Matita Perê
Tom Jobim
1973

Porque Merece Estar na Lista
Matita Perê, lançado por Antônio Carlos Jobim em 1973, é um álbum singular em sua discografia, marcando uma fase de experimentação e aprofundamento artístico do maestro. Longe das expectativas de repetir a fórmula de sucessos anteriores da bossa nova, Jobim apresenta uma obra de crescente sofisticação musical, incorporando novas nuances do jazz, influências da música clássica e uma abordagem mais abstrata. O álbum é frequentemente descrito como uma "obra-prima", que se destaca em sua carreira por ser diferente de tudo o que havia feito antes ou, para muitos, de qualquer outro trabalho da época. Sua sonoridade é poderosa e introspectiva, mesclando arranjos orquestrais exuberantes com a sutileza do violão e dos vocais de Jobim, criando uma tapeçaria sonora que ressoa com a ecologia e a alma do Brasil. Este trabalho é notável por conter uma das canções mais icônicas e reconhecidas da música brasileira, "Águas de Março", que abre o disco e estabelece um tom de poesia e observação do cotidiano. "Matita Perê" é um álbum que transcende rótulos, sendo uma resposta àqueles que questionavam a relevância de Jobim para as novas gerações de músicos, demonstrando sua capacidade de inovar e se reinventar artisticamente.

No repertório, a impactante suíte “Crônica da Casa Assassinada” e canções como “Ana Luiza” e “Águas de Março”, esta última na primeira gravação do autor.
Toninho Spessoto · Rolling Stone Brasil
Contexto
O lançamento de Matita Perê em 1973 ocorreu em um período complexo e desafiador para o Brasil, sob a égide da ditadura militar (1964-1985). Este era o auge do chamado "Milagre Brasileiro", caracterizado por um crescimento econômico notável, mas também por intensa repressão política, censura e a imposição da lei marcial. Artistas e intelectuais frequentemente recorriam a metáforas e linguagens indiretas em suas obras para contornar a censura e expressar suas críticas ao regime, do qual Jobim era um opositor fervoroso. Nesse cenário, Tom Jobim já era uma figura de renome internacional, reconhecido como um dos pais da bossa nova e celebrado por colaborações com grandes nomes como Frank Sinatra e o sucesso global de "Garota de Ipanema". Contudo, Matita Perê representa uma virada em sua trajetória, um afastamento deliberado do som mais "tradicional" da bossa nova. Jobim explorava novas estruturas, instrumentações e sonoridades, o que, inicialmente, pôde ter desapontado alguns fãs brasileiros que esperavam obras mais comerciais. A própria produção do álbum, que começou no Brasil e foi finalizada em Nova York, reflete as tensões e limitações impostas pela situação política da época.
Gravação
A gravação de Matita Perê teve início no Brasil e foi concluída em Nova York, nos Estados Unidos, um reflexo do momento político conturbado vivido no país natal de Jobim em 1973. O álbum foi gravado em dezembro de 1972. A produção contou com a colaboração essencial do arranjador e maestro Claus Ogerman, que foi responsável pela maioria dos arranjos orquestrais, exceto na faixa-título "Matita Perê", que teve o arranjo assinado por Dori Caymmi. Ogerman também é creditado como produtor ao lado de Jobim. Os créditos do álbum revelam uma constelação de músicos de alto calibre, incluindo mestres do baixo como Ron Carter e Richard Davis, e percussionistas renomados como Airto Moreira e João Palma. A engenharia de áudio foi realizada por Frank Laico. A produção buscou uma sonoridade rica e texturizada, com destaque para os arranjos de cordas e a fusão de elementos de jazz e música clássica, resultando em uma obra de grande densidade e beleza.
Músicas
Matita Perê apresenta um repertório denso e inovador, destacando-se por "Águas de Março", uma das canções mais célebres e amadas da música brasileira. Lançada como single em 1972, antes do álbum, a canção utiliza uma estrutura em cascata de frases curtas e descritivas para evocar o fim do verão, a chegada das chuvas e a promessa de vida, misturando o banal e o sublime do cotidiano. Curiosamente, a natureza enigmática de suas letras chegou a ser interpretada pela censura da época como um "código secreto". A faixa-título, "Matita Perê", co-escrita com Paulo César Pinheiro, é uma composição ambiciosa e abstrata, descrita como "meio sinfônica" e com quase dez minutos de duração. Jobim, ciente de sua complexidade e extensão para o rádio, teria dito que a música "não é para agora". O título faz referência à Matinta Pereira, uma figura mítica do folclore brasileiro. Outro ponto alto é a suíte "Crônica da Casa Assassinada", composta em parceria com Vinicius de Moraes. Esta peça multifacetada, que inclui seções como "Trem Para Cordisburgo" e "Chora Coração", é inspirada no romance epistolar homônimo de Lúcio Cardoso, de 1959, que narra a decadência de uma família em Minas Gerais. O álbum também inclui canções como "Ana Luiza" e "Tempo do Mar", esta última notável por suas claras influências clássicas, remetendo a compositores como Ravel ou Debussy. A obra como um todo reflete a profunda conexão de Jobim com a natureza e as paisagens brasileiras.
Legado
Matita Perê conquistou um lugar de destaque na história da música brasileira. O álbum foi classificado como o número 83 na lista da *Rolling Stone Brasil* dos 100 maiores discos da música nacional, e apareceu em 97º lugar em uma enquete com 162 especialistas musicais realizada pelo podcast Discoteca Básica. [do texto da Wikipédia] Em particular, a canção "Águas de Março" alcançou um reconhecimento extraordinário, sendo eleita em 2001 a "melhor canção brasileira de todos os tempos" em uma pesquisa da *Folha de S.Paulo* com 214 jornalistas e artistas. Embora em seu lançamento o álbum tenha representado uma guinada artística que talvez tenha se distanciado das expectativas comerciais de parte do público da bossa nova, Matita Perê é hoje amplamente reconhecido por sua profundidade artística e caráter inovador. É considerado um "trabalho de arte hipnotizante" e uma "verdadeira obra-prima", consolidando a imagem de Tom Jobim como um compositor que transcendia gêneros e explorava novos caminhos musicais com maestria.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Antonio Carlos Jobim
Claus Ogerman
Richard Davis, Ron Carter
Harry Lookofsky
Airto Moreira, João Palma
Don Hammond, Jerry Dodgion, Phil Bodner, Ray Beckenstein, Romeo Penque
George Devens
Urbie Green
Frank Laico
Paulo Jobim
