Getz/Gilberto

Stan Getz & João Gilberto

1964

Capa de Getz/Gilberto
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Getz/Gilberto é um marco indelével na história da música mundial, representando a fusão magistral do jazz do saxofonista Stan Getz com a essência da bossa nova, personificada pelo violonista João Gilberto. Com as participações primorosas de Tom Jobim ao piano e a voz surpreendente de Astrud Gilberto, este álbum de 1964 transcendeu barreiras culturais e estabeleceu um novo padrão para a elegância musical. Lançado num período em que o jazz buscava renovação e a bossa nova, efervescente no Brasil, ansiava por reconhecimento internacional, o disco capturou a sensibilidade de ambos os gêneros. Ele se distingue pelo balanço sambístico da bossa, o minimalismo sofisticado de Jobim e Gilberto, a sutileza vocal e "cool" de Astrud Gilberto e os improvisos jazzísticos de Getz, elementos que, juntos, garantiram uma sonoridade única e atemporal. Sua capacidade de unir música sofisticada com um apelo popular massivo o tornou uma unanimidade entre a crítica e o público. As gravações, realizadas em apenas dois dias de 1963, resultaram em um repertório que se tornou imediatamente clássico, com canções como "Desafinado", "Corcovado" e, em especial, "Garota de Ipanema". A combinação do talento desses artistas resultou em um trabalho que não apenas definiu a bossa nova para o mundo, mas também enriqueceu o panorama do jazz com uma musicalidade refrescante e inovadora.

#70

Esta obra-prima da bossa nova foi gravada em apenas dois dias de 1963, em Nova York.

Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil

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Contexto

A bossa nova teve seu surgimento oficial no Brasil em 1958, com a canção "Chega de Saudade", interpretada por Elizeth Cardoso e com arranjos de Tom Jobim e o violão inovador de João Gilberto. A sonoridade rítmica e harmônica inédita do gênero gerou debates, mas consolidou uma nova estética na música popular brasileira, culminando no álbum de estreia de Gilberto, também intitulado Chega de Saudade, em 1959. Paralelamente, o jazz enfrentava uma crise comercial e artística no final dos anos 50 e início dos anos 60, buscando desesperadamente uma renovação diante do advento de novos gêneros como o rock 'n' roll. Foi nesse cenário que Stan Getz se encantou pela bossa nova após o contato com discos brasileiros nos Estados Unidos, resultando em álbuns de sucesso como Jazz Samba. A efervescência atingiu seu ápice com o concerto Bossa Nova - New Brazilian Jazz no Carnegie Hall em 1962, onde os inventores brasileiros, incluindo João Gilberto e Tom Jobim, apresentaram o gênero ao público norte-americano. Este encontro histórico, orquestrado pelo produtor Creed Taylor, pavimentou o caminho para a gravação de Getz/Gilberto em 1963, concretizando a união dos talentos em um momento crucial para ambos os estilos musicais.

Gravação

As sessões de gravação de Getz/Gilberto ocorreram em Nova York, em dois dias intensos, iniciando na manhã de 18 de março de 1963 e finalizando no dia seguinte. O projeto foi meticulosamente produzido por Creed Taylor e Getz para a Verve Records. A seção rítmica contou com Tom Jobim ao piano, Milton Banana na bateria, reconhecido como o precursor da batida da bossa nova, e o baixista Sebastião Neto, embora este último não tenha sido creditado devido a questões contratuais com sua gravadora. Um dos momentos mais icônicos da gravação foi a participação de Astrud Gilberto, que, sem experiência profissional prévia, aceitou o convite de seu então marido, João Gilberto, para cantar em "The Girl from Ipanema" e "Corcovado". Sua performance, com um estilo vocal sóbrio e quase sussurrado, livre de vibrato excessivo, viria a se tornar a assinatura do vocal feminino na bossa nova, complementando o minimalismo já presente na interpretação de João Gilberto e no piano de Jobim. Contrariando a harmonia musical, as gravações foram marcadas por tensões criativas entre João Gilberto e Stan Getz, que frequentemente divergiam sobre a escolha dos melhores takes. Getz, com sua emissão mais enfática, não agradava ao perfeccionismo rítmico de Gilberto, que preferia um saxofone mais delicado. Houve até um episódio em que Gilberto, frustrado e sem dominar o inglês, pediu a Jobim que traduzisse a Getz: "Diga a esse gringo que ele é burro", frase que Jobim elegantemente adaptou para "Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”. Apesar das desavenças, a tensão se mostrou produtiva, e a engenharia de som de Phil Ramone, dono do estúdio e figura pacificadora, contribuiu para o resultado final. O produtor Creed Taylor, receoso de um fracasso comercial, chegou a engavetar o disco por quase um ano, resultando em seu lançamento em março de 1964, um ano após a gravação.

