Õ Blésq Blom
Titãs
1989

Porque Merece Estar na Lista
Õ Blésq Blom, lançado em 1989, representa um marco na trajetória dos Titãs, consolidando a evolução sonora da banda no cenário do rock nacional. O álbum é aclamado por sua produção de alta qualidade, descrito por críticos como "o vinil mais bem produzido que este país já viu". Com um repertório considerado "correto, gostoso de ouvir e de dançar", o disco apresenta instantes de "poesia crítica", característica que o distingue. Faixas como "Miséria" foram inclusive apontadas por grandes nomes da MPB como um ponto alto na carreira do grupo, elevando os Titãs ao "topo da MPB". Este trabalho demonstra a coerência e a excelência que a banda buscava em sua ascensão.

Õ Blésq Blom deu ao grupo seu ápice criativo. Depois, integrantes deixariam o barco e a banda perderia o prumo.
Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil
Contexto
A concepção de Õ Blésq Blom foi marcada por um encontro inusitado e significativo para os Titãs. Durante a turnê do álbum anterior, Go Back, a banda deparou-se na Praia de Boa Viagem, em Recife, com Mauro e Quitéria, um casal de músicos repentistas. Admirados pela performance de Mauro, um ex-estivador que cantava em diversos idiomas sem compreendê-los, os Titãs decidiram gravar sua música ali mesmo, utilizando um gravador de Paulo Miklos. Essa gravação viria a se tornar a marcante introdução do álbum, já sendo incorporada aos shows da banda. Mauro, que ficou cego em 1982, era guiado pela esposa Quitéria em suas apresentações diárias na praia, onde cantava em troca de esmolas, utilizando um caxixi improvisado. Sua participação no disco rendeu ao casal o pagamento de NCzS 6 mil, e foi a primeira vez que Mauro ouviu a própria voz gravada. A banda chegou a planejar convidar os repentistas para a turnê de divulgação, mas impedimentos de produção não permitiram. Paulo Miklos e Marcelo Fromer, inclusive, manifestaram o desejo de produzir um álbum completo de Mauro e Quitéria pela WEA.
Gravação
O álbum Õ Blésq Blom foi gravado ao longo de três meses, entre julho e setembro de 1989. O processo de seleção das faixas foi rigoroso, com o repertório final de 12 músicas sendo curado a partir de um conjunto inicial de 30 composições. Durante as sessões de gravação, o baixista e vocalista Nando Reis enfrentou um período de luto profundo pela perda de sua mãe logo no primeiro mês, encontrando na atividade de gravação uma forma de processar a dor. Curiosamente, o estúdio também recebeu a visita ilustre de Tina Weymouth e Chris Frantz, baixista e baterista da icônica banda Talking Heads. A produção musical contou com a colaboração de Liminha, que além de coproduzir, contribuiu com arranjos, guitarra, bateria eletrônica, percussão e programação de teclados, enquanto a engenharia de gravação e mixagem ficou a cargo de Brad Gilderman e do próprio Liminha.
Músicas
Õ Blésq Blom apresenta canções que se destacam tanto pela sua origem quanto pelo impacto. A faixa "Miséria", coescrita por Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Paulo Miklos, teve sua letra encurtada em processo colaborativo e foi elogiada por Caetano Veloso, que a considerou um marco para os Titãs, elevando o grupo ao "topo da MPB". Outro destaque é "Faculdade", cuja melodia e conceito vieram a Nando Reis em um sonho, evidenciando a diversidade das fontes de inspiração da banda. O processo criativo para o álbum foi prolífico, gerando cerca de 30 composições, das quais 12 foram selecionadas para o disco. Muitas faixas que não entraram no repertório final de Õ Blésq Blom foram aproveitadas em projetos futuros da banda, como "Nem 5 Minutos Guardados" e "A Melhor Forma", que apareceram no Acústico MTV. Outras seis, incluindo "Aqui É Legal" e "Saber Sangrar", tiveram suas versões iniciais lançadas posteriormente na coletânea E-Collection, de 2001. A canção "Eu Não Sei Fazer Música", lançada em Tudo ao Mesmo Tempo Agora, também foi concebida neste período.
Legado
Õ Blésq Blom obteve um sucesso comercial expressivo, alcançando a marca de 100 mil cópias vendidas em apenas duas semanas após seu lançamento, o que lhe rendeu o certificado de Disco de Ouro. As vendas continuaram em alta, atingindo 226 mil cópias no lançamento do álbum seguinte, com algumas fontes indicando um total de até 400 mil unidades vendidas. A crítica especializada recebeu o disco com grande entusiasmo, com José Augusto Lemos, da revista Bizz, chegando a classificá-lo como "o vinil mais bem produzido que este país já viu". Essa mesma publicação concederia ao álbum o Prêmio Bizz de melhor disco, tanto na votação do público quanto na da crítica. Seu reconhecimento se estendeu ao longo do tempo, sendo eleito em 2007 pela revista Rolling Stone Brasil como o 74º melhor disco da música brasileira. A capa, uma colagem de Arnaldo Antunes, também foi notavelmente reconhecida, figurando como a 100ª principal capa da história do rock pela revista Bizz. Além do sucesso comercial e crítico, Õ Blésq Blom é reconhecido por sua influência e por antecipar tendências musicais. O vocalista e tecladista Sérgio Britto o considerou um dos melhores trabalhos da banda, destacando que ele "se não influenciou, ao menos antecipou toda a onda do Mangue Beat e a mistura de MPB e música nordestina com elementos de rock e programações eletrônicas". Paulo Miklos reforçou essa percepção, afirmando que a presença de figuras como Chico Science e Fred Zeroquatro nos shows de estreia em Recife demonstra como o álbum, com sua fusão de pop rock, música nordestina e uma "carga de brasilidade violenta", foi um "momento de laboratório" que gerou um impacto estético significativo para o movimento.
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Faixas
Créditos
Liminha
