Onze Sambas e uma Capoeira
Paulo Vanzolini
1967

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1967, Onze Sambas e uma Capoeira marca um momento singular na discografia brasileira, sendo o primeiro álbum dedicado à obra do compositor Paulo Vanzolini. Este trabalho é notável não apenas por consolidar a produção de um dos mais célebres e cultuados sambistas paulistanos, mas também por apresentá-la de forma integral ao público através de um LP. Antes disso, suas composições já circulavam em rodas de samba e através de gravações avulsas por outros artistas, tornando este disco uma espécie de compilação oficial de sucessos já reconhecidos, além de faixas que se tornariam clássicos. O álbum ressalta a figura única de Vanzolini, um renomado zoólogo e herpetologista com doutorado em Harvard e diretor do Museu de Zoologia da USP, que se dedicava à música como um "hobby". Sua capacidade de transitar entre o rigor científico e a profundidade poética do samba confere à sua obra uma sofisticação e uma autenticidade peculiares, fazendo de Onze Sambas e uma Capoeira um registro essencial para entender a riqueza do samba paulistano e a genialidade de um artista cuja dualidade entre ciência e arte é lendária. Ele é um documento inaugural que celebra a poesia urbana e a melancolia boêmia de São Paulo.
Contexto
Paulo Emílio Vanzolini, nascido em São Paulo em 1924, teve uma vida marcada pela paixão simultânea pela ciência e pela música. Estudante de medicina na USP, ele se integrou rapidamente aos círculos boêmios da cidade nas décadas de 1940 e 1950, onde suas composições começaram a ganhar voz. Apesar de sua prestigiada carreira acadêmica como zoólogo e diretor do Museu de Zoologia da USP, Vanzolini cultivava o samba como uma expressão intrínseca à sua identidade paulistana. O ambiente musical de São Paulo nos anos 1960 era efervescente, com casas noturnas como o Jogral se tornando palcos importantes para a MPB. Foi nesse contexto que Luís Carlos Paraná, proprietário do Jogral, e Marcus Pereira, que mais tarde fundaria a icônica gravadora Marcus Pereira, uniram-se para produzir este álbum. A iniciativa visava reunir e registrar formalmente as composições de Vanzolini, muitas delas já cantadas nas rodas de samba da capital e por artistas renomados, mas que ainda não haviam sido compiladas em um disco autoral.
Gravação
A produção de Onze Sambas e uma Capoeira esteve a cargo de Luís Carlos Paraná e Marcus Pereira, figuras centrais na cena cultural paulistana da época. Um fato notável é que o álbum foi gravado no próprio Jogral, a famosa boate de São Paulo de propriedade de Paraná, o que confere ao registro uma atmosfera de autenticidade e a energia das apresentações ao vivo que Vanzolini tanto frequentava e inspirava. Para os arranjos, o álbum contou com o talento de Antônio Pecci Filho, o Toquinho, e Antônio Porto Filho, conhecido como Portinho. Portinho, inclusive, já havia sido o responsável pelos arranjos da primeira gravação de "Volta por Cima", eternizada na voz de Noite Ilustrada. O disco reúne um time estelar de intérpretes, incluindo Chico Buarque, Adauto Santos, Mauricy Moura, Cláudia Morena, Cristina e o próprio Luís Carlos Paraná, que emprestaram suas vozes às canções de Vanzolini, atestando o prestígio do compositor no meio musical.
Músicas
O repertório de Onze Sambas e uma Capoeira é um mosaico da poesia e da observação social de Vanzolini, apresentando canções que se tornariam pilares da MPB. Entre os destaques, figuram "Ronda" e "Volta por Cima", ambas já clássicos antes mesmo do lançamento do álbum. "Ronda", composta em 1945 quando Vanzolini servia ao Exército, é um retrato pungente da noite paulistana, inspirada nas observações do compositor sobre a solidão e a busca por amor nas ruas e bares da cidade. Originalmente gravada por Inezita Barroso em 1953, a canção, interpretada no álbum por Cláudia Morena, se tornaria um verdadeiro "hino da cidade de São Paulo", apesar de Vanzolini a considerar "piegas" em sua juventude. Já "Volta por Cima", composta entre 1959 e 1960, ganhou notoriedade na voz de Noite Ilustrada em 1962/1963 e é interpretada por Mauricy Moura neste trabalho. Seus versos que falam de resiliência e dignidade se tornaram uma expressão popular no Brasil, sendo até mesmo incluída no Dicionário Aurélio. Vanzolini, que compunha suas melodias sem o auxílio de instrumentos ou conhecimento teórico, apenas as cantarolando para que amigos músicos as transcrevessem, também tem faixas como "Samba Erudito" e "Praça Clóvis" interpretadas por Chico Buarque. "Samba Erudito" é notável pelas suas referências intelectuais. Outro ponto alto é "Capoeira do Arnaldo", cantada por Luís Carlos Paraná, uma canção que Vanzolini considerava sua favorita e que foi criada como uma resposta bem-humorada a um amigo.
Legado
Onze Sambas e uma Capoeira desempenhou um papel crucial na formalização e na disseminação da obra de Paulo Vanzolini. Inicialmente, o LP foi distribuído como um brinde de fim de ano pela agência de publicidade de Marcus Pereira, mas rapidamente se tornou um marco. Ele consolidou a reputação de Vanzolini como um "cientista do samba" ou "cientista boêmio", uma figura que unia a profundidade acadêmica à perspicácia poética das ruas de São Paulo. As canções do álbum, especialmente "Ronda" e "Volta por Cima", transcenderam o universo da música popular e se tornaram partes indeléveis da cultura brasileira. Elas foram e continuam sendo regravadas por uma miríade de grandes artistas, como Maria Bethânia, Elis Regina, Elza Soares e Chico Buarque, garantindo sua perenidade. "Ronda" é universalmente reconhecida como uma das "canções-símbolo" da cidade de São Paulo, enquanto "Volta por Cima" gerou uma expressão idiomática que permeia o cotidiano e os dicionários do português brasileiro. O sucesso deste álbum também contribuiu para a notabilidade da gravadora Marcus Pereira, que se destacaria por seu trabalho de resgate e documentação da riqueza musical regional do Brasil. O disco foi relançado em CD em 1994, mantendo sua relevância e acessibilidade para novas gerações.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Portinho, Toquinho
Luiz Carlos Paraná
Manoel Barenbein
Rogerio Gauss
Luis D'Horta
Chico Buarque De Hollanda, Marcus Pereira, Raul Duarte