Músicas

O repertório de Getz/Gilberto é uma coletânea de joias da bossa nova, transformando todas as gravações em clássicos instantâneos. Entre elas, destacam-se "Desafinado", parceria de Jobim e Newton Mendonça, e "Corcovado", composta por Jobim. A canção de maior impacto, contudo, foi "Garota de Ipanema", de Jobim e Vinicius de Moraes, que não só revelou a voz desconhecida de Astrud Gilberto ao mundo, catapultando-a ao estrelato, mas também popularizou a melodia e a letra universalmente. O álbum também reverencia as raízes do samba pré-bossa nova com as interpretações de "Doralice", de Dorival Caymmi e Antônio Almeida, e "Para Machucar Meu Coração", de Ary Barroso. Nestas faixas, Gilberto confere uma polidez e seriedade que as eleva a um novo patamar de sofisticação. As demais canções são predominantemente composições de Jobim, muitas em parceria com Vinicius de Moraes ("Só Danço Samba", "O Grande Amor") ou Newton Mendonça ("Desafinado"), e outras de sua autoria completa, como "Vivo Sonhando" e "Corcovado", que também ganhou uma versão em inglês de Gene Lees. A abordagem vocal de Astrud Gilberto, sóbria e quase sussurrada, tornou-se o modelo para o vocal feminino na bossa nova, caracterizando-se pela contenção e objetividade. É interessante notar que, embora Norman Gimbel tenha adaptado a letra de "Garota de Ipanema" para o inglês, ele inicialmente questionou a manutenção da palavra "Ipanema" por sua falta de significado para o público norte-americano. Jobim, no entanto, insistiu na referência à famosa praia carioca, garantindo a autenticidade e o encanto da canção que se tornaria um hino global.

Só as insólitas leis do mercado fonográfico podem explicar o fato de este LP (gravado em Nova York, em 18 e 19 de março de 1963) ter ficado quase um ano na gaveta do produtor Creed Taylor – justamente o disco que fez da bossa nova uma febre mundial.

Carlos Calado · 300 Discos Importantes

Legado

Getz/Gilberto não apenas se tornou um dos álbuns de jazz mais vendidos de todos os tempos, com mais de dois milhões de cópias comercializadas em 1964, mas também foi o primeiro a conquistar o Grammy de Melhor Disco do Ano em 1965, um reconhecimento sem precedentes para um álbum de jazz à época. A canção "The Girl from Ipanema" foi agraciada com o Grammy de Melhor Gravação do Ano, solidificando o status de Astrud Gilberto como estrela internacional e popularizando a bossa nova de forma global. O disco ainda ocupou a segunda posição na parada da Billboard por 96 semanas, rivalizando com o fenômeno dos Beatles. A recepção crítica e o sucesso comercial foram unânimes, e o álbum continua sendo aclamado por músicos e público em geral. Foi incluído em compêndios prestigiados como os "500 Melhores Discos de Todos os Tempos" da Rolling Stone e os "100 Álbuns Indispensáveis do Século XX" da Vibe, além de figurar em diversas outras listas de melhores álbuns em todo o mundo. A revista JazzTimes, em 1994, trinta anos após seu lançamento, o considerou "essencial para todos os colecionadores sérios de jazz", atestando sua relevância duradoura. O impacto de Getz/Gilberto foi imenso, definindo a música brasileira para as audiências norte-americanas e estabelecendo Jobim e Gilberto como ícones no mercado internacional. O sucesso abriu as portas para que inúmeros intérpretes e instrumentistas de jazz, como Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e Sarah Vaughan, gravassem canções de bossa nova, em especial "The Girl from Ipanema", que se tornou a segunda canção popular mais tocada da história. Além disso, a interpretação de Astrud Gilberto com sua voz suave e contida definiu o padrão para o vocal feminino na bossa nova, influenciando gerações de cantoras no gênero.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Creed Taylor

Bateria

Milton Banana

Guitarra, Vocais

João Gilberto

Painting [Cover]

Olga Albizu

Piano, Participação

Antonio Carlos Jobim

Saxofone Tenor

Stan Getz

Engenheiro de Som [Director Of Engineering]

Val Valentin

Engenheiro de Som [Recording]

Phil Ramone

Texto do Encarte

Gene Lees, João Gilberto, Stan Getz

Fotografia

David Drew Zingg

Podcasts

Referências

Livros