Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára

Planet Hemp

1997

Capa de Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em 1997, "Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára" é o segundo e emblemático álbum da banda carioca Planet Hemp, consolidando sua sonoridade inovadora e sua postura lírica incisiva no cenário musical brasileiro. O disco aprofundou a fusão de rap, rock, funk, hardcore, jazz, bossa nova e samba, gêneros que já eram a marca registrada do grupo, resultando em uma obra de impacto sonoro e social que ecoa até hoje. O título do álbum, um provérbio árabe, não foi escolhido por acaso: ele serviu como uma resposta direta e desafiadora àqueles que duvidavam da resiliência da banda diante da perseguição judicial e das prisões em decorrência de seu discurso em defesa da legalização da maconha. Além da temática canábica, o álbum expandiu seu leque para abordar problemas sociais prementes como a violência policial e as desigualdades enfrentadas pelas comunidades mais carentes do Rio de Janeiro, afirmando o Planet Hemp não apenas como um fenômeno musical, mas como um manifesto vibrante pela liberdade de expressão e pela discussão de tabus em um Brasil que ainda se redefinia após o fim da ditadura militar.

Contexto

O lançamento de "Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára" ocorreu na sequência do sucesso estrondoso de "Usuário", o álbum de estreia do Planet Hemp de 1995, que já havia vendido mais de 150 mil cópias e solidificado a banda como uma voz proeminente na cena musical brasileira. Com "Usuário", o grupo já havia provocado fortes reações com seu posicionamento explícito a favor da legalização da maconha, atraindo críticas de setores conservadores da sociedade. No final de 1996, após o término da turnê de "Usuário", a banda entrou em estúdio para dar forma ao novo trabalho. O Brasil vivia um período de efervescência cultural nos anos 90, com uma rica diversidade musical emergindo e artistas ansiosos para expressar-se livremente no pós-ditadura. No entanto, o contexto social ainda era marcado por profundas desigualdades e violência, temas que encontravam ressonância direta nas letras do Planet Hemp, que se tornavam um espelho da realidade de seu tempo.

Gravação

A produção de "Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára" ficou a cargo de Mario Caldato Jr., renomado produtor brasileiro radicado nos Estados Unidos, conhecido por seus trabalhos com artistas como Beastie Boys, Björk e Beck. O encontro entre Caldato e Marcelo D2 ocorreu em 1996, durante uma turnê dos Beastie Boys no Brasil, e a afinidade musical rapidamente levou ao convite para que Caldato produzisse o segundo álbum do Planet Hemp, marcando sua primeira empreitada oficial na cena musical brasileira. Durante o processo de gravação, o vocalista BNegão afastou-se temporariamente do grupo para focar em sua banda The Funk Fuckers, mas ainda assim contribuiu em grande parte das faixas do disco, como em "Zerovinteum" e "Adoled". Para preencher a lacuna, o parceiro de longa data, Gustavo Black Alien, foi integrado à equipe de vocais. A concepção visual do álbum também foi notável, com a arte da capa criada pelo artista Muti Randolph. A imagem central é um rosto composto pela fusão de diversas fotografias de políticos alemães do pós-guerra, uma solução criativa para evitar problemas de direitos autorais e, ao mesmo tempo, transmitir a intenção da banda de representar o caos urbano do Rio de Janeiro.

Músicas

O álbum apresenta 16 faixas que exploram a complexa tapeçaria sonora do Planet Hemp, transitando entre o hardcore, rap, samba, hip-hop e rock, mantendo a intensidade lírica que se tornou sua marca registrada. As letras continuaram a abordar temas centrais como a legalização da maconha, os problemas sociais, a violência urbana e a desigualdade. Faixas como "Zerovinteum" abrem o disco com batidas funk e samples de "Veneno da Lata" de Fernanda Abreu, oferecendo um retrato cru das mazelas e da malandragem do Rio de Janeiro, com o título fazendo referência direta ao DDD da cidade. "Queimando Tudo" se tornou um dos destaques, sendo um hino explícito à defesa da legalização da cannabis. O disco ainda conta com "Adoled", uma versão pesada e cheia de groove de "The Ocean" do Led Zeppelin, e "Se Liga", que incorpora samples de "Jacarandá" de Luiz Bonfá e revela uma faixa oculta instrumental no final, em uma jam que mistura jazz e samba rock, característica dos trabalhos anteriores do grupo. "Nega do Cabelo Duro" é um cover reinterpretado com arranjos sofisticados, fazendo alusão a "Eu Bebo Sim" de Elizeth Cardoso. A faixa "12 Com Dezoito" exemplifica a resistência e crítica social da banda, utilizando a "primeira emenda" da Constituição americana como metáfora para a revolução musical e denunciando a hipocrisia e repressão cultural.

Legado

Com um impacto imediato, "Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára" vendeu 150 mil cópias em apenas um mês de lançamento, e subsequentemente alcançou a marca de 500 mil cópias vendidas, um sucesso estrondoso para a época. A repercussão do álbum, contudo, foi além dos números. Durante a turnê do disco, em 8 de novembro de 1997, a banda foi presa em Brasília sob a acusação de apologia às drogas após um show, um incidente que se tornou um marco na história da música brasileira e amplificou ainda mais a visibilidade do grupo. A prisão de cinco dias gerou um movimento de apoio, inclusive com visitas de então deputados federais como Fernando Gabeira e Eduardo Suplicy. Ironicamente, o juiz responsável pela ordem de prisão foi posteriormente afastado por suspeita de envolvimento com traficantes. Este evento solidificou a imagem do Planet Hemp como ícones da contracultura e da liberdade de expressão. O álbum é hoje considerado um clássico da música brasileira e um registro fundamental do "boom" do rock nacional nos anos 90, com sua mistura única de rap e rock e seu discurso contestador que continua relevante.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Artistic Direction]

Ronaldo Viana

Produção Executiva

Andréa Alves, Ronaldo Caldas Pereira

Produção

Mario Caldato Jr., Planet Hemp

Vocais

Marcelo D2

Baixo

Formigão

Booking

Na Moral Produções

Bateria

Bacalhau

Guitarra

Rafael Crespo

Musical Assistance

Renata Paes

Gravação

Kleber França, Mario Caldato Jr.

Capa

Muti Randolph

Gerenciamento

Marcelo Lobatto, Ronaldo Caldas Pereira

Fotografia

Daniela Dacorso, Jornal Povo Do Rio, Luis Morier, Marco Antonio Teixeira, Muti Randolph, Paulo Nicocella

Referências

Livros