Apresentando Rosinha de Valença
Rosinha de Valença
1963

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1963, Apresentando Rosinha de Valença é o álbum de estreia da violonista Maria Rosa Canelas, que o mundo viria a conhecer como Rosinha de Valença. Este disco é uma peça fundamental na história da MPB e, em particular, na evolução do estilo instrumental da bossa nova. Ele não apenas revelou ao público o talento precoce e a maestria de Rosinha no violão acústico, mas também solidificou sua posição como uma das maiores instrumentistas do Brasil. O álbum se destaca pela sonoridade elegante e sofisticada, característica da bossa nova, mas enriquecida pela abordagem singular de Rosinha. Sua técnica é marcada por um tom profundamente ressonante, ritmo insistente, frases dinâmicas e muitas vezes deslumbrantes, e elaborações de beleza sutil, que a aproximam do virtuosismo de Baden Powell. Rosinha de Valença trouxe uma qualidade indefinível à bossa nova, com sonoridades que, embora enraizadas em suas origens do interior, se adaptaram perfeitamente ao ambiente urbano e à revolução tranquila do gênero. Considerado essencial para os apreciadores do violão acústico, Apresentando Rosinha de Valença é um testemunho da genialidade de uma das grandes e muitas vezes subestimadas heroínas da guitarra na tradição musical ocidental. É um registro formativo que, mesmo em sua primeira incursão, já exibia todas as marcas registradas de seu estilo inconfundível.
Contexto
Maria Rosa Canelas nasceu em Valença, uma cidade no interior do Rio de Janeiro, em 1941. Seu interesse pelo violão surgiu na infância, observando o irmão, e ela se tornou autodidata, aprendendo a tocar ao ouvir rádio. Aos 12 anos, já se apresentava em festas e na rádio local com uma técnica impressionante. Em 1960, abandonou os estudos para se dedicar integralmente à música, enfrentando inicialmente um período de pouco reconhecimento público. Em 1963, Rosinha mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de maior projeção para sua carreira. Lá, foi 'descoberta' pelo influente jornalista e cronista Sérgio Porto (conhecido como Stanislaw Ponte Preta), que a levou para se apresentar em público e a introduziu a Aloysio de Oliveira, produtor da lendária gravadora Elenco, e ao violonista Baden Powell. Foi Sérgio Porto quem lhe deu o nome artístico 'Rosinha de Valença', afirmando que ela tocava por uma cidade inteira. Após sua chegada ao Rio, Rosinha iniciou uma aclamada temporada de oito meses no famoso Bottles, um clube vital no Beco das Garrafas, consolidando seu nome no cenário instrumental.
Gravação
O álbum Apresentando Rosinha de Valença foi lançado pelo prestigiado selo Elenco, conhecido por sua contribuição à bossa nova. A produção ficou a cargo de Aloysio de Oliveira, figura chave da gravadora, e a direção e os arranjos foram assinados por Oscar Castro-Neves, outro nome proeminente da música brasileira. A capa do disco é um trabalho esteticamente marcante, com arte gráfica de Cesar Villela e fotografia de Francisco Pereira. Para a gravação, Rosinha de Valença contou com a colaboração de músicos talentosos, incluindo o próprio Oscar Castro-Neves ao piano, Nelsinho no trombone, Jorginho na flauta e Doum na bateria, que contribuíram para a atmosfera requintada do álbum. Há também a participação de uma orquestra de cordas em duas faixas, "Ela É Carioca" e "Atirei o Pau no Gato", embora os créditos específicos para essa orquestra não estejam detalhados na ficha técnica do disco. A contracapa do LP apresenta um texto de Sérgio Porto, seu 'padrinho', que além de elogiá-la, explica a origem de seu nome artístico.
Músicas
O repertório de Apresentando Rosinha de Valença é uma cuidadosa seleção que mistura clássicos da nascente bossa nova com sambas de épocas anteriores, demonstrando a versatilidade e a profundidade interpretativa da violonista. Dentre as faixas que se destacam, encontramos a belíssima "Consolação", de Baden Powell e Vinicius de Moraes, onde o talento de Rosinha floresce de maneira impressionante. Sua delicadeza e execução requintada são evidentes em "Ela É Carioca", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Rosinha de Valença também ressignifica "Com Que Roupa", samba-canção de Noel Rosa, transformando-a em uma interpretação altamente personalizada e deliciosamente excêntrica. Outras faixas notáveis incluem "Até Londres", de Oscar Castro-Neves, que apresenta scats vocais vibrantes com o próprio arranjador, e "Minha Saudade", de João Donato e João Gilberto. Sua voz, quando presente, é descrita como tendo uma conversação astuta e uma reticência "funky", com "arrotos e guinchos" em "Minha Saudade" e um "duelo dib-a-dob urgente" com Castro-Neves em "Até Londres", demonstrando sua expressividade vocal além do domínio instrumental. O álbum também inclui "Tristeza em Mim", "Tema do Boneco de Palha", "Praça 11", a popular "Atirei o Pau no Gato" (com arranjo de Oscar Castro-Neves) e "Estrada do Nada".
Legado
Apresentando Rosinha de Valença é considerado um disco inaugural e crucial na carreira da artista, servindo como uma poderosa carta de apresentação ao mundo da música. Após seu lançamento, Rosinha de Valença rapidamente ganhou reconhecimento, sendo convidada para se apresentar em programas de rádio e televisão, incluindo o emblemático "O Fino da Bossa", em São Paulo. O álbum, e sua subsequente projeção, abriram caminho para que Rosinha integrasse o grupo de Sérgio Mendes em uma turnê de oito meses pelos Estados Unidos, o Brasil '65, contribuindo para dois álbuns ao vivo: Brasil '65 Wanda de Sah featuring The Sergio Mendes Trio e In Person at El Matador!. Essa experiência internacional consolidou sua reputação e a levou a outras turnês pela Europa e África, onde chegou a tocar com lendas como Stan Getz, Sarah Vaughan e Henri Mancini. Embora ela mesma tenha afirmado que não obteve todos os louvores que merecia, Rosinha de Valença é universalmente reconhecida como uma das maiores violonistas e instrumentistas do Brasil, e uma figura central na segunda geração da bossa nova. Apresentando Rosinha de Valença é celebrado por expor sua maestria no violão e continua sendo um álbum envolvente e elegante, com uma média de 4.85 de 5 estrelas em plataformas como o Discogs. O disco teve reedições, como um CD japonês em 2002, permitindo que novas gerações descubram o trabalho seminal desta "guitar heroine" brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Oscar Castro-Neves
Aloysio De Oliveira
Sergio Barroso
Dom Um Romao
Jorginho da Flauta
Sérgio Porto
