Levaguiã Terê

Vitor Araújo

2016

Capa de Levaguiã Terê
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Levaguiã Terê, lançado em 2016, representa um marco fundamental na trajetória artística do pianista e compositor Vitor Araújo. Este álbum duplo o solidificou como uma das vozes mais originais e ambiciosas de sua geração, descolando-o da imagem de "menino prodígio" para a de um criador maduro e experimental. A obra se destaca por sua complexidade e pela audaciosa fusão de elementos musicais. Araujo tece uma tapeçaria sonora que combina texturas da música erudita, ritmos de matriz africana, sons indígenas e eletrônicos, tudo sob uma arquitetura orquestral que é simultaneamente moderna e conceitual. O resultado é um trabalho profundamente brasileiro, mas com um alcance universal, onde a delicadeza dos arranjos convive com uma vibração por vezes roqueira e experimental, que o próprio artista chegou a definir como pop, desafiando categorizações simplistas. É um álbum que exige e recompensa a atenção do ouvinte, oferecendo uma experiência sonora rica em camadas e significados, que se revela mais a cada nova audição.

Contexto

Antes de Levaguiã Terê, Vitor Araújo já havia conquistado reconhecimento como um talentoso pianista clássico e, em 2012, lançara o elogiado "A/B", seu debut como compositor, que já apontava para um caminho experimental. Contudo, o artista sentia a necessidade de aprofundar seus conhecimentos em composição, mudando-se para São Paulo para estudar com o professor Mário Ficarelli. A ideia inicial para o novo disco era explorar temas relacionados ao candomblé. No entanto, uma viagem de Vitor ao Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco, e o contato com uma lenda indígena sobre um pássaro que voa por debaixo do mundo transformaram a concepção do trabalho. Essa lenda do "levaguiã terê" se tornou o cerne do álbum, expandindo-o para uma profunda reflexão sobre o sincretismo cultural brasileiro, abrangendo as heranças negra, indígena e europeia.

Gravação

Levaguiã Terê é um álbum duplo, lançado com o apoio do edital Natura Musical. A produção foi capitaneada por Bruno Giorgi em parceria com o próprio Vitor Araújo, com Giorgi também assumindo a engenharia de som, da gravação à masterização, garantindo a unidade sonora do complexo trabalho. A instrumentação é vasta e diversificada, transcendendo o piano, que em muitas faixas atua como um elemento da orquestra e não como solista principal. O álbum conta com a participação de um elenco notável de músicos, incluindo os percussionistas Nego Henrique, Rafa Almeida (ex-Cordel do Fogo Encantado) e Amendoim. Felipe Pacheco Ventura, guitarrista da banda Baleia, co-assinou as faixas de transição "Espelho / Rotunda" e "Rotunda / Espelho", enquanto Mateus Alves contribuiu na composição de "Toque n. 4: Caldí-Naguará". Uma orquestra completa, com cordas, sopros, metais e vibrafone, foi utilizada para criar os arranjos sinfônicos que definem a sonoridade do álbum.

Músicas

O álbum é conceitualmente dividido em duas partes, "Toques" (no primeiro disco) e "Cantos" (no segundo), totalizando quatorze faixas que se conectam em um diálogo contínuo. Cada "Toque" e "Canto" possui um subtítulo particular, como "Turvalema", "Ôgiffoxó", "Arcalandir" e "Túme Vaga-Lua", cujos nomes foram cuidadosamente pesquisados por Vitor Araújo e o professor Silvio Moreira em busca de palavras de origem indígena, iorubá e europeia que caíram em desuso, remetendo a mitos e histórias pouco documentadas. As composições são ricas em influências, desde a música de vanguarda e o pop experimental de artistas como Radiohead, Björk e The Knife, até a grandiosidade orquestral de Heitor Villa-Lobos e a fase mais experimental de Tom Jobim. A faixa de abertura, "Toque Nº 1: Rando Fálcigo", com mais de nove minutos de duração, é um exemplo da ambição instrumental do álbum, construindo um turbilhão sonoro que reflete o esmero do artista. O piano de Araújo, que sempre foi sua marca, se integra à orquestra, tornando-se um elemento entre muitos, salvo em "Toque n. 4: Caldí-Naguará", onde assume um papel solista.

Legado

Levaguiã Terê foi amplamente aclamado pela crítica especializada, sendo frequentemente citado em diversas listas de "melhores do ano" de 2016. Críticos o descreveram como "um dos melhores discos da música brasileira de 2016" e o "maior e mais ambicioso álbum nacional do ano", solidificando Vitor Araújo como um dos grandes nomes de sua geração. A obra recebeu uma média de 4.75 de 5 estrelas em plataformas como o Discogs, a partir de avaliações dos usuários. O álbum, inicialmente lançado em CD, ganhou uma edição em vinil duplo pela Nutriot Recordings em 2019, o que demonstra seu apelo duradouro e reconhecimento no cenário da música experimental e contemporânea. Seu impacto reside na forma como conseguiu sintetizar uma vasta gama de referências culturais e musicais, propondo uma nova abordagem à música brasileira de concerto e experimental.

Ranking nas Listas

Faixas

Referências