Todos os Olhos
Tom Zé
1973

Ranking nas Listas
Por Que Esse Disco é Importante
Lançado em 1973, Todos os Olhos é um marco na discografia de Tom Zé e na música brasileira, destacando-se por seu experimentalismo radical e sua postura autocrítica em relação à própria MPB. Considerado "experimental demais" para a época, o álbum se distanciou das convenções, apresentando uma sonoridade complexa e inovadora que viria a ser redescoberta décadas depois. Sua abordagem musical, com guitarras elétricas, lirismo ímpar e excentricidades, consolidou a identidade "paulista" de Tom Zé, apesar de sua origem baiana, ao infundir sua poesia urbana com os sons desconfortáveis da grande metrópole.
Contexto
O álbum foi lançado em 1973, em plena vigência dos "anos de chumbo" da ditadura militar brasileira, um período de intensa repressão e censura. Neste cenário, artistas e figuras públicas eram constantemente observados e cobrados a assumir papéis de liderança ou heroísmo, conforme a crítica social e política na faixa-título. Tom Zé, embora associado ao Tropicalismo desde meados dos anos 60, manteve-se fiel à sua veia experimental mesmo quando outros tropicalistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, já haviam tomado outros rumos musicais. Sua ousadia em "Todos os Olhos" o levou a uma espécie de "excomunhão" da MPB e até mesmo do Tropicalismo mainstream, evidenciando uma "maneira inusitada de combater a ditadura militar".
Gravação
Todos os Olhos foi gravado em 1973 e lançado pela gravadora Continental, sob a produção de Milton José. Os trabalhos de engenharia de gravação ficaram a cargo de Zé (José Cordeiro) e Luiz Botelho. A ficha técnica do disco lista Heraldo do Monte como arranjador e o Grupo Capote responsável pela banda de apoio e instrumentação, com Rogério Duprat contribuindo com o cavaquinho. Embora o estúdio específico não seja detalhado, a sonoridade "paulista" do álbum sugere que a produção ocorreu na capital paulista, refletindo a energia e os sons urbanos da cidade na obra de Tom Zé.
Músicas
A estrutura musical de Todos os Olhos é notoriamente marcada pela abertura e encerramento com a faixa "Complexo de Épico", uma provocação direta à canção "Épico" de Caetano Veloso, evidenciando a busca de Tom Zé por uma linguagem particular. O disco apresenta ainda "Cademar", uma parceria com o poeta concretista Augusto de Campos, que se destaca pela sintaxe não discursiva e não linear, em consonância com o experimentalismo lírico. A única regravação do álbum, "A Noite do Meu Bem", de Dolores Duran, é revisitada com inovações rítmicas que a transformam. A faixa-título, "Todos os Olhos", é um manifesto poderoso que aborda a pressão sobre o artista na ditadura, com Tom Zé se declarando "inocente" e "fraco" diante das expectativas de heroísmo. Outras canções como "Augusta, Angélica e Consolação" são consideradas pelo próprio Tom Zé como detentoras de alguns de seus versos mais bonitos. A capa do álbum, concebida pelo poeta Décio Pignatari, é uma das mais icônicas e controversas da música brasileira. A imagem, que muitos interpretavam como um ânus com uma bolinha de gude, era na verdade uma bola de gude posicionada na boca de uma modelo, criada para desafiar a censura militar de forma ambígua e irreverente.
Legado
Após seu lançamento, Todos os Olhos foi inicialmente recebido com indiferença e até rejeição, sendo considerado "experimental demais" e levando Tom Zé ao "esquecimento pela mídia e pelo público" da época. Sua ousadia o excomungou de circuitos mais tradicionais da MPB. No entanto, o álbum experimentou uma notável redescoberta a partir do final da década de 2000, impulsionada em grande parte pela atenção de David Byrne, da banda Talking Heads, que, em 1989, descobriu a obra de Tom Zé e o assinou para sua gravadora Luaka Bop, introduzindo-o a um público internacional. O reconhecimento póstumo resultou em reedições significativas, incluindo seu lançamento em CD em 2000, na série "Dois Momentos", juntamente com o álbum Se o Caso é Chorar, e em 2017, como parte do box set Tom Zé – Anos 70. O disco também foi reeditado pela primeira vez fora do Brasil. Sua importância foi finalmente reconhecida em uma enquete do podcast Discoteca Básica, onde foi classificado como o 84º melhor álbum brasileiro por 162 especialistas musicais.
Faixas
Créditos
Heraldo Do Monte
Milton José
Grupo Capote
Rogério Duprat
Cleon, Dualib
José Cordeiro, Luiz Augusto Botelho
Décio Pignatari
Marcos Pedro Ferreira
Francisco Eduardo de Andrade, Reinaldo de Moraes
Augusto De Campos
Filmes

