Urubu
Tom Jobim
1976

Porque Merece Estar na Lista
Urubu, lançado em 1976, representa um ponto de inflexão na discografia de Antônio Carlos Jobim, marcando não apenas seu décimo álbum de estúdio, mas também a inauguração da Warner Music no Brasil. Considerado por muitos como um dos álbuns mais surpreendentes de sua carreira, ele aprofunda a fusão entre a sofisticação da música popular brasileira e os arranjos orquestrais de inspiração clássica e jazzística, uma característica marcante das colaborações de Jobim com o maestro Claus Ogerman. A obra se distingue por sua ambição sonora e pela riqueza de sua paleta musical, que transita da melodia acessível à complexidade harmônica. João Bosco, um dos grandes nomes da MPB, observou que em Urubu a música popular "já atravessava a fronteira que ia dar numa mais erudita", um testemunho da profunda experimentação e do caráter enriquecedor do disco. Clássicos como "Lígia" e "Correnteza" emergiram deste trabalho, solidificando ainda mais a genialidade composicional de Jobim.
Contexto
Na década de 1970, Tom Jobim já era uma lenda viva da música mundial, com uma carreira que havia transcendido as fronteiras da bossa nova para abraçar uma sonoridade mais ampla e orquestral. Urubu surge em um período de maturidade artística, onde Jobim buscava expandir sua "brasilidade" musical, incorporando novas texturas e estruturas que se distanciavam do som tradicional da bossa nova. Este momento também reflete a contínua ponte de Jobim com o cenário musical internacional, especialmente nos Estados Unidos, onde encontrava os recursos técnicos e os talentos musicais de elite para materializar suas visões grandiosas. Seu interesse crescente pela ecologia e pela natureza do Brasil, que se tornaria uma temática recorrente em sua obra, já se manifesta neste álbum, desde o título até o conteúdo lírico e sonoro de algumas faixas.
Gravação
A excelência técnica de Urubu é, em grande parte, atribuída à parceria duradoura entre Tom Jobim e o arranjador, regente e produtor alemão Claus Ogerman, cuja direção musical foi fundamental para a grandiosidade sonora do álbum. As sessões de gravação ocorreram em Nova York, nos renomados Columbia Recording Studios, entre os dias 16 e 23 de outubro de 1975, garantindo uma produção de alta qualidade. O time de músicos reunido para o projeto era estelar, unindo talentos brasileiros e americanos. Jobim assumiu o piano, piano elétrico, violão e vocais, enquanto a banda base contava com nomes como Ron Carter no baixo, João Palma na bateria e Ray Armando na percussão. A voz de Miúcha enriqueceu a faixa de abertura, "Boto", e outros instrumentistas notáveis como Harry Lookofsky (violino), Joe Farrell (sax soprano) e Hubert Laws (flauta) contribuíram para a atmosfera única do disco, tudo meticulosamente capturado pelo engenheiro de gravação Frank Laico.
Músicas
Urubu é uma obra de notável diversidade e profundidade lírica e melódica. O álbum explora tanto o lado romântico e introspectivo de Jobim, evidente em canções como "Lígia" e "Angela", quanto sua preocupação com a natureza e a cultura brasileira. A faixa de abertura, "Boto (Porpoise)", uma colaboração com Jararaca e com a participação vocal de Miúcha, mergulha em uma sonoridade que evoca a floresta amazônica, utilizando percussão e assobios para criar uma paisagem sonora única, abordando temas ecológicos e referenciando a rica fauna brasileira. O disco é dividido entre canções e peças orquestrais ambiciosas, especialmente perceptível no lado B do LP original, que se revela como uma verdadeira sinfonia. Composições como "Saudade Do Brasil" e "Arquitetura de Morar" apresentam arranjos orquestrais complexos, com cordas, sopros e um coro angelical que elevam a música a um patamar erudito, fazendo o ouvinte se sentir diante de uma obra de Mahler ou Debussy. A inclusão de "Valse", uma composição de seu filho Paulo Jobim, adiciona uma dimensão ainda mais pessoal e lírica à coletânea.
Legado
Desde seu lançamento, Urubu tem sido consistentemente aclamado pela crítica por sua sofisticação e qualidade musical, sendo considerado um álbum indispensável na discografia de Tom Jobim e na música brasileira. Embora possa ter se distanciado de alguns fãs mais tradicionais da bossa nova pela sua abordagem mais experimental e orquestral, o álbum expandiu as fronteiras do que a música brasileira poderia ser, influenciando gerações de músicos e arranjadores. O impacto de Urubu reverberou internacionalmente, com "Lígia" e "Correnteza" tornando-se standards globais, regravados por uma miríade de artistas. A colaboração com Claus Ogerman estabeleceu um padrão de excelência em orquestração, solidificando a reputação de Jobim como um dos maiores compositores do século XX, cuja obra transcendeu gêneros e fronteiras. O álbum é frequentemente citado em listas de melhores álbuns e possui uma classificação de 4.5 estrelas pelo All Music Guide, atestando seu valor duradouro.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Radamés Gnattali
João Theodoro Meirelles
Chiquinho do Acordeon
Zé Menezes
Pedro Vidal Ramos
Luciano Perrone
Laércio De Freitas
