Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10
Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada, Edy Star
1971
Porque Merece Estar na Lista
Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 é um marco na música brasileira, representando a segunda tentativa de Raul Seixas de solidificar uma carreira artística de sucesso e a estreia discográfica para Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. Concebido como um trabalho anárquico e iconoclasta, o álbum visava subverter as convenções musicais e sociais da época, buscando chocar e incomodar o ouvinte com uma sonoridade que misturava influências nacionais e estrangeiras. Cada aspecto do disco foi pensado para desafiar os padrões de "bom gosto" vigentes, tornando-o uma obra provocadora e singular no cenário musical brasileiro de 1971. Apesar de sua curta circulação inicial, o álbum é uma manifestação da contracultura brasileira, reunindo talentos que, de maneiras distintas, buscavam romper com o conformismo. A visão de Raul Seixas de um disco conceitual, aliado ao desejo de Sérgio Sampaio por uma obra que "fedesse" e "desse nojo", resultou em um trabalho audacioso que se destaca pela sua originalidade e pela química entre os quatro artistas, cada um contribuindo com sua irreverência e estilo peculiar.
Contexto
Antes do lançamento de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, Raul Seixas enfrentava uma transição em sua carreira. Após o insucesso do grupo Raulzito e os Panteras, ele trabalhava como produtor musical na Discos CBS, compondo e produzindo baladas românticas para artistas da Jovem Guarda, um tipo de música que não o satisfazia. Seus esforços para lançar um projeto mais autoral, como o álbum para Leno, foram frustrados pela censura e pela gravadora, que vetou grande parte do material por ser considerado "indutivo ao uso de LSD" ou conter "mensagens ocultas". Nesse cenário de busca por uma nova direção artística, Raul Seixas encontrou em Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada os parceiros ideais para concretizar um projeto ousado. Sérgio Sampaio, recém-contratado pela CBS, e Edy Star, um amigo de longa data com quem Raul compartilhava gostos musicais e um senso de deboche, uniram-se à Miriam Batucada, uma "show-woman" experiente que buscava consolidar sua carreira musical no Rio. Juntos, eles formaram o grupo com o objetivo de criar um disco que sacudisse o conformismo da música brasileira.
Gravação
A concepção do álbum foi impulsionada pelas visões centrais de Sérgio Sampaio e Raul Seixas, que almejavam um trabalho anárquico e iconoclasta que rompesse com todas as convenções musicais e sociais. Eles desejavam um disco conceitual brasileiro, misturando influências nacionais e estrangeiras, com cada detalhe planejado para desafiar os padrões do bom gosto. Inicialmente, o repertório seria selecionado com cada artista cantando duas músicas solo e algumas em conjunto, e o nome do grupo, "Kavernista", surgiu da ideia de um retorno às raízes após uma guerra nuclear. Contudo, a produção enfrentou desafios com o Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), que vetou músicas por palavras que remetiam à fantasia ou eram consideradas difíceis, ou por serem assinadas por Edy Star. Isso levou Raul e Sérgio a resgatar composições mais antigas e a incluir "Soul Tabarôa" às pressas. As gravações ocorreram em menos de 15 dias, entre o final de junho e a primeira semana de julho de 1971, nos Estúdios CBS, que já contavam com uma mesa de 8 canais. Os arranjos mais elaborados foram de Ian Guest, com a participação de músicos de Renato e Seus Blue Caps e Lafayette e seu Conjunto, além de Raul tocando guitarra e baixo, e Sérgio seu violão, com um regional de choro em "Sessão das Dez". A capa do disco apresenta os quatro kavernistas fantasiados em frente ao Cinema Império, no Rio. Raul veste-se de "ripimpé", Miriam de "super-mulher", Sérgio de "homem do povo" e Edy de "cantor de sucesso" com um casaco de lamê emprestado por Leno. O desenho do nome do disco, de autoria de Edy, foi feito em um tom de vermelho que Raul insistiu que se assemelhasse a sangue escorrendo, o que exigiu várias provas na gráfica.
Músicas
O álbum se inicia de forma circense, com Edy anunciando "o maior espetáculo da terra", seguido pela canção "Êta Vida", que emprega um otimismo inocente para ironizar a alienação do cidadão carioca, satirizando o "São Sebastião do Rio" e sua "vida genial" com "Maracanã domingo" e "pagamento a prestação". Na sequência, "Sessão das Dez" é uma seresta que faz uma sátira aos antigos cantores de "vozerão" que faziam sucesso antes da bossa nova, com Edy imitando Orlando Silva e Nelson Gonçalves. Raul e Sérgio dividem os vocais em "Eu Vou Botar pra Ferver", um "baião-rock" vibrante, e Sérgio Sampaio apresenta sua autoral "Eu Acho Graça". A primeira aparição de Miriam Batucada acontece em "Chorinho Inconsequente", uma canção que aborda o sentimento de não-pertencimento de Sérgio ao cenário musical carioca, mencionando a "patota da Tijuca", bairro onde Erasmo Carlos e Roberto Carlos viveram sua adolescência, e retratando uma sociedade de aparências.
Legado
Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, recolhido cerca de dois meses após seu lançamento, não teve a oportunidade de alcançar vendagens expressivas ou de receber ampla crítica da mídia especializada no período. No entanto, o disco foi bem recebido pelo público ligado à contracultura brasileira da época e por críticos identificados com essa vertente, como o poeta Torquato Neto e o filósofo Luiz Carlos Maciel. Com o passar do tempo, o álbum consolidou-se como um objeto de interesse cult. Sua relevância foi amplificada pela participação de Raul Seixas e Sérgio Sampaio, além do fato de ter permanecido fora de catálogo por mais de 20 anos, o que contribuiu para sua aura de raridade e importância histórica na discografia desses artistas e na música brasileira em geral.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Mauro Motta, Raul Seixas
