Zé Keti
Zé Keti
1973

Porque Merece Estar na Lista
O álbum Zé Keti, lançado em 1973, representa um momento crucial na discografia de um dos maiores cronistas do samba carioca. Zé Keti, figura central na revelação do cotidiano e das vozes dos morros, solidifica neste trabalho sua maestria em traduzir a alma do samba de raiz para o grande público. Suas composições são um retrato pungente da vida nas comunidades, abordando temas sociais, o dia a dia, os amores e as dores com uma sensibilidade e uma poética singulares. O disco é um convite à imersão no universo do samba autêntico, pulsante e carregado de significado. Através de sua voz marcante e suas letras profundamente enraizadas na realidade brasileira, Zé Keti neste álbum demonstra por que é considerado um dos pilares da música popular brasileira. O estilo vocal característico, aliado à riqueza melódica e à profundidade lírica de suas composições, faz deste LP uma obra essencial para entender a força e a beleza do samba em sua essência mais pura. O álbum ressoa como um testemunho da capacidade do artista de transcender barreiras sociais e geográficas, levando a "voz do morro" para além de suas origens e cimentando seu lugar no panteão da música nacional.
Contexto
Zé Keti, nascido José Flores de Jesus em 1921, já era uma figura consolidada na cena do samba carioca antes do lançamento deste álbum em 1973. Ele iniciou sua trajetória na década de 1940, na ala de compositores da Portela, e logo se destacou por sua capacidade de narrar a vida nas favelas através do samba. Sua carreira deslanchou em 1955, com o sucesso de "A Voz do Morro" na trilha do filme "Rio 40 Graus". Em 1964, participou do influente espetáculo "Opinião", ao lado de João do Vale e Nara Leão, o que amplificou o alcance de suas composições como "Opinião" e "Diz que Fui por Aí". Em 1973, Zé Keti havia se afastado da Portela por divergências, mas continuava a produzir e se apresentar, mantendo-se como um artista engajado e um expoente do samba. Nessa época, Zé Keti era reconhecido por ter um temperamento tímido, o que lhe rendeu o apelido "Zé Quietinho" ou "Zé Quieto", que evoluiu para seu nome artístico. Ele foi precursor na união do samba de morro com a bossa nova, colaborando com compositores como Carlos Lyra e introduzindo o "samba fino" nas rodas de terreiro. Sua obra se destacava por uma "poética malandra e ingênua", que descrevia a essência dos morros cariocas, frequentados por ele diariamente.
Gravação
A gravação original que deu origem ao álbum de 1973 foi realizada em 4 de julho de 1973 para o programa "MPB-Especial", da TV Cultura de São Paulo, sob a direção de Fernando Faro. Este formato de programa alternava músicas com depoimentos do artista focalizado, o que sugere um registro mais íntimo e focado na performance e nas narrativas de Zé Keti. Embora detalhes específicos sobre o estúdio ou técnicas de gravação não sejam amplamente divulgados, sabe-se que o produtor do LP foi Durval Ferreira e o encarte do álbum foi escrito por Paulinho da Viola. Posteriormente, em 2000, o material foi relançado em CD, acompanhado de um livro com a transcrição dos depoimentos do artista, enriquecendo a experiência do ouvinte ao oferecer um vislumbre mais profundo das palavras e pensamentos de Zé Keti.
Músicas
O álbum de 1973 apresenta uma seleção robusta de sambas que ressaltam a habilidade composicional de Zé Keti. Entre as faixas de destaque, encontramos "Acender as Velas", que trata com lirismo as dificuldades enfrentadas pela população pobre, retratando as despedidas e velórios improvisados nas comunidades. Outras canções notáveis incluem "Mascarada", uma parceria com Elton Medeiros, e "Nega Dina", que também foi lançada como compacto simples em 1964. O disco também conta com clássicos como "Opinião" e "Diz que Fui por Aí", esta última em parceria com Hortênsio Rocha, ambas canções que se tornaram hinos de protesto e de expressão da identidade do morro. As letras de Zé Keti são um espelho do cotidiano e da cultura carioca, capturando a essência da vida nas favelas de forma singular e profunda, utilizando o samba como veículo para questionar a ordem estabelecida e dar voz aos marginalizados. A presença de "Drama Universal", "Praça Onze, Berço do Samba", "Madrugada", "Malvadeza Durão", "Em Tempo" e "O Meu Pecado" complementam o repertório, consolidando o álbum como uma vitrine da diversidade temática e melódica do samba de Zé Keti.
Legado
O álbum Zé Keti de 1973, e a obra do artista de forma mais ampla, deixou um legado inegável para a música brasileira. Canções presentes no disco, como "Acender as Velas", "Opinião", "Diz que Fui por Aí" e "Máscara Negra", tornaram-se clássicos e foram reinterpretadas por uma vasta gama de artistas renomados, incluindo Nara Leão, Elis Regina, Elza Soares, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Gilberto Gil e Marisa Monte, entre muitos outros. Essa constante regravação e apropriação por diferentes gerações de músicos atestam a atemporalidade e a relevância das composições de Zé Keti. Sua influência é reconhecida em diversos gêneros da música brasileira, e Zé Keti é aclamado por ter levado o samba das comunidades e morros para além de suas fronteiras, fazendo com que conversasse com outras artes e fosse valorizado por diferentes correntes artísticas e rádios. O artista recebeu diversas homenagens e reconhecimentos ao longo de sua carreira e postumamente, incluindo o Prêmio Shell de Música pelo conjunto de sua obra em 1998, que celebrava mais de 200 composições. Em 2011, foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras dentro do projeto "MPB na ABL", reforçando seu status como uma das maiores e mais destacadas personalidades da cultura brasileira no século XX.