Tom Zé: Programa Ensaio
1991
O músico baiano fala sobre sua infância em Irará, sobre o tropicalismo, sobre o período que ficou no ostracismo, em São Paulo, e seu encontro com David Byrne. Acompanhado por Milton Belmudes (guitarra), Paulo Venegas (teclado), Lauro Lellis (bateria), Gilberto Assis (baixo), Eder Sandoli (guitarra / bandolim), Jarbas Mariz (cavaquinho / percussão), Tuca Fernandes (vocal), Maisa Santos (vocal) e Carmem Nakaso (Vocal), Tom Zé interpreta músicas de seu repertório como "Parque Industrial", "Hein?", "Só (Solidão)", "Lavagem da Igreja de Irará", "São São Paulo", "Se o Caso é Chorar", entre outras.

Escutando Tom Zé
2010
Em Escutando Tom Zé, Jorge Alfredo mostra o processo criativo do artista baiano, a quem acompanhou, durante muito tempo, para entender, também, a sua relação com a cidade de Irará, no interior baiano.
Tom Zé ou Quem Irá Colocar uma Dinamite na Cabeça do Século?
Tom Zé ou Quem Irá Colocar uma Dinamite na Cabeça do Século?
2000
Documentário sobre Tom Zé e seus métodos nada convencionais de criar música.

Homo Brasilis: Tom Zé, o Tropicalista Visionário
2023

Fabricando Tom Zé
2006
Livros

Os 500 Maiores Álbuns Brasileiros de Todos os Tempos
Ricardo Alexandre · 2022
A maior eleição de música brasileira já feita: 162 especialistas, entre jornalistas, críticos, músicos, produtores e podcasters, indicaram, cada um, 50 discos essenciais, apoiados por uma masterlist de mais de 2.000 obras. Encabeçada por Ricardo Alexandre, com tabulação de Sérgio Jomori, foi publicada em dezembro de 2022 em um livro de 200 páginas em capa dura, com projeto gráfico de Fernando Pires.
Tom Zé, o último tropicalista
Pietro Scaramuzzo · 2020
Considerada a primeira biografia oficial de Tom Zé, esta obra de Pietro Scaramuzzo explora a vida e a carreira do artista em profundidade, desde suas origens até os trabalhos mais recentes. É uma fonte essencial para entender o contexto e a criação de seus álbuns, incluindo 'Todos os Olhos'.
Tom Zé, Estudando o samba
Tom Zé, Charles Gavin, Elton Medeiros, Julio Medaglia · 2016
Escrito por Tom Zé em colaboração com figuras importantes da música brasileira, este livro aprofunda a relação do artista com o samba e sua metodologia de trabalho, especialmente na década de 1970. É uma obra essencial para compreender o processo criativo por trás de álbuns como 'Todos os Olhos'.
Tropicalista Lenta Luta
Tropicalista Lenta Luta
Tom Zé · 2003
Este livro, escrito pelo próprio Tom Zé, oferece insights sobre sua trajetória artística, o movimento tropicalista e sua filosofia musical. É uma fonte primária para entender o contexto e a criação de seus álbuns, incluindo 'Todos os Olhos', lançado em um período chave de sua carreira.
Análises
Todos os Olhos – Wikipedia
Wikipédia, a enciclopédia livre
MUSICA&SOM: Todos os olhos - 1973 - Tom Zé
tabernanovostempos.blogspot.com
Quarto LP da extensa carreira do mestre Tom Zé, segue a sua marca com faixas provocativas, humoradas, experimentais e muito apoiadas nas tradições populares.
MUSICA&SOM: Artista: Tom Zé; Álbum: Todos Os Olhos
tabernanovostempos.blogspot.com
Todos Os Olhos é um disco fantástico. Traz algumas de suas melhores músicas (na opinião de quem vos escreve, lógico) e uma enorme variedade de experiências muito a frente de sua época.
Tom Zé: Todos os olhos de uma vanguarda singular
revistaseda.org
This essay aims to think about the relationships between popular music and avant-garde, based on Tom Zé's LP Todos os olhos. Released by the Continental record label in 1973, Todos os olhos is a critique of the MPB institution.
Datas Especiais: 50 Anos de Todos os Olhos - Consultoria do Rock
consultoriadorock.com
A forma como ele lamenta o que seria uma separação das esposas, Augusta e Angélica, e as vocalizações dando a dramaticidade necessária para os lamentos de Tom Zé, certamente irão dar boas risadas com uma letra sensacional.