Secos & Molhados

Secos & Molhados

1973

Capa de Secos & Molhados
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O álbum de estreia do grupo Secos & Molhados, lançado em agosto de 1973, é uma obra seminal da música brasileira, que se destaca por sua fusão ousada de diferentes expressões artísticas e musicais. O disco notavelmente une a profundidade poética de autores como Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e João Apolinário com elementos do folclore português e das ricas tradições brasileiras, apresentando canções icônicas como "Sangue Latino", "O Vira", "Assim Assado" e "Rosa de Hiroshima". Inovador para a Música Popular Brasileira de sua época, o álbum introduziu um som mais pesado e uma estética visual marcante, com maquiagem forte na capa, reminiscentes do glam rock. Essa abordagem pioneira expandiu os horizontes da MPB, desenvolvendo gêneros como o pop psicodélico e o folk. A sua sonoridade eclética incorpora ainda toques de rock and roll, baião, jazz e rock progressivo, criando uma mistura que transcende classificações. Nas canções, é possível identificar características do glam rock, poesia brasileira e portuguesa, engajamento social, elementos rítmicos e instrumentais da música latino-americana e rock nos arranjos de guitarras e sintetizadores. A performance do grupo era marcada por exuberância e referências explícitas à androginia e sexualidade, de forma transgressora, mas acessível e admirada pelo público.

#5

Os S&M fundavam o “roque" dos anos 70, com toques hipnóticos de rock progressivo, mas incorporando a sigla MPB mais que a negando.

Pedro Alexandre Sanches · Rolling Stone Brasil

Leia mais

Contexto

O Secos & Molhados surgiu de um projeto de João Ricardo, que, após diversas apresentações com instrumentistas variados, encontrou em Ney Matogrosso a voz ideal para seu repertório já composto. Ney, que na época se dedicava ao teatro, pintura e artesanato, foi introduzido por uma amiga em comum, Luhli. João Ricardo nomeou o grupo inspirado em uma placa de armazém, buscando um termo que se abrisse a todos os gêneros. O trio começou a se apresentar com grande sucesso na Casa da Badalação e Tédio, no Teatro Ruth Escobar, atraindo a atenção do empresário Moracy do Val, que os apresentou à gravadora Continental, uma das principais companhias fonográficas nacionais na disputa com multinacionais. O lançamento do disco ocorreu em 1973, em um período de intensa repressão e censura imposta pelo Regime Militar no Brasil, cujo ápice de arbitrariedade foi alcançado com o Ato Institucional nº 5. O surgimento do Secos & Molhados se deu como um fenômeno de mercado em meio a essa realidade opressora, com o álbum abordando temas como liberdade de expressão, racismo e guerras. Coincidindo com um período de expansão da indústria fonográfica e aumento do consumo de vinis no país, a gravadora Continental, buscando diversificar seu catálogo e prestígio, apostou no grupo, que já ganhava notoriedade nas apresentações ao vivo no Teatro Ruth Escobar.

Gravação

A gravação do álbum Secos & Molhados foi viabilizada pela incansável estratégia do produtor Moracy do Val, que agendou apresentações e enviou fitas-demo para diversas gravadoras. Somente a Continental, graças à influência de Moracy, que possuía contatos importantes na empresa, decidiu apostar no conjunto. Apesar de a gravadora ser mais voltada para a música regional e sertaneja, ela concedeu a oportunidade, embora com um orçamento limitado devido à incerteza sobre o futuro da banda. As sessões de gravação ocorreram entre maio e junho de 1973, no Estúdio Prova, em São Paulo, com o trio gravando as 13 canções do LP em apenas quinze dias, trabalhando seis horas diárias. As gravações foram feitas em apenas quatro canais, uma técnica considerada "precária" para a época. João Ricardo assumiu a direção musical, enquanto Moracy do Val atuou como produtor. Os arranjos foram majoritariamente assinados pela própria banda, com exceção da faixa "Fala", que contou com a participação de Zé Rodrix, cujo solo de teclado moog, com quinze minutos a mais, só pôde ser plenamente apreciado nos relançamentos em CD do álbum. O baterista Marcelo Frias participou das gravações e apareceu na capa do disco, embora tenha decidido não integrar oficialmente o grupo como membro fixo. Sua participação foi como músico contratado, uma decisão que ele tomou após a realização da fotografia da capa, e ele não esteve envolvido nas gravações do segundo álbum da banda no ano seguinte.

