A Peleja do Diabo com o Dono do Céu
Zé Ramalho
1979

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1979, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu é o segundo álbum solo de Zé Ramalho e um marco essencial em sua discografia, consolidando a sonoridade mística e nordestina que o consagraria como um dos grandes nomes da MPB. O disco aprofunda a verve poética e contestadora do artista, trazendo uma visão maniqueísta da vida, onde o embate entre o bem e o mal, entre o divino e o profano, se manifesta em múltiplas camadas, seja na crítica social ou nas reflexões existenciais. Este trabalho singular destaca-se pela fusão inconfundível de elementos do rock progressivo, folk, blues e a rica tradição musical do Nordeste brasileiro, como o forró e o frevo. Zé Ramalho constrói uma paisagem sonora que transita entre o arcaico e o moderno, com letras densas e imagéticas que se inspiram na literatura de cordel e na oralidade dos cantadores, criando um universo lírico que é ao mesmo tempo particular e universal.
Contexto
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu chega um ano após o bem-sucedido álbum de estreia homônimo de Zé Ramalho (1978), que já havia apresentado ao público sucessos como "Avôhai" e "Chão de Giz". Naquele período, o Brasil vivia a efervescência da abertura política pós-ditadura militar, um cenário propício para a emergência de vozes que, como a de Zé Ramalho, mesclavam a contestação social com a rica cultura popular brasileira e influências internacionais. O artista paraibano já carregava uma trajetória que incluía a participação na banda The Gentlemen e a gravação do cultuado álbum psicodélico Paêbirú, com Lula Côrtes, em 1975. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Zé Ramalho se estabeleceu como um compositor de grande talento, e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu representou a solidificação de sua identidade artística, reafirmando sua capacidade de criar obras que eram, ao mesmo tempo, profundamente enraizadas em sua origem nordestina e vanguardistas em sua concepção.
Gravação
O álbum foi gravado em junho de 1979 nos Estúdios CBS, no Rio de Janeiro, e lançado em setembro do mesmo ano. A produção ficou a cargo de Carlos Alberto Sion, que já havia trabalhado no disco de estreia do artista, com Zé Ramalho também atuando na direção de estúdio e musical, em colaboração com Paulo Machado. A concepção visual do álbum, idealizada pelo próprio Zé Ramalho, é um capítulo à parte. A capa icônica, dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso, apresenta o cantor empunhando um violão, interpretando o "dono do Céu", enquanto é espreitado pela atriz Xuxa Lopes, em um papel vampiresco, e ameaçado pelo lendário cineasta Zé do Caixão (José Mojica Marins). A fotografia foi tirada em um casarão abandonado em Santa Teresa, Rio de Janeiro, e o encarte também conta com a participação de figuras como Hélio Oiticica e Satã (guarda-costas de Zé do Caixão), além de ilustrações de Seth e símbolos de Raul Córdula, evidenciando uma estética ousada e alinhada à contracultura da época.
Músicas
As faixas do álbum são um mergulho profundo no universo de Zé Ramalho, repletas de lirismo e crítica social. "Falas do Povo" é um exemplo direto, com suas críticas sociais e a participação de Jorge Mautner no violino, sendo dedicada a Geraldo Vandré, uma das influências notáveis do cantor. Já "Beira-Mar" inaugura uma trilogia de canções baseadas em um folheto de cordel intitulado "Apocalypse", escrito por Zé em 1977, demonstrando a intertextualidade e a profundidade de sua obra que se estenderia por álbuns futuros. A faixa instrumental "Agônico" é um tour de force do próprio Zé Ramalho, que executa todos os instrumentos, desde violas e baixo até percussão e piano, criando uma sonoridade que, segundo ele, conecta a música do Nordeste brasileiro à herança moura. "Frevo Mulher", inicialmente composta para o repertório de sua então esposa, Amelinha, que inclusive faz um dueto com ele em "Pelo Vinho e Pelo Pão", tornou-se um dos grandes clássicos de sua carreira. Outra canção de destaque é "Admirável Gado Novo", uma das mais icônicas do disco, que, com seu conteúdo político-social e referências a Aldous Huxley e George Orwell, transformou-se em um hino popular, mesmo sendo lançada durante a Ditadura Militar.

Na leva nordestina dos anos 1970, ao paraibano de Brejo da Cruz José Ramalho Neto, o Zé Ramalho, nascido em 1949, coube rebobinar para a sintaxe de guitarras pós-tropicalistas a literatura de cordel e a cantoria versificada dos bardos do sertão.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu foi um sucesso imediato, rendendo a Zé Ramalho sua primeira certificação de disco de ouro, um feito significativo para o período. O álbum não só consolidou a carreira do artista após o sucesso de seu trabalho de estreia, mas também cravou seu nome como um dos mais importantes compositores e intérpretes da música brasileira. Canções como "Admirável Gado Novo" e "Frevo Mulher" transcenderam o álbum, tornando-se clássicos atemporais da MPB, regravadas por diversos artistas e presentes no imaginário popular. A obra é frequentemente citada como um dos discos fundamentais da música brasileira, destacando-se pela originalidade de sua temática e pela riqueza de sua fusão musical, que influenciou gerações de artistas e continua relevante para a compreensão da cultura e da sociedade brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Zé Ramalho
Carlos Alberto Sion, Paulo Machado, Zé Ramalho
Lígia Itiberê, Marcelo Falcão
Carlos Alberto Sion
Carlos Alberto Sion, Zé Ramalho
Zé Ramalho
Paulo Machado
Seth
Gilson De Freitas
Gilberto Marquez
Eugênio Carvalho, Manoel Magalhães
Jorge Emilio Isaac
Zé Ramalho
Pedro Osmar
Helio Oiticica, Mônica Schmidt, Satã, Xuxa Lopes, Zé Do Caixão
Luciano Figueiredo, Oscar Ramos
Carlos Alberto Sion
Ivan Cardoso
Raul Cordula
Hildebrando Gomes
