Revolver

Walter Franco

1975

Capa de Revolver
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em 1975, Revolver é o segundo álbum de Walter Franco e figura como um marco incontornável na discografia brasileira, sendo reconhecido como um dos trabalhos mais significativos de sua carreira. Distanciando-se das convenções da época, o álbum apresenta uma ousada fusão de rock, elementos psicodélicos, toques progressivos e até influências da música indiana, resultando em uma sonoridade que desafia categorizações simples. Este trabalho é a própria materialização do "rock concreto" de Walter Franco, uma abordagem que entrelaça a experimentação musical com a poesia concreta, da qual o artista era um notável expoente. Seu caráter inovador e sua sonoridade vanguardista o colocaram à frente de seu tempo, solidificando a reputação de Franco como um dos mais instigantes e destemidos artistas da MPB. O título "Revolver" por si só já insinua a proposta do disco: revirar, remexer e explorar as profundezas da experiência humana, além de ser uma sutil homenagem ao clássico álbum dos Beatles.

#50

Também é daqueles momentos únicos no Brasil, quando intelectualidade lírica acompanha de igual para igual o instrumental vigoroso de uma banda de rock.

Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil

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Contexto

Antes de Revolver, Walter Franco já cultivava uma imagem de artista audacioso e desafiador. Sua participação em festivais de música popular, especialmente no Festival Internacional da Canção de 1972 com a canção "Cabeça", causou estranhamento e foi marcada por vaias do público, ainda que elogiada pela crítica pelo seu experimentalismo. O primeiro álbum, "Ou Não" (1973), com arranjos de Rogério Duprat, aprofundou essa veia vanguardista, consolidando a percepção de Franco como um dos "malditos" da MPB, um rótulo que definia artistas geniais, porém frequentemente incompreendidos pelo grande público. Em um Brasil imerso na ditadura militar e na censura, a postura independente de Walter Franco, que nunca se alinhou a movimentos artísticos específicos, permitiu-lhe criar uma obra singular. Revolver emerge desse caldeirão cultural e pessoal, com Walter Franco explorando uma linguagem poética densa, conhecida como "pós-lírica" concreta, que buscava novos sentidos na palavra e no som, em contraste com a música mais palatável da época.

Gravação

Revolver foi lançado pela gravadora Continental e contou com a produção do próprio Walter Franco, em parceria com Carlos Alberto Sion, o que lhe conferiu total autonomia criativa sobre a obra. Um dos aspectos mais notáveis da gravação foi o uso inovador de efeitos de estúdio, executados por Pena Schmidt, que aplicou técnicas como playbacks invertidos, saturação de frequências e pré-mixagens, contribuindo para a atmosfera sonora singular do álbum. A ficha técnica do disco revela um time de músicos talentosos que soube traduzir a visão de Franco. Rodolpho Grani Jr. não apenas atuou como diretor musical e arranjador, mas também contribuiu com baixos elétricos, guitarras, violão e teclados. Emílio Carrera se destacou nos teclados, enquanto Diógenes Burani Digrado Filho e Dudu Portes cuidaram da bateria e percussão, enriquecendo a textura rítmica. A participação de Luiz Paulo em sintetizadores e sintonizadores também sublinha o caráter experimental e eletrificado do álbum.

Músicas

O álbum Revolver é composto por 14 faixas, em sua maioria, de autoria exclusiva de Walter Franco, com exceções para "Bumbo do Mundo", coescrita com Chico Bezerra, e "Cena Maravilhosa", com Cid Franco. As letras são uma marca registrada, influenciadas pelo concretismo e pela filosofia oriental, utilizando formas mântricas, jogos de palavras e desdobramentos de significado que convidam à reflexão. Faixas como "Feito Gente", que abre o disco, já impactam com uma interpretação vocal carregada e uma seção rítmica cadenciada. "Eternamente" é um exemplo de haicai sonoro, onde Walter Franco brinca com a sonoridade e os múltiplos sentidos das palavras: "Eternamente / É ter na mente / Éter na mente / Eterna mente". "Mamãe D'Água" emprega uma estrutura cumulativa, construindo sentidos progressivamente, enquanto "Toque Frágil" exibe vocais caóticos e um arranjo denso, com sintetizadores e guitarras. "Nothing", a única canção em inglês, reflete sobre a apatia existencial com uma instrumentação que mistura rock, pop e baião. Por fim, a breve "Pirâmides" é uma peça construtivista e sensorial, que combina harmonias quase bossanovistas com um tratamento vocal etéreo e reverberante, encapsulando o espírito experimental do disco.

Legado

Revolver é amplamente reconhecido como um divisor de águas na música brasileira e sua relevância foi selada pela inclusão na prestigiada lista dos "100 Maiores Discos da Música Brasileira" da Rolling Stone Brasil. Embora inicialmente tenha sido recebido com estranhamento e pouca aceitação, devido à sua natureza inovadora, o álbum gradualmente conquistou o reconhecimento merecido, sendo considerado uma obra à frente de seu tempo. O "rock concreto" e o experimentalismo audacioso de Revolver estabeleceram novos paradigmas para a canção brasileira, influenciando o cenário musical mesmo antes de movimentos como a Vanguarda Paulista. Um fato notável de seu reconhecimento internacional é a menção de que John Lennon teria apreciado o álbum, chegando a ter o LP do brasileiro em sua mesa, conforme uma foto da época. Revolver não apenas injetou uma dose de rock na linguagem de Walter Franco, mas também pavimentou caminhos para futuras experimentações na MPB, tornando-se um álbum cultuado e um testemunho da genialidade de um artista que sempre desafiou os limites da forma.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo

Diogenes Burani Filho

Arranjo, Mixagem

Rodolpho Grani Júnior

Arranjo, Produção

Walter Franco

Produção Executiva [Direction]

Carlos Alberto Sion

Diretor Musical

Rodolpho Grani Júnior

Supervisão de Gravação

Pena Schmidt

Música

Walter Franco

Voz

Diogenes Burani Filho, Dudu Portes, Emílio Carrera, Luiz Simas, Rodolpho Grani Júnior

Acordeão

Emílio Carrera

Violão

Emílio Carrera, Rodolpho Grani Júnior, Walter Franco

Violão [Craviola]

Rodolpho Grani Júnior

Administrator

Odair Corona

Baixo

Rodolpho Grani Júnior

Bateria

Diogenes Burani Filho, Dudu Portes

Effects

Diogenes Burani Filho, Dudu Portes

Flauta

Dudu Portes, Tony Osanah

Guitarra

Rodolpho Grani Júnior

Lap Steel Guitar

Rodolpho Grani Júnior

Órgão

Emílio Carrera, Rodolpho Grani Júnior

Percussão

Diogenes Burani Filho, Dudu Portes

Piano

Emílio Carrera, Rodolpho Grani Júnior

Producer [Assistant], Mixagem

Pena Schmidt

Steel Guitar

Rodolpho Grani Júnior

Sintetizador

Luiz Simas

Mixagem

Diogenes Burani Filho, Flavio Augusto Barreira, Luiz Antonio Carlos Baptista

Mixagem, Capa

Walter Franco

Técnico [Recording]

Flavio Augusto Barreira, Jose Luiz Costa, Luiz Antonio Carlos Baptista

Direção de Arte

Oscar Paolillo

Arte

Paula Yne Tanaka

Capa

Beth Carvalho, Chico Bezerra, Cicero Franco, Eliana, Mario Luiz Thompson, Paula Yne Tanaka

Fotografia

Mario Luiz Thompson

Podcasts

Referências

Livros