Músicas

As letras de Secos & Molhados são um dos pilares do álbum, originando-se de poesias consagradas ou inéditas que, por sua qualidade lírica, são tidas como equivalentes aos textos literários originais. Poemas de Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo, além de obras do jornalista e poeta João Apolinário, pai de João Ricardo, foram musicados pelo líder do grupo. Entre as sete canções derivadas de poemas, a mais repercutida foi "Rosa de Hiroshima", de Vinicius, uma toada melancólica com violão e flauta, que aborda os impactos da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial, sendo a única contribuição composicional de Gérson Conrad, ao lado de "El Rey". Entretanto, nem todas as faixas do álbum são baseadas em poemas. A abertura do disco é marcada pelo memorável contrabaixo de "Sangue Latino", uma composição de João Ricardo e Paulinho Mendonça. Construída com uma sequência econômica de acordes e um arranjo pop, a letra dessa canção explora a "condição latino-americana", os "descaminhos" e a capacidade de resistência dos povos do continente, buscando harmonizar o engajamento estético dos anos 1960 com o apelo dos hits internacionais. O álbum demonstra uma notável diversidade em seu repertório, projetado para agradar a diferentes públicos e gostos musicais. Enquanto "Primavera nos Dentes" e "Mulher Barriguda" ressoavam com os engajados, "Rosa de Hiroshima" se tornou um hino pacifista e "Prece Cósmica" cativava hippies e místicos. "Rondó do Capitão" embalava o público infantil, e "O Vira", um rock com referências à dança portuguesa homônima, conquistou as massas nas rádios. O disco também apresenta experimentações em gêneros suaves, como o folk, com faixas como "O Patrão Nosso de Cada Dia", que, com a voz de Ney Matogrosso acompanhada de violão ou flauta, é comparada às obras de Crosby, Stills, Nash & Young.

Trezentas mil cópias vendidas de um álbum é uma marca extraordinária em qualquer tempo. No Brasil de 1973, tirando o milionário ponto anual batido por Roberto Carlos, essa marca era quase sobrenatural.

Arthur Dapieve · 300 Discos Importantes

Legado

Secos & Molhados foi um fenômeno de vendas para a época, catapultando o grupo ao cenário nacional e se tornando o LP mais famoso da banda, com mais de 1 milhão de cópias vendidas em todo o país, sendo mais de 1500 apenas na primeira semana de lançamento. Esse sucesso comercial imediato solidificou a posição do álbum como um marco na música brasileira. A sua relevância foi reiterada ao longo dos anos, com o álbum recebendo certificação de disco de platina em 1997 pela ABPD, em virtude de seu relançamento em CD. O reconhecimento crítico se manifestou em importantes listas, como o quinto lugar na prestigiada Lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil em 2007, e a 97ª posição no "Los 250: Essential Albums of All Time Latin Alternative - Rock Iberoamericano" da Al Borde em 2008, comprovando sua duradoura popularidade e admiração crítica. A icônica capa do disco também possui um legado significativo, tendo sido parte de uma exposição em junho de 2008 no Centro Cultural da Espanha, em Miami, que reuniu as 519 melhores capas do pop e rock latino-americano. A influência visual e sonora do álbum pode ser vista em artistas posteriores, como a banda Titãs, que em 1995 produziu o videoclipe da música "Eu Não Aguento" com a introdução do baixo de "Sangue Latino" e uma recriação da imagem dos integrantes com as cabeças à mesa. Em 2001, o jornal Folha de S.Paulo a elegeu como a melhor capa de long play de toda a história da música popular brasileira.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção Artística]

Julio Nagib

Arranjo [Arranjos]

Secos & Molhados

Produção [Direçao De Produção]

Moracy Do Val

Vocais [Vocal]

Ney Matogrosso

Violão [Violões De 6 Cordas], 12-String Acoustic Guitar [Violões De 12 Cordas], Harmonica [Harmónica De Boca], Vocals [Vocal], Music Director [Direção Musical]

João Ricardo

Violão [Violões De 6 Cordas], 12-String Acoustic Guitar [Violões De 12 Cordas], Vocals [Vocal]

Gerson Conrad

Baixo [Baixo]

Willy Verdaguer

Bateria [Bateria], Percussion [Percussão]

Marcelo Frias

Flauta [Flauta Transversal], Flute [Flauta De Bambú]

Sérgio Rosadas

Guitarra [Guitarra], Twelve-String Guitar [Violão De 12]

John Flavin

Piano

Emílio Carrera

Piano, Ocarina, Sintetizador [Sintetizador]

Zé Rodrix

Técnico [Técnicos]

Aluizio De Paula Salles Jr., Luiz Roberto Marcondes

Coordenação [Coordenação De Produção]

Sidney Morais

Layout [Lay-Out]

Décio Duarte Ambrósio

Fotografia [Fotos]

Antonio Carlos Rodrigues

Podcasts

Referências

Livros