilo vocal influenciado por corais católicos.
Legado
Apesar de um sucesso comercial modesto na época de seu lançamento, Os Tincoãs (1977) se consolidou como um álbum fundamental na música brasileira, sendo reeditado e redescoberto por novas gerações de ouvintes e artistas. Sua influência se manifesta na forma como o grupo abriu caminho para a valorização da cultura afro-brasileira na MPB, tornando-se um patrimônio musical. Canções do álbum, como "Cordeiro de Nanã", foram regravadas por grandes nomes da música, como João Gilberto, o que atesta a sua relevância e atemporalidade. Os discos originais do trio são hoje itens cobiçados por colecionadores, refletindo o reconhecimento crescente do impacto duradouro de Os Tincoãs na paisagem sonora do Brasil.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Os Tincoãs
João Donato, Leonardo Bruno, Oberdan Magalhães
Durval Ferreira
Gilberto D'Avila
José Oswaldo Martins, Pedro Fontanari Filho
Luiz Carlos T. Reis, Mário Jorge Bruno
Stelio Carlini
Ney Tavora
Adelzon Alves
Fabio Alvarenga, Ivan Klingen