Chão da Mangueira

Xangô da Mangueira

1982

Capa de Chão da Mangueira
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Chão da Mangueira, lançado em 1976, é um álbum emblemático na discografia de Xangô da Mangueira, uma das vozes mais autênticas e respeitadas do samba. Este trabalho consolida a essência do sambista como um mestre do partido-alto, gênero em que se destacou pela improvisação e pela profunda conexão com as raízes do samba carioca. O disco transcende a mera gravação musical, representando um registro vital do samba de terreiro e de outras vertentes que Xangô dominava com maestria. Através de suas faixas, o álbum oferece um panorama da rica cultura musical que florescia nos morros e subúrbios do Rio de Janeiro, com a Mangueira como seu principal berço. A sonoridade do disco é um convite a adentrar no universo do samba tradicional, marcado pela cadência, pelo improviso e pela narrativa poética do cotidiano e das festas populares. É uma obra que ressoa a tradição e a inovação intrínsecas ao samba. O estilo musical presente em Chão da Mangueira abrange o partido-alto, jongo, samba de roda e samba de breque, demonstrando a versatilidade de Xangô em transitar por diferentes matizes do samba. Sua voz grave e rústica, forjada na vivência do samba e na ligação com a Estação Primeira de Mangueira, confere ao álbum um caráter único e atemporal, sendo um testemunho da riqueza cultural afro-brasileira.

Contexto

Olivério Ferreira, o Xangô da Mangueira, nasceu em 1923 no Rio de Janeiro e iniciou sua trajetória no samba na década de 1940, passando por escolas como União de Rocha Miranda e Portela, onde foi discípulo de Paulo da Portela. Sua mudança para a Estação Primeira de Mangueira, com a permissão e aval de seu mestre, marcou o início de uma dedicação de mais de cinco décadas à verde e rosa. Antes de "Chão da Mangueira", Xangô já havia se consolidado como um "puxador de samba" e, posteriormente, como diretor de harmonia da escola por muitas décadas, cargo que lhe dava a responsabilidade de dar a "puxada" no samba, entoando a primeira passada no tom certo para o coral da escola. Na década de 1970, Xangô da Mangueira já tinha gravado outros LPs pela gravadora Tapecar, como "O Rei do Partido-Alto" (1972) e "Velho Batuqueiro" (1975), e desenvolvia intensa atividade artística, apresentando-se como cantor no Brasil e no exterior. "Chão da Mangueira" foi lançado neste período de efervescência de sua carreira fonográfica, sendo o terceiro de quatro álbuns gravados por ele na Tapecar.

Músicas

O álbum Chão da Mangueira apresenta uma seleção de sambas que refletem a diversidade e a profundidade do universo de Xangô. Entre as faixas notáveis, destaca-se "Festa de Santo Antônio", uma composição de Dona Ivone Lara que Xangô gravou antes mesmo de a própria autora a registrar em disco solo. Nesta canção, que se tornou trilha obrigatória em festas de samba rock, Bezerra da Silva contribuiu com sua percussão na tumbadora. Outras composições importantes do álbum incluem "Mineiro, Mineiro" (de Rubem da Mangueira e Ivan Carlos), "Você Não é Não" (de Alcides da Portela e Xangô), "O Pagode Levanta Poeira" (de Xangô e Zagaia), "Amaralina" e "Catimbó" (ambas parcerias de Xangô com Waldomiro do Candomblé). A faixa "Isso Não São Horas", de Xangô e Catoni, também é ressaltada, com a participação de Catoni e Jorge Zagaia em um duelo de versadores, característica marcante das rodas de partido-alto. As letras frequentemente exploram a vivência rural do sambista, incorporando elementos do jongo, calango e até do repente nordestino, misturando influências que moldaram seu estilo de partido-alto urbano com toques caipiras.

Legado

A importância de Chão da Mangueira, e de toda a obra fonográfica de Xangô da Mangueira, foi reafirmada em 2012, quando seus quatro primeiros discos, incluindo este álbum, foram reeditados em CDs pelo selo Discobertas, com capas e contracapas originais. Essa reedição atesta a relevância histórica de Xangô para o samba, garantindo que sua discografia essencial permanecesse acessível a novas gerações. Embora não haja dados específicos sobre vendas ou premiações imediatas na época de seu lançamento original em 1976, a influência de Xangô da Mangueira é inegável, estendendo-se a diversos representantes do gênero, como Martinho da Vila. Composições de Xangô foram gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Clara Nunes e Roberto Ribeiro, demonstrando a projeção de suas obras para além de sua própria voz. O álbum "O Rei do Partido-Alto" (1972), por exemplo, continha a versão original de "Quando Vim de Minas", popularizada por Clara Nunes em 1973. A reedição de seus discos em 2012 e eventos como o "Tributo a Xangô da Mangueira – 100 Anos" em 2023, reforçam o reconhecimento póstumo de sua contribuição duradoura para a MPB e, em particular, para o samba.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Jorge Coutinho

Capa

Chico Brahmma

Fotografia

Alexandre De Souza Lima

Referências

Livros