A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais
Ronnie Von
1969

Porque Merece Estar na Lista
A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais, lançado em 1969, é um marco indelével na discografia de Ronnie Von e na música brasileira. O álbum representa uma ousada e fascinante incursão do artista no universo do rock psicodélico, rompendo definitivamente com a imagem de "príncipe" da Jovem Guarda que o havia consagrado. Este trabalho se destaca pela fusão inovadora de referências psicodélicas, comparáveis a bandas como Beatles e Pink Floyd, com elementos do tropicalismo e da música erudita, criando uma estética de vanguarda para a época. É amplamente considerado por muitos como a obra-prima de Ronnie Von e uma pedra fundamental do rock psicodélico no Brasil, notável por sua abordagem conceitual e audácia musical.
Contexto
No final da década de 1960, Ronnie Von, já conhecido pelo sucesso de "A Praça" e "Meu Bem", e apelidado de "Pequeno Príncipe", encontrava-se em um ponto de inflexão em sua carreira. Apesar de ter sido associado à Jovem Guarda, ele nunca fez parte do movimento e, na verdade, sua afinidade se mostrava com a Tropicália, evidenciada por sua abertura a artistas como Os Mutantes, Gilberto Gil e Caetano Veloso em seu programa de televisão "O Pequeno Mundo de Ronnie Von". Influenciado por bandas estrangeiras como os Beatles e com o desejo de traduzir o surrealismo em música, Ronnie Von embarcou em uma fase de experimentação. A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais é o segundo trabalho dessa que viria a ser conhecida como sua "trilogia psicodélica", precedido pelo álbum homônimo de 1968 e seguido por Máquina Voadora, de 1970.
Gravação
O álbum foi gravado e lançado em 1969 pela Polydor. A produção ficou a cargo de Manoel Barenbein, com assistência de Arnaldo Saccomani, e a direção musical e arranjos foram do maestro Damiano Cozzella, elementos que conferiram ao projeto um caráter experimental e um grau de controle artístico incomum para o cantor à época. O título extenso e enigmático do álbum, inclusive, foi uma resposta provocativa da parte de Ronnie Von às pressões da gravadora, que reclamava da dificuldade de comercializar discos com nomes curtos ou apenas o nome do artista. O processo de gravação contou com a participação do grupo Beat Boys, incluindo Tony Osanah e Cacho Valdez nas guitarras, Toyo nos teclados, Willy Verdaguer no baixo e Marcelo Frias na bateria. A sonoridade do disco é enriquecida por arranjos orquestrais elaborados, com naipes de metais e cordas, guitarras com efeitos de fuzz, colagens sonoras e letras surrealistas, refletindo influências da psicodelia dos Beatles entre 1966 e 1967.
Músicas
O repertório de A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais é uma tapeçaria rica de composições originais e versões de canções internacionais, com Ronnie Von sendo coautor de três faixas e responsável por três versões. A faixa de abertura, "De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-me de Volta a Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar", parceria de Ronnie Von com Arnaldo Saccomani, já estabelece o tom com seu título fantasioso, uma homenagem a um herói de quadrinhos e um "pedido de ajuda", e um arranjo de cordas grandioso. Outros destaques incluem a psicodélica "Pare de Sonhar Com Estrelas Distantes", de Tom Gomes e Luiz Vagner, considerada um dos ápices da psicodelia. O álbum também apresenta interpretações surpreendentes de clássicos como "Dindi", de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, uma emocionante "My Cherie Amour" de Stevie Wonder, com letras em português escritas pelo próprio Ronnie Von, além de "Atlântida" (versão de "Atlantis" de Donovan) e "Comecei Uma Brincadeira" (versão de "I Started a Joke" dos Bee Gees). A diversidade lírica é notável, com letras surrealistas que mesclam mitologia e personagens de histórias em quadrinhos a sonoridades psicodélicas.
Legado
A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais enfrentou uma recepção inicialmente adversa. Críticos da época reagiram com estranheza, e o álbum não obteve sucesso comercial, com o público despreparado para a guinada experimental do artista. Um episódio notório foi o do jornalista Sérgio Bittencourt, que quebrou o disco ao vivo em um programa de TV. No entanto, décadas mais tarde, o álbum foi amplamente redescoberto e reconhecido como um marco fundamental do rock psicodélico brasileiro, ganhando um status de culto. Sua importância foi solidificada com reedições em CD nos anos 2000 e, mais recentemente, em vinil de 180 gramas a partir das fitas originais, ampliando seu alcance e reconhecimento crítico. Atualmente, o álbum e a "trilogia psicodélica" de Ronnie Von são cultuados pela imprensa e por músicos, e os discos originais de época se tornaram verdadeiras raridades e itens de colecionador.
