Série Música Popular (Discos Marcus Pereira)

Vários

1973

Top 100

Porque Merece Estar na Lista

A "Série Música Popular" dos Discos Marcus Pereira, lançada a partir de 1973, representa um marco fundamental na história da discografia brasileira, não como um álbum singular, mas como um ambicioso projeto editorial de mapeamento sonoro do Brasil. Com o objetivo primordial de resgatar e documentar as vastas e ricas manifestações musicais regionais do país, este trabalho coletivo de "Vários" artistas se destacou por sua abordagem etnográfica e pela defesa da autenticidade da cultura brasileira em um período de forte influência estrangeira na música. O selo buscou criar um verdadeiro "arquivo" em vinil do cancioneiro popular, inspirando-se nos estudos folclóricos de Mário de Andrade e combatendo o que considerava a descaracterização da MPB pela imitação de grupos internacionais. Através desta série, a Discos Marcus Pereira ofereceu uma plataforma inédita para a diversidade musical do Brasil, registrando ritmos e tradições de todas as regiões, do Nordeste ao Sul. A iniciativa não apenas valorizou artistas e expressões culturais muitas vezes ignorados pelo mercado fonográfico mainstream, mas também consolidou um acervo de inestimável valor cultural, transformando cada disco em um documento musical e histórico.

Contexto

O selo independente Discos Marcus Pereira foi fundado em 1973 pelo publicitário e bacharel em direito Marcus Pereira. Antes de se dedicar integralmente à produção fonográfica, Marcus Pereira já havia demonstrado seu interesse pela música brasileira através do bar "O Jogral", em São Paulo, um reduto de jornalistas, intelectuais e artistas que buscavam a "verdadeira" música popular brasileira, em oposição ao iê-iê-iê da época. O projeto da série "Música Popular" surgiu como uma resposta à dominância das grandes gravadoras e ao que Pereira e seus colaboradores, como Aluízio Falcão, percebiam como a ameaça do "imperialismo americano" à cultura musical brasileira. A criação da gravadora e, em especial, desta série, simbolizava uma militância em prol da independência da indústria fonográfica nacional e da preservação da identidade musical do Brasil.

Gravação

A gravação da "Série Música Popular" foi um empreendimento complexo e inovador, caracterizado por uma metodologia que combinava pesquisa de campo e produção em estúdio. Para as primeiras coletâneas, como a "Música Popular do Nordeste" (que consistia em quatro LPs lançados em 1973), houve um extenso levantamento de manifestações folclóricas. Esse processo envolvia a gravação de cantos e ritmos diretamente em seus locais de origem, com os próprios praticantes das culturas locais. Simultaneamente, a Discos Marcus Pereira também produzia gravações em estúdio com artistas mais conhecidos, buscando um equilíbrio para introduzir essa música regional a um público urbano mais amplo. Os discos eram frequentemente acompanhados de textos de intelectuais, conferindo um caráter de pesquisa e documentação ao trabalho fonográfico.

Músicas

A "Série Música Popular" abrangeu uma vasta gama de expressões musicais, refletindo a riqueza folclórica e popular de todas as regiões do Brasil. As coletâneas incluíram ritmos como frevo, ciranda, coco e bumba-meu-boi, especialmente na fase inicial dedicada ao Nordeste. O projeto buscou registrar as canções tradicionalmente cantadas por diferentes culturas no território nacional, desde o choro e o samba até o repente e o pífano, em uma verdadeira celebração da diversidade musical brasileira. As letras e composições registradas na série são um espelho da identidade brasileira, contando histórias, crenças e costumes de seu povo, e cada disco vinha com textos que contextualizavam as obras, elevando-as a documentos culturais duradouros.

Legado

A "Série Música Popular" dos Discos Marcus Pereira deixou um legado inestimável para a cultura brasileira. A coleção "Música Popular do Nordeste", que iniciou a série em 1973, foi premiada com o "Estácio de Sá" pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, um reconhecimento precoce da importância do trabalho. Ao longo de sua existência, entre 1973 e 1981, a Discos Marcus Pereira lançou cerca de 140 discos, nos mais variados estilos. Foi responsável pelos primeiros LPs de artistas que se tornariam ícones da música brasileira, como Cartola e Paulo Vanzolini, além de Donga e Quinteto Armorial, entre outros, que sem essa iniciativa, talvez não tivessem tido espaço no mercado fonográfico da época. Apesar do grande valor artístico e histórico, a empreitada enfrentou desafios financeiros, acumulando dívidas devido aos ambiciosos, mas de baixo retorno financeiro, projetos. A gravadora encerrou suas atividades após o falecimento de seu fundador em 1981, e seu acervo foi posteriormente adquirido pela Discos Copacabana e, mais tarde, pela EMI Music. Hoje, a coleção é considerada um monumento à criatividade do povo brasileiro e um "arquivo sonoro de um país", com estudos e esforços de relançamento que buscam preservar e difundir essas "joias" da música popular e folclórica nacional.

Ranking nas Listas

Livros