Stone Flower
Tom Jobim
1970

Porque Merece Estar na Lista
Stone Flower, lançado em 1970, representa um momento crucial na discografia de Antonio Carlos Jobim, marcando não apenas seu retorno após um hiato de três anos, mas também uma significativa guinada artística. O álbum é aclamado pela crítica e por especialistas da bossa nova, destacando-se por sua sonoridade introspectiva e atemporal, que foge do estilo que o popularizou em solo norte-americano. Nesta obra, Jobim transcende as fronteiras da bossa nova e do samba, incorporando elementos de baião, música clássica e jazz, criando uma tapeçaria sonora sofisticada e calorosa. Com arranjos elaborados, mas que prezam pela sutileza, o disco se revela uma meditação musical, onde melodias melancólicas e confortantes coexistem, e o espaço e a suavidade são elementos tão importantes quanto as notas em si. É um trabalho que, apesar de sua elegância, permanece profundamente humano e ressoa com uma quietude que o torna quase radical nos tempos modernos.
Contexto
No final da década de 1960, a bossa nova, gênero do qual Tom Jobim foi um dos precursores e principal expoente global, já dava sinais de saturação comercial. Após uma série de sucessos estrondosos nos Estados Unidos, incluindo o icônico Getz/Gilberto e o aclamado Wave, bem como colaborações históricas com nomes como Frank Sinatra, Jobim fez um hiato de três anos em sua carreira solo. Antes de Stone Flower, Jobim já havia estabelecido sua reputação internacional, com composições que se tornaram padrões do jazz e da música popular mundial. No entanto, o cenário musical se transformava, e o artista buscava uma nova expressão, distanciando-se de arranjos mais comerciais ou tendências ruidosas. Stone Flower surge, então, como uma resposta a esse contexto, um mergulho em suas raízes e em uma sonoridade mais pessoal e experimental.
Gravação
Stone Flower foi gravado em junho de 1970 no lendário Rudy Van Gelder Studio, em Englewood Cliffs, Nova Jersey, um local conhecido por ser o berço de inúmeras gravações de jazz de alta qualidade. A produção ficou a cargo de Creed Taylor, figura proeminente que já havia trabalhado com Jobim em outros projetos e que era o fundador da CTI Records, selo pelo qual o álbum foi lançado. Curiosamente, este álbum e o anterior, Tide, foram gravados nas mesmas sessões de estúdio, uma decisão estratégica para cumprir compromissos com a A&M e a recém-independente CTI. A gravação contou com a expertise de Rudy Van Gelder na engenharia de som e os arranjos magistrais de Eumir Deodato, que também contribuiu com violão. A banda de apoio incluiu músicos de sessão renomados, como Ron Carter no baixo e João Palma na bateria, além de talentos como Airto Moreira e Everaldo Ferreira na percussão, Hubert Laws na flauta, Joe Farrell no saxofone e Urbie Green no trombone, criando uma sonoridade orgânica e coesa.
Músicas
Composto majoritariamente por Tom Jobim, o álbum apresenta nove faixas, com a notável exceção de "Brazil" (ou "Aquarela do Brasil"), de Ary Barroso. O disco é pontuado por quatro canções inéditas: "Tereza My Love", uma homenagem íntima à esposa de Jobim, que abre o álbum com uma melodia sedutora e um trombone terno; "Choro", uma demonstração da destreza de Jobim ao piano, com os dedos voando sobre o teclado; a faixa-título "Stone Flower"; e "Andorinha", uma peça noturna com toques de melancolia. Algumas das composições foram criadas para a trilha sonora do filme The Adventurers, como "Children's Games", conhecida no Brasil como "Chovendo na Roseira". Essa faixa, um tributo a Debussy, exibe a inventividade de Jobim ao teclado. Outras faixas, como "God and the Devil in the Land of the Sun", exploram um lado mais intenso e próximo do free jazz, com Joe Farrell no saxofone soprano, adicionando uma borda de escuridão que evita que o álbum caia no *easy listening*. A inclusão de "Brazil" como peça central, com seus contagiantes grooves de samba e uma performance vocal marcante de Jobim, destaca a diversidade rítmica do álbum.

Segundo o historiador Sérgio Cabral, no livro Antonio Carlos Jobim – uma biografia (Lumiar, 1997), o solista desta obra-prima “levou vários anos sem ver a cor do dinheiro” gerado por ela. “O produtor Creed Taylor não cumpriu sequer o péssimo acordo feito com ele”, escreveu Sérgio.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Apesar de ter alcançado a 18ª posição na parada da Billboard Jazz Albums de 1971 e a 196ª na Billboard 200, Stone Flower é frequentemente considerado um clássico cult e uma das obras mais subestimadas de Jobim, muitas vezes ofuscado por álbuns como Wave. No entanto, a crítica especializada o aclama como um dos pontos altos da discografia do maestro, elogiando sua abordagem fresca e a ausência de arranjos datados. O álbum é reverenciado por sua "intensidade silenciosa" e pela capacidade de Jobim de transcender os gêneros de samba e bossa nova com uma execução musical graciosa. Com arranjos inteligentes de Eumir Deodato, o disco é visto como uma "trilha sonora sonhadora para meditação ativa" e uma demonstração da versatilidade e profundidade artística de Jobim, que deixou uma marca notável no jazz, na bossa nova e na música brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Eumir Deodato
Creed Taylor
Ron Carter
João Palma
Antonio Carlos Jobim, Eumir Deodato
Airto Moreira, Everaldo Ferreira
Antonio Carlos Jobim
Urbie Green
Rudy Van Gelder
Tony Lane
Pete Turner
